Grande Muralha Solar. Como a China se preparou durante anos para a crise do Irão
- 09/04/2026 03:00
- Redação
Ninguém melhor do que a China está preparado para a crise energética criada com a guerra no Irão. O paradoxo está à vista: o maior poluidor do planeta é também o que mais investe em energia limpa. Em Havana, onde o bloqueio dos EUA tem provocado apagões, Pequim garante painéis solares. Os ganhos? Consolida ligações de segurança e fecha negócios de milhões.
Na mesma região, a Mongólia Interior, duas outras grandes muralhas crescem no deserto. A Grande Muralha Verde e a Grande Muralha Solar, porque o nome icónico era demasiado bom para não ser aproveitado. Juntas, reforçam o papel da China como maior investidor em energia limpa — o que pode parecer incongruente já que o país é também o mais poluidor do mundo.
Olhando para aquela região, o que se vê do espaço, com as mesmas lentes de alta potência, é um cavalo a galope feito de milhares de painéis solares. A sua definição, na fotografia, é bastante melhor do que a da muralha que corre a China ao longo de mais de 21 mil quilómetros.
Aquele cavalo também tem um recorde mundial e não precisou de dois mil anos para ser construído. Bastaram dois. É a maior imagem de painéis solares, segundo o Guinness World Records. Faz parte da Central Solar Junma (cavalo nobre em mandarim), uma das várias infraestruturas da Grande Muralha Solar.
Em 2017, os primeiros painéis começaram a surgir no deserto de Kubuqi. Em 2019, os satélites já mostravam um cavalo desenhado na areia. Mas só em 2025, com 2030 como meta, os painéis solares começaram a ser colocados em força no deserto.
Pondo em perspetiva, Junma é um grão de areia no grande plano chinês. Os 196.320 painéis solares dispostos como um cavalo ocupam 1,4 quilómetros quadrados. Quando estiver terminada, a Grande Muralha Solar vai ter 2 mil quilómetros quadrados.
São 400 quilómetros de comprimento — de Melgaço ao Cabo de Santa Maria são 561 de caminho — e 5 quilómetros de largura. A potência? Um máximo de 100 gigawatts.
(Se um watt é a energia necessária para a luz de presença de qualquer televisão, imagine 100 mil milhões de luzinhas vermelhas a piscar. É isso a Grande Muralha Solar, equivalente a 100 centrais nucleares.)
Num tempo diferente, em 1978, outro megaprojeto nasceu. Era a Grande Muralha Verde (Programa de Florestas de Proteção dos Três Nortes) e plantou 66 mil milhões de árvores para estabilizar dunas. O objetivo era travar o crescimento dos desertos de Gobi e Taklamakan, que todos os anos engolem território chinês com as suas areias. O processo não foi travado, apenas atenuado.
Era preciso mais. Depois da barreira biológica, a tecnológica. Sem a primeira, a região seria incapaz de suportar a maior central solar do mundo.
Também há fragilidades. Parte do projeto inclui o apoio de centrais a carvão, contrariando a ideia de que o projeto é totalmente verde. As dunas e outros habitats frágeis são perturbados durante a construção, com bulldozers a nivelar o terreno. As tempestades de areia reduzem a eficiência dos painéis e exigem limpeza constante. E há impactos sociais, como restrições ao pastoreio tradicional das comunidades mongóis.
Com carvão barato e abundante, a China ultrapassou os EUA como maior produtor de dióxido de carbono em 2005 e nunca mais desceu do pódio.
As emissões de dióxido de carbono da China ficaram estáveis durante 18 meses. A versão otimista é a de que isso pode significar que a China atingiu o pico de emissões antes de 2030, que era o seu objetivo. A pessimista é de que é um erro na matrix.
Mas, alerta Myllyvirta, nem todas as áreas da segunda maior economia do mundo estão a contribuir para a descarbonização. As emissões aumentaram noutros setores, à conta do crescimento da produção de plásticos e outros produtos químicos, embora o saldo final tenha sido a estagnação de CO₂.
Esse balanço mereceu uma salva de palmas. “A China está a apresentar soluções que são para todos, não apenas para a China”, afirmou, em novembro, André Corrêa do Lago, diplomata brasileiro e presidente da COP30. “Os painéis solares estão mais baratos e são tão competitivos que agora estão por todo o lado.”
O que o diplomata disse é factual: se em 2010, a China gerava menos eletricidade a partir do Sol do que seis outros países (Alemanha, Espanha, Estados Unidos, Japão, Itália e Coreia do Sul), passados 16 anos produz mais painéis solares do que o resto do mundo junto. E há mais: um em cada sete painéis solares produzidos no mundo é fabricado numa única instalação chinesa, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).
Não são só painéis. Veículos elétricos e baterias são outros dois setores em que Xi Jinping aposta tudo.
Apesar disso, a China não escapa às críticas do Ocidente. A União Europeia acusa-a de "práticas comerciais desleais", e de produzir em excesso para eliminar a concorrência. As Nações Unidas denunciam trabalho forçado e violações dos direitos humanos em algumas partes da cadeia de abastecimento. Pequim nega tudo.
Num único ano, a China adicionou 373,6 gigawatts (1 gigawatts são mil milhões de luzinhas vermelhas, lembra-se?) de capacidade em energia renovável ao planeta. Mais de metade de toda a capacidade solar existente é chinesa.
Em números exatos, Pequim foi responsável por 63,8% do crescimento mundial de energias renováveis; 61,5% de toda a nova energia solar é sua; 70,5% da nova energia eólica também.
Tudo aponta para que 2025 (os dados da IRENA ainda não fecharam) seja melhor. Na China, fala-se em novos recordes. Os dados oficiais, da Administração Nacional de Energia, apontam para 315 gigawatts de solar e 119 gigawatts de eólica. Feita a matemática, são 434 gigawatts num só ano.
Em contrapartida, a produção termoelétrica na China, baseada em carvão, caiu em 2025 pela primeira vez em 10 anos, segundo dados do governo, divulgados em janeiro de 2026. A conclusão é a de que as renováveis respondem ao crescimento da procura, na ordem dos 6%.
"A energia limpa cresceu suficientemente rápido para suprir todo o aumento da procura por eletricidade na China e ainda sobrar", afirmou, ao mesmo jornal, Qi Qin, do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, uma organização de investigação independente, sediada na Finlândia, sem fins lucrativos. "Os combustíveis fósseis estão a ser eliminados da matriz energética. Este é o primeiro sinal real de que a China se aproxima de um ponto de inflexão estrutural."
A autossuficiência pode ser o principal motivo de Xi Jinping, Presidente da República Popular da China desde 2013, para explorar o caminho verde. Mas há muito a ganhar no mercado das renováveis, seja em valor financeiro — as empresas chinesas participaram em mais de 500 projetos renováveis no estrangeiro —, seja em relações diplomáticas.
Há um exemplo no mar das Caraíbas. Ali, mesmo sem provas, acredita-se que Pequim tem pontos de espionagem que recolhem informações sobre Washington.
Quando o Presidente dos EUA, Donald Trump, cortou (ainda mais) o petróleo a Cuba, a China já tinha investido em energia solar. Entre Havana e Pequim havia um compromisso fechado, desde 2025, para construir mais de 92 parques solares até 2028 na ilha das Caraíbas.
O dinheiro gasto por Cuba com equipamentos fotovoltaicos made in China disparou. De cinco milhões de dólares, em 2023, subiu para 117 milhões de dólares, em 2025, segundo dados do think tank sobre energia Ember.
Enquanto isso, o preço do barril do petróleo vai subindo e descendo à velocidade com que Donald Trump faz novos anúncios nas redes sociais, como aconteceu na quarta-feira, depois de anunciado um cessar-fogo com o Irão.
Mas estar insatisfeito não é sinónimo de estar despreparado. Pequim tem a maior reserva estratégica de petróleo do mundo, equivalente a vários meses de consumo interno. E terá sempre as renováveis.