Abusos. Experiência da Igreja “pode ser partilhada com outras instituições da sociedade”, diz D. José Ornelas
- 13/04/2026 12:31
- Redação
O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. José Ornelas, afirmou esta segunda-feira, em Fátima, que a Igreja “sabe que tem ainda muito a aprender” no que diz respeito ao combate e à prevenção de abusos sexuais de menores, mas sublinhou que experiência adquirida sobre o tema “pode ser partilhada com outras instituições da sociedade”.
Na abertura da Assembleia Plenária dos bispos, que decorre até quinta-feira, dia 16, D. José Ornelas fez um balanço dos seis anos em que esteve à frente da CEP (a eleição do próximo presidente está agendada para esta terça-feira, dia 14) e falou sobre o impacto da pandemia, a Jornada Mundial da Juventude, o contexto social e a instabilidade social.
Ainda sobre o tema dos abusos, o também bispo de Leiria-Fátima lembrou que o tema da proteção de menores “foi um processo complexo e sensível, sempre assumido com seriedade e responsabilidade”, mas reconheceu que “nem sempre a intencionalidade subjacente a todo este processo “foi convenientemente expressa ou sentida”. “Admito (…) que haja soluções que tenham ficado aquém das expectativas de algumas pessoas”, disse, depois de criticar as recentes polémicas sobre as notícias que deram conta das posições de alguns bispos em matéria de compensação às vítimas. “Polemizar sobre posições individuais dos membros da Assembleia, sem respeito pela realidade e a verdade dos factos, como aconteceu nos últimos dias, é lamentável e injusto, tanto para as vítimas como para os visados, e não ajuda a uma correta informação", referiu.
Segundo D. José Ornelas, “o caminho não termina aqui nem pode voltar atrás”. “A Igreja em Portugal precisa de consolidar uma verdadeira cultura de proteção e cuidado. Não se trata apenas de responder ao passado, mas de mudar práticas, reforçar a prevenção e tornar a Igreja num lugar seguro e mais coerente com aquilo que professa. A ‘tolerância zero’ tem de ser mais do que uma fórmula dita: tem de tornar-se critério permanente de coerência evangélica e de responsabilidade institucional.”
Segundo D. José Ornelas, os dois mandatos em que esteve à frente da CEP foram também marcados pelo aumento do número de migrantes. “Regular os fluxos migratórios é necessário, mas nada pode justificar processos desumanos, tempos de espera humilhantes ou formas de integração insuficientes”, disse, sublinhando, uma vez mais, que os migrantes “um rosto” e “procuram um futuro de esperança e dignidade”. “Legitimar a exclusão, a hostilidade ou o desprezo são atitudes que contradizem o Evangelho e que não contribuem para a afirmação de uma sociedade justa, aberta e a pensar num futuro melhor para si e para o mundo”, frisou.
O ainda presidente da CEP lembrou ainda outras fragilidades sociais. “A guerra, a instabilidade internacional e as suas consequências sobre o nosso dia-a-dia, a pobreza crescente, a fragilidade de tantas famílias, as dificuldades de acesso à habitação e à saúde, o desencanto de muitos jovens e o sofrimento silencioso e solitário de tantas pessoas idosas interpelam-nos e recordam-nos que a Igreja deve permanecer junto das feridas e esperanças da sociedade”.
A Jornada Mundial da Juventude foi outro dos pontos que o bispo abordou, dizendo que “o dinamismo e as redes de comunhão e ação que a JMJ gerou não podem perder-se”. “A JMJ recordou-nos que a Igreja não pode viver fechada sobre os seus ritmos habituais, como se bastasse repetir formas conhecidas”, destacou, falando da necessidade de “integrar a diversidade sem medo, porque na Igreja todos são chamados e cada um deve encontrar lugar no caminho da fé”.
Referindo-se aos efeitos da pandemia, D. José Ornelas recordou “fragilidades” como “a perda de ligação concreta à comunidade e ao ritmo habitual da vida de fé”. “A memória viva deste período crítico para toda a humanidade não deve ser esquecida, mas valorizada nos seus problemas, também na criatividade, nas novas parcerias e caminhos de relação e solidariedade que se geraram na Igreja e na sociedade”, disse.