Pepa: “Perguntam-me como é que um gajo vive desta instabilidade. O ar que respiro é este"
- 10/04/2026 04:20
- Redação
Está há quase um ano parado. Pepa não esperava que isto acontecesse e nega categoricamente que tenha alinhado num ano sabático. Está fora desde 2022/23, com passagens por Brasil, Qatar e Arábia Saudita, e, agora que está a chegar o “mercado principal”, entra no sistema do treinador “essa ansiedade, a única que realmente lhe morde as entranhas, já que tem domadas as outras duas, a financeira e aquela a que chamam “bichinho” de treinar e sentir o jogo.
E fala de muito mais, do drama quando entra no dia a dia a palavra “perder", do que lhe faltou no passado, do que aprendeu no Tondela e lhe fez dar um passo ao lado, das revoluções nesta modalidade, de liderança, do papel dos adjuntos, do seu querido Vítor Oliveira. Ao longo de pouco mais de uma hora, Pepa dá troco e vai destapando as camadas do homem e do treinador.
A dificuldade em recusar convites tem muito a ver com o próximo passo, tem muito a ver com gerir um pouco ou muito uma carreira ou uma decisão, vá, mas também sabendo que isso às vezes vale o que vale. Às vezes também podemos estar a tomar uma decisão de aceitar determinado convite ou determinado projeto, que hoje em dia falar em projetos no futebol cada vez é mais difícil e mais uma utopia, mas a verdade é que eu olho sempre e idealizo sempre esse tipo de projeto, por tudo, para desenvolver jogadores, desenvolver o clube, ajudar a desenvolver o clube, ajudar a desenvolver uma equipa a médio e longo prazo e isso às vezes é difícil de encontrar ou de aparecer, não é?
Surgem muitas coisas, às vezes, com a corda na garganta ou já com o campeonato a decorrer, com situações com objetivos já completamente desfasados ou difíceis de alcançar. Ou com problemas estruturais, ou com problemas... Ou seja, há sempre muita coisa que às vezes leva a pensar e a ponderar se vale a pena entrar com 10, 15 jogos para terminar um campeonato. E pronto, tem sido um pouco assim. Sinceramente também não esperava estar tanto tempo, uns sete, oito meses já.
Exato. Não esperava estar tanto tempo parado, mas a verdade é que também não surgiu... O que surgiu que mexesse comigo entrei na shortlist, mas acabei por não ser selecionado. E as outras situações que fui eu selecionado, vá, acabei por ser eu a também não aceitar porque não vi ou não senti que valia a pena. Portanto, tem sido um pouco assim. Estou a explicar um pouco o porquê deste tempo todo.
Não é por opção. Às vezes há aqueles treinadores e são opções de vida. "Ah, vou tirar um ano sabático". Não, aqui não há nada de ano sabático, são as contingências da vida e de opções e do que vai surgindo. É o que tem acontecido.
Estava a ouvi-lo e sobre os projetos que surgem a meio do caminho, imagino que às vezes o ego do treinador seja uma armadilha porque se calhar ele pode achar que consegue fazer um milagre, não é? Entrar e achar que vai mudar tudo, as coisas às vezes não correm assim tão bem. Então é preciso essa defesa, não é?
Olha, é tudo. É tudo. É o ego. Pôr o ego de lado, sinceramente eu nesse aspeto estou completamente à vontade.
Eu percebo, mas dá para os dois lados. Porque dá para essa situação, que eu concordo, que não existem milagreiros, não existem fórmulas secretas, existe trabalho, existe o acreditar, existe dedicação e, acima de tudo, também tempo. Por isso é que às vezes olhamos para certas coisas que estão a terminar e não há tempo, praticamente, para nada. Há o chegar e abanar as coisas e fazer com que aconteça, mas sabemos que isso às vezes não é assim, não é?
E depois há a outra questão que por muito, eu falo por mim, que eu deseje ou idealize certas coisas ou um patamar se calhar diferente daquilo que tem surgido, eu também tenho os pés no chão e tenho a humildade suficiente para perceber que se calhar não estão a surgir certos tipos de coisas que eu idealizava ou que eu pensava que poderiam surgir. Não surgiram esse tipo de coisas, encaro as coisas com muita naturalidade e com muita humildade, sinceramente. E realismo.
Quem é o Pepa quando está parado? E o Pepa fala muito nas entrevistas, é alguém que prefere, então, resguardar-se e estar com a família ou é aquela pessoa que quer muito falar com os treinadores, quer ir ver?
Quando estou a trabalhar vejo muito, quase em exclusivo, a liga onde estou, consome-me muito e tem que ser, não é? Mas muito mesmo, desde a nossa equipa, quando eu falo da nossa equipa não estou só a falar dos jogos oficiais ou dos jogos de treino ou particulares, é tudo que tem a ver com os treinos, com os exercícios, ou seja, nós até o próprio treino que foi realizado, por exemplo, de manhã, nós vamos analisá-lo, ou seja, vamos rever, vamos ver, cortamos situações para ajudar os jogadores, para ter reuniões também individuais, setoriais. Aí o horário, o tempo de trabalho, é tudo muito direcionado para a nossa equipa e para a nossa liga, porque depois temos os adversários também, para não sermos enganados por eles e tentarmos enganá-los a eles, portanto, é um jogo do gato e do rato, faz parte, e aí a energia vai toda, ou praticamente toda.
Agora, se me perguntares, uma pessoa não mete o olho numa Liga dos Campeões para matar saudades do futebol europeu, isto quando estava na Arábia Saudita ou no Médio Oriente, ou no Brasil. Ou estando em Portugal, via algum jogo da Libertadores? É normal um jogo ou outro que chame mais a atenção, ou porque o treinador é português, ou porque tem uma forma de jogar que temos curiosidade ou tenho curiosidade em perceber como é que eles estão a jogar? Ok, estão a jogar com uma linha de três, ou estão a jogar com uma linha de quatro, com uma pressão diferente, pressionam muito alto, ou jogam com o bloco mais baixo, ou são muito fortes na transição, são muito fortes nas bolas paradas. O Arsenal, há muitos anos para cá que tem sido, toda a gente tenta fazer um copy paste daquilo que eles fazem
[risos] Pois! E trabalhar, acima de tudo trabalhar. Descarregamos o jogo se não conseguirmos ver em direto e depois assistimos, muitas vezes em conjunto com a equipa técnica. Agora consigo diversificar muito mais, como não estou no ativo, não estou a trabalhar diretamente, não tenho aquele peso bom de analisar de forma exaustiva a minha equipa e o campeonato onde estou inserido, dá-me margem para ver coisas que não podia ver antes. Não era não poder, não tinha tempo, era humanamente impossível.
Então consigo ver outro tipo de campeonatos noutros continentes, países completamente diversificados, jogos diferentes, e muito família, muito família, muito, muito, muito, levar a minha filha à escola e ir buscá-la de forma como se fosse uma rotina, para ela já se tornar hábito, mas vai ter que se desabituar porque ou vai para onde eu for trabalhar ou então, pronto, vai ter que acabar isto. Mas ela habituou-se rapidamente e é muito bom, são coisas que não deu para vivenciar por causa da minha vida, do trabalho, mas é o que é, elas estão habituadas e lidam bem com isso.
O Pepa tem um legado bonito no nosso futebol, acho que é consensual que é um dos bons treinadores da nossa praça. Imagino que depois do Vitória seja difícil voltar para qualquer contexto. Quantas vezes é que já esteve em casa a roer-se todo a dizer que saberia como desmontar o Porto de Farioli, ou enganar o Benfica de Mourinho, ou até desfazer aquele jogo interior do Sporting? Há esse bichinho de "se fosse eu..."
Há, há, não posso dizer que não. É normal. Falo por mim mas também tenho noção, o treinador português é muito bom, e tem isso. Vamos dar um exemplo agora recente: o Rui [Borges], não foi o Rui foi o Sporting, perdeu 3-0 com o Bodo lá na Noruega, certo? Ok. Eu estava a ver o jogo, como o Rui e toda a sua equipa técnica, e alguns analistas que percebem de futebol. Não estou a falar daqueles que falam de tudo e mais alguma coisa. Os especialistas em futebol. Há jornalistas muito bons que só falam de futebol, mas depois há aqueles comentadeiros que falam de política, falam de medicina, falam da água, falam do cão, do gato, isso faz-me uma confusão, mas pronto são outros 500.
E a verdade é que foi identificado que aquele trinco do Bodo estava sempre a jogar de cadeira [à vontade], atrás da primeira linha de pressão do Trincão e do Suárez. E os médios, os dois interiores do Bodo, muito subidos, sempre à espera de roturas, quando os laterais do Sporting eram atraídos e eles pimba, aquelas trocas posicionais. Isso foi muito identificado, e o Sporting não conseguiu contrariar aquilo lá.
Como o Bodo defendia, eles libertavam de forma muito excessiva o corredor contrário. Eles faziam ali com a sua segunda linha de quatro, faziam um L, com o ala contrário a vir muito para dentro, libertavam por completo, e isso asfixiava o Sporting no corredor ativo. E aquilo parece fácil, e é fácil de identificar, tendo minimamente conhecimento do futebol e olhando para o jogo, é fácil de identificar. Agora, o Sporting depois não jogou com a Tondela, teve tempo para trabalhar estes aspetos e outros, com certeza, que o Rui também identificou. Mas a verdade é que no jogo em Alvalade, pelo menos estes foram completamente identificados e conseguiram colocar em prática, não só na teoria, e resultou muito bem.
Ou seja, aquele trinco lá deles não tocou na redondinha; os corredores contrários estavam a ser muito bem explorados pelo Sporting; aqueles médios, praticamente, também a bola não chegava em condições, eles podiam correr muito, mas se a bola não chega lá, nem respiravam... foi um jogo que exigiu muito do Sporting. Isto tudo para dizer o quê? O treinador português é bom. O Rui e a sua equipa técnica identificaram e mataram-nos com o 5-0, nem merecia ter ido para o prolongamento, devia ter sido antes. E o treinador português é isto.
O Porto tem uma forma de jogar, principalmente sem bola... com bola está a ter um pouco mais de dificuldades porque já está identificado... mas a verdade é que a forma como defendem cria algumas dificuldades aos clubes portugueses, os treinadores portugueses não estavam tão habituados a este homem/homem, principalmente na fase de construção. Mas isto é como tudo, para nós, treinadores portugueses, são desafios que nós gostamos, e daí a competência do treinador português, e daí admitir que quando olho para alguns jogos do campeonato português, vem aquele bichinho natural de voltar ao ativo, é perfeitamente natural.
Ainda pensa naquele diretor que lhe disse que isto era só de dar coletes e pô-los a jogar?
Eu dou-me bem com ele [risos]. Ele é chefe da oficina lá na Mercedes, em Aveiro, dou-me muito bem com ele. Era o que ele também estava habituado, mas não estou a desvalorizar os treinadores que ele apanhou na distrital ou na formação, é o que é. Isso é outra história, acho que os treinadores da formação deviam e devem ter melhores condições de trabalho. As pessoas nem têm noção do que passam tantos treinadores que andam por aí nas distritais e no futebol de formação, a receberem 75 e 100 euros por mês, as pessoas pensam que recebem aos 1000 e aos 2000 euros só porque são treinadores, não é?
Porque o que aparece nos jornais e nas revistas e nas televisões é os treinadores profissionais e de elite, mas isso é uma percentagem muito pequena e infelizmente não se dá o devido apoio e reconhecimento a esses treinadores.
Sei que o Pepa falou nisso no evento da Associação de Treinadores e que foi muito aplaudido e elogiado. Mas, atenção, a minha pergunta anterior tem uma armadilha: queria perguntar se não acha que os treinadores têm demasiado peso no jogo de hoje. Estou aqui a revelar o meu velho-restelismo... Enfim, perguntar a um treinador se tem demasiado peso é um bocado idiota, parece que as equipas são sempre do treinador, parece que se não for um trabalho de autor não conta, se não for um processo, um padrão, qualquer coisa, parece que o treinador tem menos valor e aquela equipa anda ali à toa.
É assim, eu percebo, isto dá pano para mangas. O treinador, claro, gosta do seu cunho, claro que gosta de deixar não digo legado, mas uma imagem, é normal, é normal. Aí entra um bocado o orgulho, o ego de querer fazer bem e, se conseguir ser um pouco diferenciado, ok. Mas eu também olho muito para o outro lado, eu gosto de, imagina, sair de um clube e saber que esse clube vai continuar igual ou melhor. Olho para isso como "fiz o meu trabalho bem feito". E, às vezes, nós estamos a assistir a um futebol cada vez mais robotizado, muito padronizado.
Mas é importante também sair da caixa, é importante sair da caixa para as pessoas terem gosto em ver aquela equipa jogar, para as pessoas terem gosto de ir ver ao vivo, ou estar a dar na televisão e quererem ver. Esse espetáculo do jogador mais liberto, do jogador mais de confronto, do ir para cima, do um para um, que cada vez há menos porque os jogadores começam a ser formatados desde pequeno para resultado, resultado, resultado, cumprir tarefas, cumprir tarefas... Claro que o futebol está muito de cumprir tarefas, sempre foi de cumprir tarefas e vai ser.
E depois há aquela pressão externa, natural, de o treinador não querer perder o emprego ou o lugar. E para não perder o lugar ou o emprego, sabe que vive de resultados. E para viver de resultados, sabe que tem que ter resultados imediatos.
Não há tempo e não havendo tempo, então OK, se posso dar espetáculo e tentar ganhar 3-0? Não, eu não posso é perder. Pronto, e já entra a palavra perder e quando entra a palavra perder na nossa cabeça, ou no dicionário ou no dia a dia... Quando tu tens medo de perder, não vais jogar com muito prazer. Ficas quase obcecado em não perder, em fechar a equipa, se der para marcar um golinho e tal e fecha a loja. Eh pá, eu não consigo ver as coisas assim [risos].
No Tondela, por exemplo, adaptei-me se calhar um pouco tarde no meu primeiro ano, em que eu entrei a meio com a equipa em último lugar com nove, 10 pontos, e conseguimos a manutenção por um golo. Só que eu, nessa segunda volta toda, estava muito romântico, eu queria um futebol muito dinâmico, com muita posse, com muitas trocas posicionais, e aquilo não estava a resultar. E as jornadas iam passando e os pontos não iam chegando. Obrigou-nos a refletir e a dar um passo ao lado.
Uma coisa é a ideia que eu mais gosto e idealizo, outra coisa é pensar assim: não posso pensar só em mim, tenho que pensar nos jogadores que tenho, no contexto que tenho, nas ferramentas que tenho, adaptar-me a eles e não eles a uma pessoa. E o clube, como é que fica nisto tudo? Então o clube vai morrer com as minhas ideias? Um clube como o Tondela vai descer outra vez para a Segunda Liga, tanto trabalho teve para subir dos distritais à Primeira Liga.
Adaptei-me ali ao que tinha, foi uma equipa com o bloco um pouco mais baixo, com as linhas a não fazer tanta pressão alta como eu gostava e a simplificar o jogo principalmente pelos corredores laterais, porque não tínhamos muita qualidade no corredor central. É a realidade, isto não é estar a dizer que o jogador é bom ou mau. Não, têm características diferentes. E assim foi, e conseguimos os objetivos.
Depois, sim, com mais uma peça, com outra, no outro ano, pronto, uma pessoa vai melhorando a equipa e vai. Vejo muito as coisas dessa forma. A minha ideia é a mesma, venha quem vier. Agora, eu tenho noção que chego a um clube e, se não tenho condições para [fazer como gosto], tenho que me adaptar àquilo que tenho.
Estava a pensar quando os treinadores se levam demasiado a sério quando o guarda-redes vai para o chão para chamarem toda a gente...
Ihhh pá, não, isso aí, pá, têm que mudar. O português é chico esperto, pá, em tudo, em tudo, em tudo. É o trolha, é o eletricista, é padeiro, toda a gente é chico esperto. O português é assim, pá, tu também és, eu também, o português é assim. Mas é bom, somos desenrascados, nós somos bons, a sério, nós somos mesmo bons.
Mas depois somos tão bons que conseguimos, por exemplo, andar num processo ali, o do Sócrates, que vai conseguir contornar a lei. Isto é uma vergonha, eu fico envergonhado. A sério, eu fico envergonhado. Eu não conheço o Sócrates de lado nenhum, não sei se ele é culpado, se é inocente, eu nem me perco tempo com isso. Agora, que eu tenho vergonha, tenho. Eh pá, eu não percebo este tipo de coisas, não percebo este tipo de leis que existem para as pessoas contornarem e são aplaudidos. O chico esperto encontrou uma forma.
Mas tem que se mudar, tem que se mudar, tem que se mudar. E eu já o fiz, antigamente, quando não se fazia. Mas não era usual, era uma coisa...
Pois, e atenção, eu já o fiz, mas já há muito tempo. Porque toda a gente sabe, o treinador sabe, toda a gente sabe, que se o guarda-redes cai ninguém pega na maca e tira-o. Não pode. Então, numa coisa urgente, urgente, imagina, tens um jogador a ser assistido cá fora porque levou pontos ou está a demorar muito tempo, olha, não é bonito, o guarda-redes cai e ganha-se ali algum tempo para a substituição, para o jogador aquecer e entrar, ou isto ou aquilo.
Coisas urgentes, mas mesmo nas coisas urgentes é feio. Temos que ser claros. Portanto, há formas de, se continuam com isto, há formas de, ok, caiu no chão, os jogadores não podem ir ao banco. Não sei, alguma coisa tem que ser feita. Porque se isto continuar assim, e tem-se visto muito, principalmente este ano, é demais, é demais, é demais.
Antes, aquele sapito, um sapinho, aquele sapo pequenino que vai e "ué, ué", aquele que salta pouco, a esse eu não engolia, nem esse. Agora já vai um sapo maior, uma pessoa tem que ter mais jogo de cintura, tem que ter mais calma, mais cuidado. Quando comecei, nem sapito, nem mosca, nem nada. Mal aparecia a mosca aqui, pimba! E então, com essas experiências que fui tendo, fui tendo mais jogo de cintura, porque sou muito direto, muito frontal, muito emotivo. E não papo muitos grupos, não sou de filmes, não sou de atropelar ninguém, não sou de esquemas, eh pá, não sou disso. Sou o que sou e essas hipocrisias, esses jogos, fazem-me confusão.
Por isso é que tive algumas situações menos positivas, se é que se pode dizer assim, mas eu voltava a fazê-las. Se tenho maior jogo de cintura pela experiência que fui adquirindo, tenho, mas o ter maior jogo de cintura não é sinónimo de engolir um elefante ou um sapo que tenha comido um bocadinho mais do que o normal, não é? Portanto, calma. Também não é autoestrada.
Há, há em todo lado, infelizmente há em todo lado. Há pessoas que atropelam, não olham a meios de atingir objetivos ou de atingir um fim, há muita inveja, há muito desejar mal, há muito eu, eu, eu, ego, eu, ego, eu, ego, há muito disso. Não é no futebol, é em todo lado, o futebol não foge à regra.
Atualmente, podem ser as regras de jogo, o novo fora de jogo, já lá vamos. Mas aquilo do jogo relacional contra o jogo posicional, é uma coisa mais guardiolista contra Fernando Diniz.
Ahh, sim, gosto. Gosto de ouvir na primeira pessoa. Sinceramente, às vezes há certas conferências de imprensa que são engraçadas, são até bonitas de ouvir e boas de ouvir, quando são colocadas boas perguntas, porque isso depende muito também de quem está do outro lado e quem responde. Quando a pergunta vem do futebol, do jogo, de opções táticas, de estratégia, o porquê da substituição, isso eu gosto, isso é bom de ouvir.
Olha, eu estive no Brasil e quem tinha à minha frente não eram jornalistas ou se calhar a maioria não era. Também não quero estar a ser injusto, que eu não olho para a credencial, não vou ver se ele é ou se não é, não sei, mas que muitos não são, não são. Eles estão à espera de seguidores, não é?, aquelas coisas e querem é polémica e a forma de polémica faz-se como? Com perguntas completamente fora de contexto, coisas surreais.
Mas isso é pena, porque é um campeonato com bons jogadores, estádios cheios, boas condições, uma boa organização, eu fiquei surpreendido pela positiva, não tive problema nenhum com a imprensa, porque vai de cada um, de saber lidar com isso, de desvalorizar, por muito que uma pessoa até fique um pouco triste e magoada com o que vem daquele lado...Isto na hora porque depois eu não vejo nada disso, senão Jesus...
Mas ficas a desconfiar um bocado, se te estão a fazer certo tipo de perguntas, e depois insistem, depois outra pergunta igual, e é um bocado triste um país daqueles ter às vezes esta malta que tem, os bloggers e youtubers e mais não sei o quê, não são profissionais do jornalismo, porque um jornalista...
Não há regras, é o faroeste. Um jornalista, felizmente conheço alguns, tem ética, são todos um pouco, por natureza, investigadores e curiosos, têm que ser, senão iam para outra coisa. É como às vezes aqueles vendedores de carros, tem que ter paleio, tem que saber ouvir, tem que saber escrever, tem que ser bom pesquisador, tem que ser curioso, tem que ser inteligente, mas tem uma ética, tem um código ideológico de jornalista, ponto.
Mesmo dentro desses jornalistas profissionais, às vezes há um ou outro que sai dessa deontologia, imagina então quando não tens nada disso, e é o caso. E é uma pena, mas pronto, acho que é o único aspeto negativo que eu retiro do futebol brasileiro.
Acho que é o que eu mais gosto atualmente, precisamente por ainda haver menos regras no campo, não sei se o português está a tentar controlar mais a coisa ou não, mas ainda há muito estímulo individualista, felizmente, no Brasileiro.
Há porque é do jogador, é deles mesmo. E depois às vezes falamos que o futebol, taticamente, não é rico porque parte muito o jogo. Não é de não ser rico, é o calor da coisa, o jogador brasileiro também não vai deixar de ser o que é, às vezes vai um bocado atrás da torcida, do calor do momento e aquilo, às vezes, parece que não há riqueza tática, mas há. Eu estive lá, e há, eles bebem, eles percebem, eles fazem, eles executam aquilo que é trabalhado. Agora, às vezes, chegam ao jogo e aquilo é tanto ruído, é tanta pressão, é tanta adrenalina, sangue quente, que às vezes o jogo parece que parte de forma tática, mas não, é mesmo emocional.
Ainda oiço dizerem que o jogador brasileiro não corre, é de quem não vê os jogos. Até acho que corre demais.
Olha, por exemplo. Eu não sei se é o delay, não sei se é alguma coisa, eu também oiço muito isso, mas a verdade é que eu estive lá, e nós temos os dados hoje em dia para comprovar isso, métricas, dados de distância, de alta velocidade, alta intensidade, portanto, é tudo muito alto e depois o próprio olho também não engana. Agora, realmente, às vezes, ainda oiço alguns colegas meus que olham para o jogo e acham que aquilo é jogo a gasóleo, mas não, isso engana muito.
Já teve lá dois trabalhos, Cruzeiro e Sport, imagino que seja difícil recusar o Brasileiro. E depois vimos o que aconteceu com Filipe Luis, que ganha tudo e dois meses depois está a saltar. Parece uma máquina trituradora, já se vai com essa ideia para lá?
Eh pá, não, eu nunca vou para lado nenhum a pensar que vou sair e vou para a máquina [risos]. Para mim é sempre um projeto, na minha cabeça é sempre o ideal, daí aquela primeira pergunta do porquê deste tempo todo. E atenção, eu até posso, no próximo clube, até pode demorar dois, três anos, como pode demorar dois, três meses. Eu nunca sei. Ninguém sabe. A vida de treinador é assim mesmo. Quem é que vai adivinhar que vai ser o ideal para trabalhar, para potenciar jogadores, para ajudar o clube a crescer? Ninguém sabe. Agora, no Brasil, se olharmos para o histórico, tem sido assim.
Oito jornadas, oito despedimentos [já são 10 em 10, a conversa aconteceu no dia 1 de abril].
É. Tirando o Abel, metes lá os clubes todos e aquilo é, falando por baixo, uma média de dois e meio a três treinadores por clube.
É uma coisa louca e surreal, mas pronto, sendo direto na pergunta, eu nunca vou para um clube a pensar que vou sair passado dois, três meses.
Não vou, sinceramente não vou. Vou convicto mesmo que as coisas vão acontecer, que vai correr tudo bem, independentemente do que está para trás. Não tenho esse negativismo, nem esse receio, mas há que ser realista e olhar para o contexto do país e perceber que é um país com esse histórico, não é?
O Pepa subiu o Sport, da Série B para a Série A. Há pouco tempo entrevistei Guto Ferreira, ele é uma espécie de rei das subidas lá, tem cinco ou seis subidas...
... e ele disse que, na Série B, entre oito a dez equipas jogariam tranquilamente na Liga Portuguesa. Está a exagerar ou é assim?
Claro, claro. Ele disse na Série B? Também não é bem assim, não é? Não é bem assim.
Claro, normal, normal. Não partilho tanto assim a 100% dessa opinião, mas percebo exatamente o que ele quer dizer, porque estamos a falar de uma Série B que tem ali meia dúzia de equipas muito competentes, muito competentes em condições, em infraestruturas, em jogadores, em plantel, em treinadores.
Percebo e concordo, em parte com o que ele está a dizer, agora há aqui uma coisa: eu já estive aqui e lá, ele só esteve lá. O campeonato português é muito competitivo e as equipas estão muito bem preparadas. Iam ter aqui muita dificuldade, pois as nossas equipas aqui são muito boas e os treinadores são muito bons.
O Pepa já falou no passado naquelas modas que o futebol vai tendo. Agora é o crescimento da importância das bolas paradas, já se falou muito no Arsenal e em mais alguns clubes, que às vezes têm mais golos de bola parada do que bola corrida.
Já vem dar muito tempo. Setenta e tal porcento dos golos é transição ofensiva e bola parada.
Já não sei que treinador é que disse que há 30% de golos de bola parada e não se passa 30% do tempo no treino a treiná-lo.
É verdade, é verdade, é verdade. Há uns anos raramente trabalhava lançamentos laterais com o volume suficiente e necessário que isso acarreta. E depois fizemos um pequeno estudo, não o tenho aqui de cabeça, para não estar asneiras prefiro não dizer nada, mas que o estudo foi feito, uma pesquisa, um levantamento, vá, e realmente a bola sai muitas vezes [risos]. Sai muitas vezes, ou seja, há muitos lançamentos laterais, muitos, muitos e eu virei-me para o pessoal e assim: "Ó pá, olha lá, a gente não trabalha lançamentos laterais".
Só trabalhávamos lançamentos laterais no último terço. Porquê? Está ali perto da baliza, então vamos fazer aqui algumas combinações para podermos cruzar, para tirar proveito de uma superioridade ou uma igualdade numérica na área, ou atrair para fazer uma combinação, um passe atrasado e um cruzamento, pronto, várias situações, mas tudo no último terço.
Então e quando a bola sai ali no segundo terço, ali na zona perto do meio-campo, ou quando a bola sai no nosso meio-campo defensivo, não se trabalha? É mandar assim a bola à..., como diz o outro. Estamos a brincar, ou quê?
Pois. Nós estamos sempre em evolução, o treinador tem de estar sempre em evolução, a questionar as coisas, a questionar tudo, todo o seu trabalho, o que é que está a ser feito, mesmo quando as coisas estão a ser bem feitas, questionar, melhorar, investigar, e isto é só um pequeno exemplo de muitas coisas.
Mas para o jogo é negativo, ou não? Este crescimento da influência de um momento de laboratório.
Depende da leitura que dás aos dados. Se uma pessoa ficar obcecada com os dados, para mim é negativo, porque vai-se começar a perder depois a intuição, o instinto. Eu costumo dizer muitas vezes "quem tem asas tem de voar" e nós vamos cortar as asas a um jogador que tem asas para voar?
Um jogador que tem criatividade, tem um para um o que é forte, que é isto e aquilo. Ou um treinador vai-se agarrar só aos dados, só às métricas, não, não defendo nada disso, pelo contrário. Estou a falar é de situações de volume de treino, realmente a importância é muito grande das bolas paradas, mas eu lembro-me, há 10, 15, 20 anos, as bolas paradas eram trabalhadas no fim do treino ou se calhar no volume todo, de segunda a sábado, era 15 minutos.
Era! Quinze minutos. Nem estou a falar eu já como treinador, mas até antes e tudo, como jogador, e até mesmo como treinador, contra mim falo é verdade, valorizava muito mas depois trabalhava pouco. Então, com naturalidade, quando eu estava na formação já se começou a fazê-lo. Porque depois também tens poucos dias para treinar. Quem está na distrital tem três treinos e tem jogadores a vir do trabalho, acordam às sete da manhã para ir trabalhar para uma fábrica, o que for.
Tens de ter treinos apelativos, treinos que tenhas o grupo todo e tu vais estar a perder tempo... não é perder, atenção, é ganhar... mas vais estar a desperdiçar um pouco de volume de trabalho, de treino, em bolas paradas?
Os jogadores mandam-te passear, isto na distrital. É preciso esta ginástica, é preciso perceber os contextos onde estamos inseridos, é preciso perceber a realidade em que estamos. Agora, no futebol de elite, no futebol profissional, 100% de acordo, cada vez mais e mais, e como disseste e muito bem, já há treinadores específicos.
Na minha equipa técnica, por exemplo, o Samu, não digo que seja obcecado, mas acho que é a seguir, pela bola parada. Ele pesquisa, ele vai, ele vê, ele descasca tudo o que tenha a ver com bola parada ofensiva e defensiva. Isso também me dá a mim oportunidade no treino de não estar a ver a árvore e ver a floresta. Ou seja, dá para me afastar um pouco das coisas e reparar em certos detalhes pormenores, quando estava, eu, com essa pasta com a bola parada, que não via. Era impossível, com a emoção, com a correção, com a adrenalina das coisas, de querer as coisas a acontecer, não via tudo, e mesmo assim não se vê tudo, não é? Mas é diferente.
É diferente, é diferente, e cada vez mais as equipas são multidisciplinares e específicas nesses pormenores que fazem toda a diferença. Toda, toda, toda.
Até a nossa seleção tem agora um treinador de bolas paradas que é do Aston Villa.
Por exemplo, pontapé de baliza: nós trabalhamos pontapé de baliza, como é óbvio, mas é um pontapé de baliza em que sinceramente o nosso principal objetivo é entrar na fase de criação. Quando eu digo fase de criação, é onde tu já estás a entrar no meio-campo do adversário, no nosso meio-campo ofensivo.
Porque eu pergunto: quantos golos vêm de pontapé de baliza, de pé para pé, tá tá tá tá tá, e vai dar golo? Muito poucos, muito poucos. E às vezes estamos ali... Às vezes há quem dedique mais tempo a um pontapé de baliza do que se calhar a um canto, ou a um livre lateral. Percebes onde quer chegar?
Porque às vezes é bonito, porque é o bonito. É o bonito e é diferente, saiu a jogar ali dentro da área, na pequena área.
É que parece que a essência do futebol agora é pressionar e sair de pressão. Parece que agora o jogo é isto.
O jogo é tudo, o jogo é tudo, aí está, quando ficamos obcecados com as modas a queda é grande. Porque as modas, como em tudo na vida, vão e voltam. As boca de sino eram nos anos 70 e depois voltaram nos anos não sei o quê. Eh pá, as modas vão e voltam. Eu não vivo de modas no futebol. Nós temos que ser muito competentes nos quatro momentos do jogo. E o quinto, que é a bola parada. É fundamental. E se nós formos a dedicar o nosso tempo exclusivamente ou de forma obcecada para certas modas, estamos lixados.
É, daí, a tal coragem ser necessária. Claro que é preciso ter um apoio grande da direção, do presidente, do dono. Claro que é preciso ter esse conforto de "vamos crescer, vamos crescer juntos, sabemos que isto demora, isto tem o seu tempo". É preciso tempo para a equipa crescer, para assimilar as ideias, etc. Mas se nós não tivermos também essa coragem de irmos ao encontro das nossas ideias, tendo as ferramentas para isso, atenção, tendo as ferramentas para isso e sair da caixa... Quando eu digo sair da caixa é não ter receio de fazer as coisas. Agora, eu defendo isso: ser forte, dominar todos os momentos do jogo.
E quem são os treinadores que estão aí na elite que são assim? Não há referências?
Há mas depois é um bocado injusto também estar a falar. Porque tu podes ter uma equipa muito boa, uns jogadores muito bons, e há N exemplos aqui em Portugal e por aí fora, às vezes podes ter feito um trabalho menos conseguido num lado, depois outro menos conseguido, e depois um bem conseguido de repente já está na moda e nós, o futebol em si, vive muito disso, da moda. Às vezes três meses ou seis meses bons ou um ano bom e, de repente, está na moda e só se fala nisso.
Por isso é que eu prefiro não falar assim em nomes, mas eu reconheço que há em Portugal e por esse mundo fora que há muitos treinadores com certas ideias que às vezes me fazem descarregar os jogos porque gosto de ver.
Estamos a falar de modas, acho que estamos sempre a ir a Guardiola, pelo menos nestes tempos contemporâneos. Quando o Pepa começou a treinar foi mais ou menos quando Guardiola também apareceu ali em 2008. Estávamos a falar do pontapé de baliza, o facto de ele jogar como joga obrigou a uma mudança na lei, que permite jogar dentro da área agora. Esse é um tipo de revolução que inspira os outros, mas depois há um jogo muito homogéneo quando se quer fazer igual. Às vezes são mais pepistas do que Pep.
Para mim há o antes e depois, como há o AC e DC, o antes e depois de Cristo, há um momento marcante no futebol, que é o atraso da bola ao guarda-redes e ele não poder agarrar a bola com as mãos. Quem viu e quem jogou com o guarda-redes a poder agarrar a bola com as mãos... parecia pré-histórico. O guarda-redes agarra a bola, o central vem lá supostamente para sair a jogar, o guarda-redes joga no central, o central devolve a bola. Depois o central ia embora e vinha o lateral. Joga no lateral....
Isto era uma coisa impensável. Nós olhamos para o presente e é uma coisa impensável, mas a verdade é que o futebol foi sempre assim até 90 e tal.
Sei que no Euro 88 ainda se jogava a bola para trás. Lembro-me desse Europeu, a grande Holanda nessa altura, Rinus Micheles, o Gullit, Van Basten, Rijkaard, Erwin Koeman, Ronald Koeman, Wim Kieft, aquilo era uma seleção, gostei muito desse Europeu, era miúdo, mas desse já me lembro. Para mim, isso foi marcante.
Tudo o resto, sem exagerar nas questões que acontecem em Portugal com o guarda-redes a cair e a contornar a lei [risos], são situações que têm de ser exploradas. O próprio fora de jogo, os lançamentos rápidos, o poder sair para atrair ali, há equipas que pressionam muito alto. Se uma equipa simular num pontapé de baliza e se tem uma saída também mais direta, mas não é um direto de pontapé à sorte, não, é atrair a equipa, sair com a equipa aberta e podes criar facilmente situações de um para um se as coisas forem bem trabalhadas.
Há muita coisa que dá para aproveitar com a própria evolução que o futebol vai tendo.
Deixe-me lá aproveitar ter aqui um treinador que pensa o jogo e que foi avançado, acho que isto é importante: fala-se da mudança no fora de jogo, a Lei Wenger, em que o jogador tem de estar totalmente à frente do defesa para estar fora de jogo. O que é que vai acontecer ao jogo?
Para já vai ficar tudo muito diferente. Vamos por partes: uma coisa é a elite onde têm as máquinas, a tecnologia, que Portugal já devia ter, aquilo é praticamente automático. Demora poucos segundos, está fora de jogo, está fora de jogo e siga para bingo. Aqui, infelizmente, ainda estamos a demorar muito, têm de estar a pôr as linhas e as linhas, e depois vem a régua, vem o esquadro, e depois isso levanta suspeitas. A malta põe-se a jeito. Porque é que demorou tanto tempo? Quando é dois, três centímetros, estamos a dar tiros nos pés. Invistam.
"Ah, mas o estádio...”, eh pá, é um estádio ou dois, não me lixem. Eu quando vejo casas construídas nas ilhas em água, como vi lá no Dubai, dá para fazer muita coisa. A tecnologia está tão desenvolvida que só não faz quem não quer. Não venham com tangas e tretas que não dá. Dá. No futebol profissional acho que dava para resolver com essa rapidez.
Agora, nós temos que pensar num futebol total, no geral. Como é que um fiscal de linha, com essa nova situação... uma coisa é ele ter a referência do último defesa, o guarda-redes, depois tem que ter um outro homem, o último defesa, e para o fiscal de linha é quase automático, é quase padrão. Se tiver um bocadinho à frente, ele tau. A outra situação que está a ser estudada e estão a ponderar a avançar, na minha opinião, vai criar muito mais dificuldade para o juiz de linha, para o fiscal de linha, como se dizia antigamente, muito mais dificuldade, porque ele vai deixar de ter referência, vai deixar de ter referência da última parte do corpo. Fica muito mais difícil.
E se isto for para a frente, na minha opinião, vão existir muito mais lances duvidosos e a passar que eram fora de jogo do que agora. E sem tecnologia, porque com a tecnologia aí vai ser igual, é taxativo, é tau tau, OK. Mas no futebol nem todos têm essa tecnologia. E nós olhamos sempre só para o futebol da elite. Mas o futebol, antes de ser elite, vem cá de baixo. Eh pá, portanto, olha, não sei se isso vai para a frente ou não, sei que está muito avançado.
E o jogo, o que é que vai acontecer no jogo? Porque a teoria é que querem que haja mais golos. Eu não sei se as defesas não vão recuar, se voltamos aos autocarros, mas queria perguntar a um treinador.
É assim, nesse contexto trabalha-se muito e quer-se muito uma defesa alta, uma defesa que tenha coragem, por exemplo, com a bola coberta ou num passo atrasado que suba no terreno. E aí essa leitura está 100% correta, concordo a 100%. A própria linha defensiva, quando a estamos a treinar, para nós é como o fiscal de linha, a gente guia-se por um bocadinho do corpo da equipa que ataca. E isso, mesmo para a linha defensiva, a referência é fácil, é mais fácil. Dá muito trabalho, a gente trabalha muito isso, dá muito trabalho.
Imagina, vou dar um exemplo: o defesa esquerdo sai na pressão ao extremo contrário, o defesa esquerdo foi embora e numa linha de quatro, por exemplo, fica o central do lado esquerdo, o central direito e o defesa direito. Estes dois homens [exemplifica com os dedos], o central direito e o defesa direito, vão-se guiar por este, porque estes dois conseguem ver este, este não. Se o defesa esquerdo saiu para ir na pressão aqui, este homem não está a olhar para estes dois, está a olhar para a bola, está a olhar para roturas que apareçam por aqui e para algum homem que faça uma desmarcação. Ele está preparado para a cobertura e acompanha o homem, mas a bola não saiu e ele pára. E estes homens ajustam-se ao movimento deste.
Mourinho, outro dia, veio cá... Veio cá não, o Rui Miguel Tovar foi ao Seixal...
Ah, comigo não vão ter. Mas eu gostei muito de vir aqui, isto é bonito [risos].
Quando era adjunto do Barça, ele revelou que foi convidado para ser treinador do Braga e que quando ele disse isso ao pai, porque ele estava tentado, o pai disse “tem juízo”, porque era adjunto do Barça, tinha muitos jogadores bons para aprender e que ia ter tempo para chegar a um clube desses, que é grande mas que chegaria o tempo. Tem alguém assim na sua vida, ou não?, que diga “tem juízo” para algumas coisas.
Olha, agora tenho, gostava de ter tido no Benfica quando era jogador, aí é que era preciso, aí é que era preciso. Agora, claro que tenho principalmente a minha esposa, as minhas filhas também, mas porque são quem nos chama mais à atenção de tudo e mais alguma coisa, às vezes até de coisas a mais, mas é o que faz ser pai de quatro filhas, uma neta, ter duas irmãs, só mulheres em casa.
Mas antigamente, sim, acho que faltou um bocado isso, mas é a vida, faz parte. Uma pessoa, depois, acaba por aprender. É o que eu costumo dizer: burro é o burro, nasce burro e morre burro; uma pessoa se não aprender com os erros e com as vivências e com a aprendizagem só vai cair outra vez se quiser ou, então é isso, é burro.
Muito resolvido, muito resolvido, e vejo o erro com a naturalidade. Cometi muitos erros em jovem, alguns é normal, é coisa da juventude, nuns tem mais visibilidade que outros por uma pessoa ser mais conhecida. Acho que é só isso, sinceramente, quem é que não cometeu alguns erros? Normal.
Acima de tudo, é ter a capacidade também de ouvir e ter na equipa técnica quem também te diga as verdades na cara, ou que em quatro paredes que te diga aquilo foi mal feito, aquela conferência foi má, ou estamos a discutir alguma situação e que diga, que não seja "yes man”. Eu não tenho "yes man" na equipa técnica, há discussões boas e duras, e de confrontação, e isso é bom, mas uma coisa é certa, a gente sai daqui pela porta fora e se ficar decidido ir para a direita, nós vamos para a direita com tudo.
Às vezes, imagina, vem um jogador, um diretor”, “eh pá, devia ter sido para a esquerda”, não não não, não há cá aquela história “pois, eu avisei que era para aquele lado”, isto é a tal história do atropelar, é tal história de não saber estar, é tal história de não ter princípios e eu sei que tenho gente a trabalhar comigo, pessoas e homens de valores, de família, e que são muito competentes, mas, mais do que isso tudo que eles têm, se não tivessem esse saber estar, comigo não dava para trabalhar. É impossível.
É, para mim, é. Aí está, também não pode ser o anticristo, não é que está tudo mal só para dizer "eu desafio-te" [risos]. “Não, isso está mal”, fogo, chega uma altura e "está tudo mal?”, só porque é bonito dizer está tudo mal ou ser do contra, nem oito nem 80, e também há pessoas assim, "está tudo mal”, só para dizer que tem uma ideia diferente só porque lhe apetece. Tem que argumentar, isto não é assim.
E é possível ter adjuntos que não acreditem a 100% na ideia do jogo do principal, ou não?
Não é bem não acreditar, mas se calhar iam por outro caminho, mas a partir do momento que se decide são 100% leais, não tem nada a ver com lealdade.
Identificação, porque com a identificação vem o quê? Vem a paixão. Se eu não for a um jogo, por doença ou por isto ou por aquilo, é o Samu que assume a equipa ou na conferência de imprensa. Se ele não está identificado com paixão, com emoção, de corpo e alma, o jogador sente. A mensagem não é passada da mesma forma, não é passada de forma direta, delineada, de forma apaixonada, o jogador sente.
Ui, à distância, pior que aqueles da PJ. Não há hipótese, sentem isso, sentem logo, sentem logo se há empatia entre a equipa técnica, sentem logo se há empatia entre o corpo técnico, sentem logo se há empatia entre os vários departamentos. E por isso é que é importante o treinador estar no centro.
Acho que não vou ser nunca, não sei, não sei o amanhã, diretor esportivo ou dono, mas o conhecimento às vezes dá-te capacidade para... E eu vejo no treinador a pessoa fundamental num clube, porque tem que estar no meio daquela estrutura toda, grande e competente, vai andar tudo a girar à volta do sucesso do clube, da equipa, tudo bem, mas eles têm de ir ao encontro da ideia do treinador para aquilo fluir, para aquilo ser harmonioso, tem que haver comunicação, tem que haver cobrança, tem que haver harmonia entre tudo e todos.
Porque se não for assim as coisas não andam. Não há hipótese nenhuma. Basta uma engrenagemzinha, olha encaixou ali um bocadinho de areia na corrente e começa a fazer ruído, ruído, ruído até partir.
Sem dúvida. E há vários, há vários casos. Goste-se ou não se goste, vamos aqui para o nosso país. Por exemplo, o Ruben [Amorim] quando estava no Sporting não era a peça fundamental para aquilo tudo? O Sérgio [Conceição] no Porto?
Eu não estou a dizer entregar as chaves do clube, não é isso, mas criar condições. Se é no treinador que acreditam, foi contratado, então vamos dar todas as condições para ele, porque o próprio treinador vai desenvolver, vai cobrar, vai exigir dos outros departamentos. E o exigir não é na gritaria, não é no chicote, não, não, é o confronto, faz parte, mas um confronto saudável. Porque no final do dia querem todos ganhar, querem todos o mesmo.
E se nós podermos trabalhar no meio, na elite, onde há tanta exigência, tanta pressão, se podemos trabalhar a respirar ar puro, estar saudáveis uns com os outros, eu entrar aqui e vou ali ao departamento de scout e “então meu, tudo bem?”, mas depois sento-me e falo com ele sobre o que interessa. Vou ao departamento médico, depois dos jogadores saírem, e estou ali na boa com o médico, com o fisioterapeuta.
Tem que se respirar assim, eu vejo as coisas desta forma, porque já não basta o resultado ter que aparecer, isto ou aquilo, já há tanta coisa de pressão, que eu vejo isso como uma pressão boa ou natural vá, mas não deixa de ser pressão, porque é que no meu dia a dia, no meu local de trabalho, naquilo que me vai dar pontos, porque não são só os 90 minutos, é ali no dia a dia, porque é que eu vou ter um ambiente pesado?
Eu faço tudo para que isso não aconteça, não pode, e não tenho tido isso, porque eu próprio promovo muito isso, dou-me às pessoas, exijo, quero que andem ao meu ritmo, tem que ser, tem que ser, mas com naturalidade, não é de chicote, não é "tem que ser assim, tem que ser assim", não, é com o exemplo, é liderar pelo exemplo.
Se um gajo chega cedo e dá o gás, e dá à perna, e preocupa-se, e é empático, as pessoas também começam a ir atrás, também começam a ter empatia por ti, "devia ter saído às quatro, fonix, o gajo marcou uma reunião para às cinco, mas já ficam na boa, porque já é a tal empatia porque "ele quer o nosso bem”, no final do dia ganhamos todos, e eu vejo isso dessa forma.
Sim, no início fiz aquela pergunta sobre o excesso de peso dos treinadores, mas o Ruben é o melhor exemplo de promover até a mudança de mentalidade de um clube gigante.
Sim, sim, mas tem que ter peso, claro que tem que ter peso. Na minha opinião, um clube forte, bem estruturado, não pode depender e não pode entregar as chaves ao treinador senão... Por exemplo, vou dar um exemplo aqui: o Roger Smith queria jogadores assim, depois o Jorge Jesus queria jogadores assado, o Bruno Lage queria jogadores... Então quer dizer, o Benfica muda de jogadores, 30 jogadores, 545 milhões de euros, mas estamos a brincar ao futebol, ou quê? Vamos ver quanto é que o Sporting gastou, os milhões que o Sporting gastou, ou que o Porto gastou, e vamos ver títulos. Está ela por ela, ou se calhar tem o Sporting mais agora nos últimos cinco anos.
Isto é tudo o quê? Tem tudo a ver com estrutura, clube, capacidade, uma linha, não é o treinador chegar ali e OK, não, mas tem que haver aqui uma simbiose, uma forma de trabalhar, porque os treinadores passam mas o clube é que fica e continua e é centenário e está a andar. Agora, é muito importante o treinador ser o centro no clube, sem dúvida, mas, se seu fosse dono de um clube, não se pode entregar as chaves a um treinador. Agora, que o treinador é preponderante, é o motor de tudo, é, isso é.
Certo, entramos na reta final, Pepa, obrigado pelo seu tempo. Não resisto, falou no Benfica e na sua carreira jovem, e eu tenho uma pergunta não sobre o que já falou muitas vezes, desses erros, enfim, até do que significou aquele golo, não é? E assim que Anísio Cabral marcou o golo, eu pensei "pobre Pepa, lá vão ter com ele e fazer mais 50 perguntas outra vez”. Está farto de contar a sua história, ou não?
Não, não, não, porque tenho muito orgulho nessa história, portanto nunca me cansa.
É. Os jovens já nem sabem [quem fui], têm os sudokus e os Roblox, ou sei lá o nome daquilo, eles sabem lá. Eu antes era cadernetas de futebol e futebol, futebol, futebol, agora não é assim, mas eles não têm culpa, sabem lá quem é o Pepa, quem não é o Pepa, não sabem. Mas quando me perguntam e falo nisso, falo com muito orgulho, e às vezes encontro algumas pessoas que dizem "eu estive lá no estádio", "eu vi ao vivo", "eu vi na televisão" porque foi em canal aberto, ainda por cima, esse jogo. Claro que é um motivo de orgulho.
Com as redes sociais e com este mundo novo, se calhar o peso que o Pepa um dia sentiu, hoje em dia, um Anísio ou um miúdo, se calhar a carga ainda é maior.
Mas são outros tempos, são outros tempos. Os miúdos estão muito mais, atenção, nesse aspecto, muito mais protegidos de fora. Não quer dizer que tenham uma mentalidade melhor que a malta dos anos 80. São coisas diferentes, vejo a malta dos anos 70, dos anos 80, são muito mais resilientes em muita coisa, muito mais.
Nós não tínhamos telemóveis, nós jogávamos na rua. Eu vejo esta sociedade agora, hoje em dia, muito... mas é normal, é o que é. E nós, treinadores, é que nos temos de adaptar a ela. Se nós vivermos do passado, não temos hipótese. Agora é assim, ponto. Agora, eu vejo o miúdo [Anísio Cabral] com uma estrutura completamente diferente do que no meu tempo.
No meu tempo, quem subia a sénior, olha, fui eu, o Hugo Leal, o Maniche, Jorge Ribeiro, Mawete, Bruno Aguiar, essa malta, e a gente subia porque, pronto, éramos bons e siga. Mas não havia uma estrutura. Olha, ainda agora estive num fórum dos treinadores com o professor Arnaldo Cunha, com o professor Rui Oliveira, professores que foram fantásticos, muitos nos ajudaram a nós, jovens, na altura do Benfica, mas o clube na não tinha aquela estrutura forte, não tem nada a ver com os tempos de agora. Nem o Porto, nem o Benfica, nem o Sporting.
Mudaram muito e ainda bem, para aproveitarmos os talentos que temos. E até é uma pena não aparecerem mais, porque qualidade não falta por aí, não é?
Pois, é isso. É um pouco de tudo. É um pouco de política desportiva, um pouco de política do clube, um pouco de coragem, um pouco de tudo. Felizmente, agora vamos vendo alguns. O Sporting, realmente, lança muitos. O Porto também conseguiu nos tempos do próprio Vitinha, o Mora, Diogo [Costa]...
Exato, vários, têm aparecido vários. O Benfica também teve um tempo sem lançar ninguém, agora aos poucos sim. Mas, seja qual for o clube, eu fico contente quando vejo jovens, seja no Braga, no Vitória, fico contente quando aparecem jovens jogadores. Fico mesmo. Quando eu estive no Vitória, tive a felicidade de lançar vários, muitos mesmo.
E eu não faço isso para o recorde pessoal, ou para aparecer no jornal, ou para aparecer na estatística. É um gosto mesmo pessoal, se calhar é muito meu. Se calhar por eu ter sido lançado, de uma forma diferente mas por ter vindo da formação e ter chegado aos seniores do clube onde estava, ainda tenho uma apetência maior, gosto mesmo de lançar os miúdos, tendo qualidade, e ajudá-los a ir para a selva, que é mesmo assim.
Então, pronto, meto aqui uma música bónus como havia nos CDs antigamente. Com quem é que tem as melhores conversas, seja de futebol ou da vida?
Eu gosto muito de ouvir os mais velhos. O nosso querido falecido Vítor Oliveira, quando joguei contra ele, mais que uma vez, várias vezes, aqueles momentos antes do jogo, depois do jogo, houve mais do que uma vez em que ele foi-nos visitar ao hotel, ele tinha uma relação muito boa com o Paços de Ferreira. Foram sempre momentos muito bons e esse tipo de treinadores mais antigos, pessoas mais velhas, eu gosto muito de ouvir os mais velhos.
Infelizmente, a juventude hoje em dia tem alguma dificuldade em ouvir os pais, os professores, os treinadores, acham que já sabem tudo. A nossa sociedade está muito por aí. E a mim entristece-me um bocado, porque eu tenho outra maneira, temos duas orelhas e uma boca se calhar para ouvir mais, senão punham-nos duas bocas, não é?
A verdade é que isso dá-me muito conhecimento e dá-me, não digo paz de espírito, mas dá-me aquela coisa, aquela sensação de que realmente isto é duro, é difícil e ajuda a valorizar o dia a dia, as conquistas, o que se tem, dar mais valor ao que se tem e não estar obcecado em ter o que não se tem, acho que é muito por aí.
Nessa entrevista ao Guto Ferreira que eu já mencionei, falei-lhe no Vítor Oliveira, porque o rei das subidas cá era o Vítor Oliveira, e falei-lhe que eram 11, e ele ficou chocado, ficou de boca aberta com o legado.
É fantástico. O Vítor, nosso querido falecido Vítor, é fantástico. Mas há outras pessoas, no geral as mais velhas. Os presidentes por onde passei, olha, o Gilberto Coimbra, o Rodrigo Nunes no Feirense, o presidente Vítor Magalhães no Moreirense, o próprio Paulo Meneses, que não é assim tão velho, mas pessoas mais velhas que eu, pessoas de outra geração, basta ser mais velho e já são dos anos 70. E eu de 80 é uma coisa, anos 70 é outra, 60 é outra, 50 é outra. E eu gosto muito de ouvir essas pessoas, essas histórias, essas vivências. Para mim, ajuda muito.
O Vítor Oliveira tinha uma teoria boa, que era preferia estar a jogar para ganhar, mesmo que fosse para a 2ª divisão, se calhar tinha contratos melhores porque para lutar para ganhar e subir, do que andar a sofrer. Isso é uma forma de estar na vida, não é? O dinheiro conta, mas se calhar andava mais contente.
Foi uma decisão dele, tanto é que depois começaram a surgir as subidas todas, as primeiras não, mas depois ele optou mesmo por esse caminho. Depois, em Portimão, tanto o convenceram que ele acabou por ficar na 1ª liga no Portimonense, porque tinha ali uma ligação muito forte ao clube.
Mas ele optou por isso não só pela questão financeira, com prémios muito bons de subida, mas acima de tudo, porque ele financeiramente já estava completamente resolvido e não era o dinheiro que o atraía, era mesmo isso. Ele era tão competitivo, tão competitivo, se perdia duas vezes, ficava doente. E então ele optou por "vou ganhar muito mais vezes, vou andar melhor, vou estar melhor com a minha família, vou estar melhor comigo mesmo, a comida sabe melhor, a bebida sabe melhor" e na cidade ele gostava desse astral e optou por isso.
E a verdade é que foi construindo um legado que muito dificilmente vão igualar, porque também eram outros tempos. Eram tempos de investimentos praticamente parecidos, depois havia meia dúzia de equipas que tinham um orçamento grande e, nessa meia dúzia de equipas de orçamento grande, todas as seis pensavam no Vítor. Mas antes de pensarem no Vítor, ele teve que construir esse mini-legado, que depois foi alargando, não é? E o conhecimento do jogador português, dos jogadores que faziam a diferença para subir divisão, ele tinha-o. Portanto, hoje em dia, isso acho quase impossível alguém atingir o que ele atingiu.
Tinha, conhecia, conhecia. A fórmula dele era muito essa, ele dizia: era que o clube pagasse certo, que pagasse bem, que não falhasse nos pagamentos; os jogadores, os bons, os melhores para subir na Segunda Liga, ele conhecia-os, para ele era meio caminho andado. Depois, o resto, competência e a experiência dele.
Pepa, duas perguntas numa para acabar mesmo. Quando é que vamos ter Pepa de volta aos bancos? Esta presumo que seja mais complicada responder...
É já, queres já? Vai já. Para já, volto quando surgir, quando houver casamento, pronto. Porque uma coisa é namorar e dar ali uns beijinhos aqui e acolá, e outra coisa é casar.
A minha pergunta era se alinharia em algo em abril ou se já assumiu que é no verão. Ou lá fora? E a segunda parte da pergunta era essa: que campeonatos é que gostaria de experimentar ou regressar?
Eu, sinceramente, estou aberto a tudo. Não posso fechar. E depois há aqui várias coisas, há várias ansiedades. Há a ansiedade financeira, que leva a que muitos treinadores acabem por aceitar certos clubes ou certos convites na pressão financeira, no aperto financeiro, por necessidade financeira, que faz parte, é muito tempo sem trabalhar, sem entrar dinheiro em casa. Felizmente não tenho essa necessidade, nem aperto, felizmente essa parte não existe, essa ansiedade.
É liberdade, sim, sem dúvida. É liberdade mesmo. Nunca tive esse aperto, porque eu sei viver com muito como com pouco. Portanto, para mim isso não é assunto. A outra é a ansiedade de estar no treino, o cheiro da relva, a adrenalina, aquele sentimento 10 minutos antes do jogo, corrigi-los, ajudá-los ao intervalo, o treino, ver os jogadores a desenvolver-se, ver os jogadores a melhorar, ver a dinâmica da equipa a crescer com o treino, com o trabalho. Tenho-a mas também não me está a consumir. Mas tenho muita vontade de voltar ao campo, mas não me está a consumir.
O que eu admito que mexe um pouco comigo é uma terceira coisa que me está a começar aqui a mexer um bocadinho, que é a ansiedade de ver o mercado, o principal, a aproximar-se, que é o mercado agora de maio, junho, e perceber que ainda estou aberto a muita coisa. Isso é bom por um lado, mas é mau por outro porque não dá para especificar e estudar certos países ou campeonatos de forma mais meticulosa.
Ou seja, eu hoje aqui, neste dia 1 de abril, que é o dia da treta e o dia da mentira, mas eu não disse aqui mentira nenhuma, só disse verdades, garanto que não tenho nada próximo. Mas também não tenho nada afastado, nem nada arriscado no meu horizonte.
Posso ir para uma MLS, posso ir para o Brasil, posso ir para o México, posso voltar para Portugal, posso ir para Espanha, França, Itália, Inglaterra, Escócia, Polónia, Holanda, Bélgica, Coreia, Japão, China... E isto mexe um pouco comigo. Porquê? Por causa da minha família, se podem ir, se não podem ir, se vou outra vez sozinho.
É esta incerteza mas a minha vida é assim. Desde os meus 12 anos saí de casa e estou habituado a isto. Ando há 33, 34, nisto e parece que não mas cria um certo desgaste.
É um bocado, é um bocado. Porque às vezes as pessoas, quem não é do futebol, perguntam: como é que um gajo vive, como é que tu vives, desta instabilidade? Nunca sabes para onde é que vais, nunca sabes para onde é que vais viver, nunca sabes para que cidade vais, para que país vais, se a família vai, se não vai, se vais trabalhar um ano, se vais trabalhar um mês. Mas o ar que eu respiro é este. Portanto, olha, não posso inventar [risos].
Ó pá, eu tenho tempo para descansar, se chegar lá depois tenho tempo para descansar, agora é mesmo assim. Agora, quando quiser descanso, vivi agora um bocado de descanso, mas é um descanso diferente, eu estou proativo. Eu vejo jogos, vejo campeonatos, vejo é muita coisa. Vejo muita coisa...
Claro, também curto muito a minha bicicleta, curto muito a minha família, estou a curtir a montes. Coisas que eu não tive tempo para fazer nos últimos três, quatro, cinco, seis, sete, oito, 10 anos. Olha, estou a aproveitar ao máximo.
Eu ia dizer que no futuro tem tempo para descansar e aproveitar os netos, mas depois pensei "espera aí que o Pepa já é avô”.
Pois, sei lá, mas aí está, também não sei se vou treinar até os 60, até os 50, até os 70, não faço a mínima ideia. É viver o presente e não estar muito preocupado, com o futuro imediato sim, mas não tão longínquo não, nem vale a pena.