Plano de paz em Gaza "está a falhar", alertam organizações humanitárias

Plano de paz em Gaza "está a falhar", alertam organizações humanitárias

  • 09/04/2026 18:24
  • Redação

Seis meses após o cessar-fogo para Gaza promovido pela administração Trump, a sua aplicação "está a falhar", concluíram cinco organizações humanitárias num relatório divulgado esta quinta-feira.

Segundo as organizações, a população palestiniana continua a enfrentar "privação extrema, fome, ferimentos e morte" devido à continuidade dos ataques israelitas, às restrições de movimento e à obstrução da entrada de ajuda humanitária.

"A violência continua diariamente. Há destruição de edifícios, mas há algo muito mais importante. As mortes continuam. Os ataques indiscriminados continuam e, por isso, não existe, na prática, um cessar-fogo em Gaza hoje", afirmou, durante uma conferência de imprensa, o presidente da Refugees International, Jeremy Konyndyk.

Mesmo que a atividade militar israelita tenha reduzido substancialmente, "não há como olhar para o nível de violência em Gaza hoje e chamar a isso um cessar-fogo", salientou.

Em declarações por videoconferência a partir de Gaza, uma responsável de comunicação da Oxfam, Ghada Al Haddad, descreveu um cenário de aparente normalidade que esconde uma realidade de carência profunda.

"O mundo vê imagens de camiões a entrar em Gaza, mas uma grande parte transporta bens comerciais acessíveis apenas a uma minoria que ainda tem algum dinheiro. A maioria perdeu tudo: rendimento, emprego, terras e meios de subsistência e não conseguem pagar a comida nas prateleiras", vincou.

Al Haddad também destacou a falta de combustível, essencial para manter operacionais hospitais, clínicas e bombas de água.

Também em Gaza, Shurouq, uma gestora de comunicação da organização Save the Children, sublinhou que "as crianças continuam a ser as mais atingidas" pelo conflito, expostas a violência extrema, deslocação, fome e doenças, com efeitos também saúde mental.

Segundo dados citados pela responsável, "mais de 180 crianças foram mortas durante o período de cessar-fogo, e mais de 20 mil desde o início do conflito em outubro de 2023".

Shurouq descreveu a tentativa da organização de criar "espaços amigos das crianças" onde estas "possam brincar, aprender e sentir-se seguras novamente".

No entanto, lamentou, a realidade no terreno "é de uma infância perdida", contando como as "crianças brincam à guerra", fingindo lançar mísseis e morrer.

A trabalhadora humanitária partilhou uma experiência pessoal após oferecer uma boneca à filha de três anos, algo que comprou com dificuldade e por um preço cinco vezes acima do normal devido às restrições das autoridades israelitas.

"Dias depois, vi a minha filha e a prima chamarem-lhe 'mártir'. Como mãe, tentei protegê-la o máximo possível de cenas de morte, mas é impossível. Ela não é a única", confiou.

A responsável apontou para o colapso do sistema educativo, após três anos consecutivos sem aulas porque quase todas as escolas foram destruídas.

Uma médica pediátrica e voluntária humanitária que esteve em Gaza em fevereiro, Tanya Haj-Hassan, confirmou que "não há qualquer cessar-fogo no terreno".

"Desde o momento em que cheguei, houve bombardeamentos constantes, era como estar no meio de uma guerra. Os colegas disseram-me que tem sido assim desde o início do 'cessar-fogo'", contou.

A médica testemunhou a destruição de instalações hospitalares e denunciou restrições arbitrárias impostas à entrada de equipamento médico e à saída de pacientes para tratamento.

"Durante o tempo que estive em Gaza, quatro crianças com doenças cardíacas curáveis morreram à espera de evacuação médica. Estas mortes não foram violentas, mas são resultado direto das políticas que proíbem a saída de doentes", criticou.

Crianças e adultos saudáveis também estão a desenvolver insuficiência respiratória por causa do ar saturado de pó das demolições, referiu.

Um acordo de cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025 entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, colocando fim a dois anos de guerra no enclave, desencadeada pelo ataque de 07 de outubro de 2023 do grupo extremista no sul do território israelita, no qual cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 sequestradas.

Em retaliação dos ataques do Hamas em outubro de 2023, Israel lançou uma operação militar em grande escala no enclave palestiniano, que provocou mais de 72 mil mortos, segundo as autoridades locais controladas pelo grupo islamita, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.

  • Fonte: Rádio Renascença
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