UE participa em negociações "discretas" sobre Ormuz e tem "grande oportunidade", diz ex-embaixador europeu
- 10/04/2026 03:00
- Redação
“Se estou bem informado, há contactos nesse sentido, discretos, porque a Europa pode influenciar a posição de Israel de alguma maneira, do ponto de vista de ponderação da sua atuação neste momento. Temos a alta representante nos países do Golfo, o Keir Starmer na região. Eu não me admiraria que outros líderes europeus fossem para a região nos próximos dias”.
Na leitura deste diplomata europeu, a UE tem “capacidade” para ser ouvida pelas partes interessadas e não deve desperdiçar essa oportunidade – não só pela relevância económica do estreito de Ormuz, mas também porque pode ser uma forma de Bruxelas voltar a ganhar relevância política.
E, para isso, a estratégia mais profícua pode passar por falar a várias vozes e em conjunto com outras personagens geopolíticas.
“E, se puder, que o faça em cooperação com países que ainda têm mais interesse nessa estabilização como os países asiáticos, como a China. Acho que isto é uma grande oportunidade para a China ser um ator mundial responsável, defender os seus próprios interesses, do ponto de vista do abastecimento de petróleo e uma grande oportunidade de saber estar à mesa principal”, defende.
Já quanto às Nações Unidas, o caso é bem diferente. Para o antigo embaixador (que chefiou a missão diplomática europeia junto da ONU), nem o secretário-geral António Guterres nem outro organismo da instituição podem assumir compromissos para ajudar a construir uma solução de longo prazo no Médio Oriente.
Seja para mediar um acordo vinculativo (como pedido pelo Irão) ou para chefiar uma missão de paz na zona, a ONU está “bloqueada”, desde logo por não conseguir ultrapassar o entrave do Conselho de Segurança, onde Rússia, EUA, China, França e Reino Unido têm poder de veto.
“O Conselho de Segurança está paralisado e está paralisado sobretudo porque alguns dos seus membros permanentes, os chamados PC5, são ativos violadores da Carta das Nações Unidas”, lamenta Vale de Almeida. “Nada se pode esperar do Conselho de Segurança que seja efetivamente relevante na gestão deste conflito”.
Donald Trump acusa o Irão de quebrar o cessar-fogo nas alíneas sobre Ormuz, ao mesmo tempo pede a Israel para atenuar os ataques contra o Líbano, enquanto Benjamin Netanyahu anuncia negociações com o governo libanês (e não o Hezbollah). Estes avanços e recuos vão continuar a surgir e são a prova, segundo Vale de Almeida, do cenário de grande “imprevisibilidade” das próximas semanas – e, por isso, nenhuma opção pode ser “excluída”, incluindo o cancelamento da primeira ronda de negociações no Paquistão.
“Se há uma coisa que caracteriza este conflito é a total falta de preparação – dos Estados Unidos – e, obviamente, uma situação iraniana de algum desespero em que o objetivo fundamental é salvar o que se puder salvar. Não tinha dúvidas nenhumas de que este cessar-fogo não seria sustentável imediatamente, parecia-me demasiado frágil. Temos de estar preparados para todas as eventualidades”.
Já quanto à circulação no estreito de Ormuz, Vale de Almeida não estranhou a imposição do Irão de limitar a circulação diária em 15 navios durante o cessar-fogo – e até considera possível que um acordo de paz conceda ao Irão o poder de limitar a circulação de navios.
“Só me surpreende que ainda não tenha sido anteriormente objeto [destas limitações]. A capacidade de ‘leverage’ (em português, “poder”) do Irão no estreito de Ormuz é imensa. No futuro, o estreito de Ormuz não voltará a ser o que era. Terá de haver uma solução qualquer que seja partilhada pelo Irão, talvez para alguns países do Golfo e talvez não só”, admite.
O melhor é não responder. É o conselho do embaixador Vale de Almeida aos aliados europeus, perante mais uma leva de críticas de Donald Trump e a renovação das ameaças em abandonar a NATO.
Apesar de reconhecer que o presidente norte-americano tem dado razões para se “ficar em alerta”, este diplomata que passou vários anos em Washington aponta que a Europa não deve fechar a porta por completo (“os Estados Unidos não são o senhor Trump”) – o melhor é, antes, procurar outros interlocutores e preparar o futuro das relações transatlânticas quando Trump abandonar Casa Branca.
“Vamos tentar falar sobretudo com outros interlocutores na América: com os democratas, com os republicanos em todo o espetro, com governadores de Estado, falar com a opinião pública americana. Há aqui um grande esforço de compensação da retórica do Presidente Trump que temos de continuar a fazer”, apelou.
Ainda assim, e a concretizar-se, Manuel Poêjo Torres acredita que os países mais vulneráveis da Aliança Atlântica a uma ameaça russa
“O pior que o Donald Trump poderia fazer era retirar forças do flanco leste como uma forma de castigar a Europa. E quem são os países mais vulneráveis? Estónia, Letónia, Lituânia, Bulgária, Polónia. É isto que vai acontecer? Não acredito que nenhum destes Estados tenha uma posição antagónica àquela que é a posição desta administração de Donald Trump”, defende, dizendo que antes de qualquer mudança haverá sinais de “engenharia financeira” dentro da NATO.
Na perspetiva de Vale de Almeida, o sinal mais evidente de que a política norte-americana e as eleições intercalares para o Congresso em novembro influenciaram a postura de Donald Trump no cessar-fogo é a insistência em ver o estreito de Ormuz reaberto.
“As intercalares ganham-se no terreno económico, no que os americanos sentem no bolso, no supermercado, no posto de gasolina. Não é uma eleição definitiva no sentido de escolher um novo presidente, mas é um sinal que eles querem dar ao poder político, ao governo, a Washington. Daí, a quase obsessão em restabelecer a normalidade no estreito de Ormuz”, considera.
O comentador Manuel Poêjo Torres alinha-se com esta visão. Apesar de acreditar que o eleitorado republicano mais conservador não sai beliscado com a guerra no Médio Oriente, vê possíveis efeitos negativos da guerra nos indecisos e nos chamados “swing states” (que flutuam ente republicanos e democratas) – e, por isso, empurra uma eventual nova ofensiva norte-americana para depois das intercalares.
“Não seria uma surpresa total pensar que em 2027, depois das intercalares, todo este teatro volta outra vez à ebulição de que assistimos nas últimas quatro ou seis semanas”, afirma, relembrando que em junho de 2025, Donald Trump também tinha afirmado ter destruído o programa nuclear do Irão com a Operação Martelo da Meia-Noite.
“[Nessa altura], o problema não ficou resolvido, dificilmente ficaria. O Estado do Irão não é Cuba, não é a Venezuela, não é o Vietname”, remata.