Castro Mendes: "Deixarmos de ter um Cavalo de Troia dentro da UE é uma belíssima notícia"
- 13/04/2026 10:45
- Redação
Na leitura de Luís Filipe Castro Mendes, não poderia ter existido melhor notícia para a União Europeia do que a derrota de Viktor Orbán. Quer dizer... podia: "seria a melhor notícia a queda do Trump, mas eu acho que deixarmos de ter este peão, este 'Cavalo de Troia' dentro da União Europeia é uma belíssima notícia".
Por agora essa é apenas uma expectativa, mas em breve - o mais tardar no Conselho Europeu de junho - todas as dúvidas deverão ser desfeitas, quando os restantes 26 tentarem, novamente, libertar a prometida ajuda de 90 mil milhões de euros à Ucrânia.
É essa também a convicção do embaixador Castro Mendes: "Julgo que ele (Péter Magyar) terá tendência para abrandar o braço de ferro com Bruxelas, até porque precisa do apoio de Bruxelas. Precisa dos fundos de Bruxelas, porque esse corte contribuiu muito para a má situação económica da Hungria. É certo que a Hungria tem algum contencioso histórico com a Ucrânia, mas o contencioso histórico com a Rússia é muito maior... teve sob a dominação Soviética."
Péter Magyar, enfim...ele era militante do Fidesz (União Cívica Húngara), era marido de uma ministra da Justiça que foi demitida por causa de um escândalo relativo à absolvição de um elemento próximo do governo, acusado de pedofilia. A senhora, como ministra da Justiça, foi responsabilizada politicamente. O marido de quem, aliás, já estava separada - Péter Magyar, entrou então numa linha de oposição, de denúncia do governo de Orbán e, sobretudo, de coisas de que tem conhecimento: As redes de poder, as redes de corrupção - não tenhamos medo da palavra - e as redes económicas.
Bom, agora que ele [Péter Magyar] vai ser primeiro-ministro, será realmente prioritário para a sobrevivência política dele, desmantelar as leis que vieram condicionar fortemente a alternância política no país.
Ele tem votos do campo e da cidade, tem um fortíssimo apoio na juventude e, portanto, esta votação, que é uma votação de mais de dois terços - 138 deputados - permite-lhe rever a Constituição e reaproximar-se da União Europeia. Não quer dizer que vá cortar todos os laços com a Rússia, porque ainda há fortes dependências, mas é evidente que esta vitória esmagadora de Magyiar contra Orbán é uma derrota...uma grande derrota, de Trump e uma grande derrota de Putin.
Parece-lhe que Úrsula Von der Leyen — a presidente da Comissão Europeia — deve esperar, de facto, a partir de agora, uma cooperação por parte da Hungria que não existiu com o Orbán?
Sim. A Hungria, e Magyar disse isso na sua campanha, vai estar mais aberta e mais virada para a União Europeia. O que não quer dizer, evidentemente, que faça tudo o que a União Europeia quer. Nós não sabemos ainda, nomeadamente, o que é que vai fazer em relação à Ucrânia.
Justamente. Em relação à Ucrânia... parece-lhe que uma das prioridades de Péter Magyar será ajudar a desbloquear os 90 mil milhões de euros de ajuda à Ucrânia (que Orbán bloqueou) ou poderá manter o braço de ferro com Bruxelas?
Sinceramente não sei, mas julgo que ele terá tendência para abrandar o braço de ferro com Bruxelas, até porque precisa do apoio de Bruxelas. Precisa dos fundos de Bruxelas, porque esse corte de fundos também contribuiu muito para a má situação económica da Hungria. É certo que a Hungria tem algum contencioso histórico com a Ucrânia, mas o contencioso histórico com a Rússia é muito maior...teve sob a dominação Soviética.
Esta política do Orbán extremamente ligada a Putin, ao ponto de um ministro dos negócios estrangeiros da Hungria relatar a Moscovo tudo o que se passava nas reuniões do Conselho dos Negócios Estrangeiros, criou realmente uma irritação junto dos húngaros, que também não esquecem aquilo que passaram com os russos. Portanto, não sei. A política externa é sempre mais delicada.
Penso que a prioridade de Péter Magyiar será virar-se para o desmantelamento daquelas redes e de tudo aquilo que constrange a expressão da opinião pública na Hungria, mas é evidente que vão melhorar as relações com a União Europeia. Aliás, as visitas que ele vai fazer, as primeiras visitas que ele vai fazer já dão um sinal, a primeira visita vai ser à Polónia. Seguidamente vai visitar Viena...a Áustria. Enfim, são os vizinhos mais próximos, os austro-húngaros...é curiosa essa visita. E, depois, Magyar vai a Bruxelas.
Portanto, ele vai reatar as relações com a União Europeia... reatar, melhorar, desanuviar, descrispar as relações com a União Europeia. É de esperar realmente uma grande mudança para a Europa nesse sentido.
Pode dizer-se que, nos últimos 16 anos, é a melhor notícia que a União Europeia poderia ter?
É uma das melhores notícias. Quer dizer, seria a melhor notícia a queda do Trump, mas eu acho que deixarmos de ter este peão, este 'Cavalo de Troia' dentro da União Europeia é uma belíssima notícia.