Doentes crónicos insatisfeitos com coordenação nos cuidados de saúde em Portugal
- 16/04/2026 01:00
- Redação
Os doentes crónicos em Portugal queixam-se da falta de coordenação nos cuidados de saúde, com apenas 49% a manifestarem-se satisfeitos com esta área.
Esta é uma das conclusões do Patient Reported Indicator Surveys 2026 (PaRIS), o maior inquérito internacional realizado pela OCDE aos utilizadores dos cuidados primários do SNS, com mais de 45 anos.
“Só metade dos inquiridos é que sente apoio suficiente para a coordenação da sua própria doença e só três em cada dez é que têm um plano de cuidados. É um plano que é discutido entre a pessoa que tem uma doença crónica e o seu médico e onde são estabelecidos os objetivos para o controle de doença, qual é a medicação que faz e que profissionais é que estão envolvidos no seu percurso de cuidados. A boa notícia é que quem tem um plano de cuidados acha que é uma ferramenta útil para a coordenação de cuidados”, afirma.
André Peralta Santos assegura que uma das prioridades para os próximos anos vai estar, justamente, na coordenação de cuidados de saúde. Adianta que a reforma das Unidades Locais de Saúde (ULS) vem procurar responder a essa necessidade, “de forma não apenas administrativas, mas de maneira que acompanhe o doente no seu percurso clínico”.
Este estudo também reflete que o plano de cuidados é muito utilizado para partilha de informação entre médicos nos centros de saúde, mas é pouco utilizado na partilha de informação no caso dos médicos em unidades hospitalares, por isso, outras das prioridades, diz André Peralta Santos, passa por todos os doentes crónicos terem o seu plano individual de cuidados.
O inquérito conclui que apenas 35% dos doentes crónicos estão nessa situação. Outra nota a reter prende-se com o facto de que muitos deles têm de repetir informação clínica que já deveria estar registada.
O relatório agora divulgado refere ainda que Portugal fica abaixo da média internacional nos cuidados em saúde, apresentando desempenhos consistentemente piores do que a média dos países da OCDE. Como exemplo, pouco mais de metade (53%) confia no sistema de saúde no seu todo, um valor significativamente abaixo da média internacional.
A maioria das pessoas que vive com doença crónica avalia de forma positiva a sua saúde física, mental e bem-estar, mas em níveis inferiores à média da OCDE.
Por outro lado, menos de metade dos inquiridos considera ter uma boa saúde geral e quase quatro em cada dez estão em risco de depressão clínica. André Peralta Santos reconhece que a área da saúde mental carece de mais atenção.
“Portugal, de facto, nos resultados de saúde tem um pior desempenho do que os países da OCDE e a saúde mental é uma área onde Portugal se destaca pela negativa, infelizmente. Apesar de tudo, quando nós olhamos para as experiências com os serviços de saúde, o panorama é muito mais em linha com os restantes países da OCDE e quanto à confiança na gestão da saúde, esse valor é até superior à média da OCDE”, declara.
Nesse sentido, o subdiretor-geral da DGS salienta que mais de 60% dos utentes dizem sentir-se confiantes para gerir a própria saúde e quase 70% avaliam a qualidade dos cuidados recebidos como boa ou melhor.
André Peralta Santos assinala também como positivo o facto de o estudo concluir que o Sistema Nacional de Saúde é equitativo e não discrimina utentes em função de nenhum fator.
“Quem tem doença crónica, em comparação com quem não tem, demonstra experiências muito semelhantes em termos de qualidade de cuidados, de coordenação de cuidados e de confiança. O mesmo se pode dizer em relação à idade. Globalmente, as pessoas mais velhas, em comparação com as mais novas, têm experiências muito semelhantes. Obviamente que as mais velhas têm piores resultados de saúde, mas temos um SNS que não discrimina e isso é um especto positivo”, aponta.
No capítulo da saúde digital, o subdiretor-geral da DGS afirma que Portugal soma pontos, no que se refere a registos de saúde eletrónicos, mas fazem-se poucas videoconsultas e menos de metade dos inquiridos sabe como marcar consultas ou pedir receitas online.
“A videoconsulta é um serviço que já existe, mas é pouco utilizado. Por exemplo, a renovação de receitas de medicamentos por via digital também é um serviço que já existe, e é mais utilizado do que as videoconsultas. A transformação digital emerge aqui como uma prioridade que permite ultrapassar, até, alguns constrangimentos de acesso que possam existir, para além de aumentar a comodidade para o cidadão, porque é algo que não devemos perder de vista”, sublinha.
O relatório PaRIS também demonstra que mulheres, pessoas mais velhas, com menor escolaridade ou em situação de privação económica tendem a reportar piores resultados em saúde e menor confiança no sistema.
Os dados foram recolhidos durante 2023 junto de 11.744 utentes, sendo 53,5% do género feminino e 45,5% do género masculino, distribuídos por 80 unidades de cuidados de saúde.