Schumacher fez “batota” contra Villeneuve e Alonso: antigo chefe da Ferrari revê história da F1
- 14/04/2026 04:50
- Redação
“O Michael, um tipo fantástico, pagou muito caro sempre que perdeu o controlo. Custou-lhe o campeonato como, aliás, em 2006, em Monte Carlo, na qualificação com o Alonso, onde ele fez um pião de propósito. Ele teve de sair do fim da grelha, também lhe custou o campeonato”.
Há uma imprecisão. Schumacher não fez um pião na Rascasse em 2006, mas simulou instabilidade na penúltima curva do Mónaco, abrindo a direção apenas o suficiente para o carro ficar encostado ao muro da saída da curva e meio atravessado na pista.
O alemão provocou bandeiras amarelas e estragou as voltas rápidas de todos os pilotos atrás de si, como Fernando Alonso (então na Renault), mas a tentativa de sabotagem foi tão clara que Schumacher foi desqualificado e partiu, efetivamente, do último lugar na corrida. Todt disse, na altura, que "sem provas reais, os comissários assumiram que ele é culpado".
A admissão não é um choque, mas uma confirmação a todos que viram a colisão de que os olhos não lhes mentiram — até porque Schumacher fez o mesmo a Damon Hill (também da Williams, curiosamente) em 1994, em Adelaide, quando competia pela Benetton, garantindo assim o título desse ano. Desde o acidente que várias personalidades da F1 o apontaram como intencional, mas nunca ninguém da Ferrari de então o tinha feito até agora.
É questionável, no entanto, que tanto o acidente de 1997 como o 2006 tenham tirado o campeonato a Michael Schumacher. Em 1997, o alemão chegou à última corrida com uma vantagem de um ponto — uma vitória valia dez pontos, enquanto o segundo lugar fazia somar seis pontos.
O toque intencional de Schumacher a Villeneuve aconteceu depois de o canadiano da Williams reduzir a liderança do Ferrari a nada nas voltas anteriores. Michael Schumacher podia ter escolhido defender-se de forma convencional, e naturalmente forçosa, mas optou por um toque para tentar repetir o feito de 1994 e eliminar os dois carros — o que lhe daria o campeonato.
Já o título de 2006 foi perdido por 13 pontos. No Mónaco, Fernando Alonso venceu, conseguindo dez pontos, enquanto Schumacher chegou a quinto, somando quatro pontos. Sem o truque na qualificação, é possível assumir que o pior cenário para o alemão seria terminar em segundo atrás de Alonso, somando oito pontos em vez de quatro — o que continuaria a dar o título de 2006 a Alonso, por nove pontos. Se Schumacher por acaso tivesse vencido no Mónaco, teria perdido o título por seis pontos.
Minutos mais tarde, Todt foi questionado sobre como lidou com Schumacher após o acidente de 1997. “O Michael não sabia fazer batota. Ele fez, do que sei, duas vezes. Mas ele fê-la mal”.
“Teria sido fácil, ele estava na primeira linha [da grelha de partida] com o Villeneuve. Temos exemplos, em dois anos seguidos, entre [Ayrton] Senna e [Alain] Prost”, aponta Jean Todt, referindo-se aos títulos de 1989 e 1990, ambos decididos após colisões entre os dois rivais em Suzuka. “Ele só tinha de travar um pouco mais tarde, ele podia ter feito isso no arranque. Escolheu fazê-lo a dez voltas do fim. Foi a escolha errada”.
“Era simplesmente emoção. Por isso é que quando se julga alguém em ação, se deve ser muito indulgente. É mais fácil estar à mesa e dizer ‘deve-se fazer isto, deve-se fazer aquilo’, mas quando estás em ação, deve-se entender que o cérebro está a reagir de forma diferente”, declara. “Quando ele pensou que ia perder o campeonato, porque tinha de estar à frente do Villeneuve, ele tentou evitar isso, e tentou fazer isso erradamente”.
“E precisou de apoio. Foi uma má decisão. Foi desnecessário”, sublinha Todt, revelando depois ter dito ao piloto que o ia “proteger”. Questionado sobre se repreendeu Schumacher pela colisão, o francês confessa ter pensado o que fazer se o mesmo acontecesse de novo, mas regressa ao tema da emoção.
“É muito difícil culpar a emoção. É preciso entender a emoção. E depois, ele fez tantas coisas fantásticas. Portanto, tens o positivo e tens o negativo. Tens um pouco de negativo, mas tens muito mais de positivo”.
A conversa chegou à personalidade de Michael Schumacher, que durante a carreira passou uma imagem implacável e impiedosa, além de bastante privada — e protetor da privacidade da família —, apesar de ser conhecido com um líder de equipa capaz de se recordar dos nomes de todos os elementos e de detalhes das suas vidas.
“Ele é um ser humano bastante frágil”, assume Jean Todt. “Depois de ser campeão do mundo, antes de começar a nova temporada, ele perguntou-me, de volta à pista privada em Fiorano, ‘podes dar-me meio-dia em que eu faço um teste para ter a certeza que ainda sou bom?’ Acho que é uma grande força não ter a certeza que se é bom”.
“Nenhum de nós pensava que éramos bons”, assegura o francês, que liderou a Ferrari entre 1993 e 2008. “Tínhamos sempre medo de não sermos bons o suficiente”, conta, apesar dos títulos de construtores em 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2007 e 2008. “De certa forma, é um bocado doloroso, porque nunca aproveitamos tanto quanto devíamos”.
“O Michael é um tipo de pessoa tímida, generosa. Mas ele escondia a sua timidez ao parecer arrogante”, explica Todt. Um exemplo dado é a doação de “seis ou sete milhões” de dólares para a ajuda às vítimas do tsunami de 2004 no oceano Índico.
Michael Schumacher venceu cinco títulos consecutivos com a Ferrari entre 2000 e 2004, depois de dois com a Benetton em 1994 e 1995. Foi o recordista de vitórias na Fórmula 1 até 2020, ano em que foi ultrapassado por Lewis Hamilton — com quem partilha o recorde de sete títulos de campeão mundial de pilotos.
Schumacher está longe da vida pública desde dezembro de 2013, quando sofreu uma lesão cerebral traumática num acidente de esqui. Em casa desde setembro de 2014, foi operado em Paris em 2019, ano em que Jean Todt revelou que o antigo piloto consegue ver as corridas de F1, mas tem “dificuldade em comunicar”.