Bispo camaronês vê na visita do Papa um possível ponto de viragem para a paz no conflito anglófono

Bispo camaronês vê na visita do Papa um possível ponto de viragem para a paz no conflito anglófono

  • 15/04/2026 06:34
  • Redação

O bispo de Bafia, D. Emmanuel Dassi, considera que o conflito na região anglófona dos Camarões “continua a ser uma ferida aberta”, mas admite que a visita do Papa Leão XIV pode representar um sinal de esperança e contribuir para a construção da paz.

Em entrevista à Fundação AIS, o prelado descreve uma Igreja “vibrante e dinâmica”, sublinhando o crescimento do número de fiéis e vocações. “Celebramos muitos batismos e há também um número significativo de vocações sacerdotais”, afirma, destacando que na sua diocese existem 77 sacerdotes e 30 seminaristas.

Apesar deste crescimento, o bispo reconhece dificuldades, sobretudo nas zonas mais isoladas. “Enfrentamos dificuldades em estar presentes onde somos necessários, especialmente nas zonas rurais. Alguns paroquianos percorrem quilómetros de mota apenas para assistir à Missa dominical”, relata.

Para D. Emmanuel Dassi, a Igreja desempenha um papel relevante na sociedade, não só através de escolas e hospitais, mas também na defesa de valores. Um dos principais desafios prende-se com a família e o compromisso no casamento.

“Os nossos jovens têm dificuldade em comprometer-se com o casamento”, diz, apontando tanto a influência da sociedade moderna como o peso de tradições como o dote. “Salientamos a importância do Sacramento do Matrimónio, que deve prevalecer sobre estas considerações”, acrescenta.

No plano político, o bispo afirma que a Igreja assume sobretudo um papel de vigilância. “Durante as eleições do ano passado, a Conferência Episcopal alertou os candidatos para os desafios que os esperavam”, refere.

Segundo explica, a Igreja tentou acompanhar o processo eleitoral, mas com limitações: “Só recebemos acreditação para […] um terço das mesas de voto”. Ainda assim, foram detetadas irregularidades, embora sem conclusões definitivas sobre a legitimidade do Governo.

Sobre o conflito separatista na região anglófona, iniciado em 2017, D. Emmanuel Dassi sublinha o papel da Igreja como mediadora. “Somos os únicos atores locais que gozam de alguma credibilidade junto de ambas as partes”, afirma.

O bispo denuncia também os riscos enfrentados pelo clero: “padres e bispos são frequentemente raptados”. Recorda, a título de exemplo, o sequestro do cardeal Christian Tumi, que “foi raptado […] e mantido em cativeiro durante dois dias”.

Apesar de uma redução da violência, o responsável católico insiste: “O conflito continua”.

A deslocação do Papa Leão XIV é encarada como um momento simbólico importante, sobretudo pela passagem por Bamenda, epicentro da crise.

“Esta visita papal é um sinal de paz”, afirma o bispo, destacando sinais recentes de abertura, como a reabertura de infraestruturas e o retomar de alguma normalidade.

Para D. Emmanuel Dassi, estes desenvolvimentos podem indicar um novo caminho: “Talvez este seja o início de um caminho rumo à paz?”

Ainda assim, deixa uma nota final de esperança: “Nada é impossível a Deus. Tudo é possível com Deus.”

  • Fonte: Rádio Renascença
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