Hélio chamou Trincão pela primeira vez para as seleções jovens: “A entrega dele marcou-me para sempre”
- 15/04/2026 12:10
- Redação
Francisco Trincão prepara-se para mais um jogo de leão ao peito, num palco onde já foi feliz. Com o 17 nas costas e um bigode que recorda outros tempos, atinge no Emirates a marca dos 200 jogos pelo clube onde chegou em 2022, e no qual se afirmou como figura maior.
Hélio Sousa apostou num ainda adolescente Trincão nas camadas jovens de Portugal, chamando-o para os sub-17. Nas palavras do próprio, em entrevista ao "Record" em 2020, Hélio foi o “treinador que mais o marcou” e que o fez “dar o salto na carreira”.
Foi em 2018 que, junto à talentosa geração de 99, conquistou o Europeu sub-19 numa final contra Itália, assumindo-se como um dos melhores marcadores do torneio (5 golos). Em entrevista a Bola Branca, o técnico português relembra o rapaz trabalhador que sempre teve faro para o golo.
Francisco Trincão celebra hoje 200 jogos pelo Sporting. Recuando no tempo, como foi o primeiro contacto com ele nas seleções?
O Francisco começou a ser chamado à geração de 99 por volta de dezembro ou março, num processo de preparação dos Sub-19. As suas primeiras internacionalizações foram nuns jogos particulares com a Turquia, em Sines e em Santiago do Cacém. Na altura, era um adolescente com uma vontade enorme e uma autoconfiança inabalável no seu valor. Embora não tenha sido opção imediata para a fase final do Europeu de Sub-17, foi conquistando o seu espaço no Braga. Mais tarde, tornou-se uma das opções mais regulares nos Sub-18 e Sub-19, ajudando-nos a vencer o Europeu na Finlândia, onde foi, juntamente com o Jota, um dos melhores marcadores do torneio.
Sempre foi um jogador que ganhou valências com uma capacidade enorme de autocrítica e de querer ser melhor a cada momento. Além da competência técnica, era muito generoso e solidário com a equipa. Isso foi evidente ao longo de toda a sua carreira. Passou por algumas dificuldades, teve sucesso no Braga e depois aquela transferência para o Barcelona, onde competiu ao mais alto nível. Embora não tenha sido totalmente feliz em Espanha, manteve sempre essa resiliência enorme que o caracteriza.
Trincão não passou pela formação dos "três grandes" e deu um salto direto para um clube como o Barcelona. O Braga teve um papel fundamental nisso?
Sem dúvida. Há mais de uma década que o Braga investe nas suas infraestruturas e nos recursos humanos. Os seus jogadores são presenças constantes nas seleções jovens e têm saído para os campeonatos mais importantes da Europa. No caso do Trincão, o salto para o Barcelona foi grande, mas ajustado às qualidades que ele mostrava. Pode ter ficado a sensação de que não foi um êxito total, talvez por não ter chegado no momento ideal do clube, mas foi um passo em frente. Teve minutos, fez golos e assistências num dos melhores clubes do mundo.
No Sporting encontrou a alegria. Tem sido um jogador essencial e, a cada ano que passa, é melhor do que no anterior. Hoje em dia não é comum um jogador tão jovem atingir tantos jogos por um clube em Portugal. Ele faz parte de uma base, juntamente com jogadores que tem sido crucial para as conquistas do Sporting. Aos 26 ou 27 anos, o jogador atinge a maturidade e a solidificação do seu processo. Isso vê-se também na seleção nacional, onde agora é chamado com regularidade e começa a ser opção para iniciar jogos. Sente-se que é um jogador feliz em campo.
Não me surpreende porque ele sempre teve golo. O que mudou foi a continuidade competitiva e a exigência do plantel do Sporting. Quando há um plantel forte, os jogadores não podem desacelerar nem acomodar-se. A personalidade dele leva-o a procurar sempre mais. É um prazer ver um jovem que passou por nós na formação estar a viver a profissão com esta alegria. É mais importante do que os títulos conquistados.
Lembro-me bem de que, ao início, ele era muito introvertido. Entrar numa equipa que já tinha sido campeã europeia era uma exigência grande, mas ele integrou-se bem e tem um humor peculiar; gosta de brincar e também aceita bem as provocações. Um momento que me marcou foi esse segundo jogo contra a Turquia. Aos 15 minutos já estava exausto, quase sem conseguir respirar de tanto correr. Ali mostrou logo o seu empenho e o querer enorme de ajudar a equipa. Essa entrega marcou-me para sempre.
O seu conhecimento do jogo tornou-se muito mais completo. No início, era um jogador quase exclusivamente de corredor, de linha. No seu desenvolvimento, ganhou capacidade defensiva, aprendeu a pressionar o adversário e a sacrificar-se para ajudar o lateral. Atualmente, aprendeu a jogar entre linhas com muito mais qualidade. Pode jogar nas três posições da frente, seja nas alas ou por trás do ponta de lança. Melhorou o remate exterior e o último passe no corredor central. É, hoje, um jogador taticamente muito mais evoluído.
Compreende a desconfiança inicial que alguns adeptos sentiram quando assinou pelo Sporting?
É um sentimento plausível para quem via de fora. Podiam pensar que era um retrocesso ou que viria desmotivado. Mas essa não é a personalidade dele. Ele veio com mais força para provar o que era capaz de fazer. Encontrou no Sporting uma equipa em reconstrução e com vontade de vencer. Foi o casamento perfeito no momento ideal.