“A Liga dos Campeões da arte e da moda” na Gulbenkian

“A Liga dos Campeões da arte e da moda” na Gulbenkian

  • 17/04/2026 04:00
  • Redação

Ver "Saharienne", o primeiro casaco que Yves Saint Laurent desenhou para homem, em diálogo com o quadro “As Bolas de Sabão”, de Édouard Manet, é um dos exemplos que a exposição “Arte e Moda” que abre ao público no sábado, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, propõe ao visitante.

A mostra reúne o melhor da coleção que Calouste Gulbenkian fez em diálogo com 140 peças de alta-costura de alguns dos maiores criadores do mundo.

De Givenchy a Balenciaga, de Alexander McQueen a Christian Dior, passando por Hermés, John Galliano, Issey Miyake ou Christian Lacroix, há de tudo um pouco na exposição que apresenta também criações de oito portugueses.

O curador da exposição, o espanhol Eloy Martínez de la Pera Celada, um dos maiores especialistas em moda e arte, usa uma expressão de futebol para explicar que em Lisboa conseguiu reunir a “Liga dos Campeões da arte e da moda”.

“Se pensam que vão ver uma exposição de arte e moda, estão enganados. Vão ver a melhor exposição de arte e moda alguma vez feita! Nunca antes conseguimos juntar obras de arte da qualidade de um Rembrandt, Rubens, Manet, Degas ou de algumas peças de arqueologia que estão nesta exposição”, aponta.

Na perspetiva do curador, Calouste Gulbenkian foi “um dos mais importantes colecionadores de beleza do século XX”.

“Não era apenas um colecionador, ele adorava a beleza e, por causa disso, a exposição é um tributo a este tipo de colecionadores”, refere.

O desafio que partiu do antigo diretor do Museu Gulbenkian, António Filipe Pimentel foi difícil, admite Eloy Martínez de la Pera Celada. O curador explica que a “dificuldade”, foi “neste últimos 4 anos, encontrar 140 peças de alta-costura que consigam contar a história que queríamos”.

No curriculum, o curador tem várias exposições pelo mundo em que estabeleceu o diálogo entre arte e moda, mas em Lisboa este curador socorreu-se também de uma coleção de arte portuguesa, a do MUDE – o Museu do Design e da Moda de onde vieram 38 peças, muitas delas com assinaturas internacionais, como é exemplo Vivienne Westwood.

De Espanha, do Museu do Traje vieram também muitas peças. Todas foram escolhidas ao detalhe para que, quando colocadas na galeria da Gulbenkian parecessem saltar dos quadros, das esculturas, das tapeçarias ou outras peças da coleção do fundador arménio.

Na apresentação à imprensa em que marcou presença o novo diretor do museu que está fechado para obras, falou também o anterior diretor, António Filipe Pimentel para referir a Gulbenkian “não tem tradição” neste tipo de exposições, mas “estranhamente e, ao contrário daquilo que se imagina”, Gulbenkian “era um homem fascinado pela moda, porque tinha para ele o mesmo encanto que tinha toda a arte”.

No percurso o visitante vê por exemplo algumas das peças de René Lalique, da coleção Gulbenkian, ao lado de criações da época da Art Déco, mas também uma criação mais contemporânea de Lino vinda do Museu do Traje de Espanha. Com isto, Eloy Martínez de la Pera Celada faz questão de dizer que a moda é intemporal e que foi a arte que a ajudou a preservar.

“Conhecemos a moda destes períodos graças à escultura, à pintura, a certas peças arqueológicas e à Art Déco. Vamos descobrir, na exposição, que todas essas pequenas peças vão, de vez em quando, contar-nos histórias. Por vezes, qual era a cor da moda no final do século XIX. O verde Nilo era a mais popular, porque já havia influenciadores no século XIX. A saia – Os homens usam saias desde os primeiros séculos. Nós não somos assim tão modernos”, diz com intensidade o curador.

Para esta exposição de luxo vieram seis peças da China que nunca antes foram vistas na Europa, assim como diversas peças de várias casas de alta-costura.

“A alta-costura sempre esteve presente na história da humanidade. Quando vemos os desenhos nos sarcófagos dos faraós, aquilo era alta-costura. A Nefertiti é alta-costura! Quando vemos todos esses pequenos desenhos das deusas gregas, elas vestiam alta-costura”, sublinha Eloy Martínez de la Pera Celada.

A moda atravessou as civilizações, refere o curador que lembra que “esta exposição é sobre isso”. “É sobre dizer a todos nós que muitos e muitos milhões de pessoas antes de nós adoravam o seu McQueen e o seu Balenciaga”.

No percurso surgem apontamento com marca portuguesa. Além de peças de criadores como José António Tenente, Nuno Gama, Maria Gambina, Storytailors, Miguel Vieira, Nuno Baltazar ou a dupla Alves/Gonçalves, surge também um xaile bordado que pertence à artista Joana Vasconcelos.

A criadora portuguesa emprestou também para a exposição um vestido seu com a assinatura do estilista japonês Tsumori Chisato. O curador destaca a importância da integração destas peças, desde logo, porque Joana Vasconcelos trabalha com tecidos, como também pelo facto de já ter criado uma peça de grandes dimensões, uma "Valquíria", para um desfile da casa Dior.

Entre as mais de 240 peças expostas está também um vestido que já foi capa de revista, conta Eloy Martínez de la Pera Celada. Trata-se de uma criação de Sarah Burton.

É um “vestido bastante importante”, refere. “É da atual designer da casa Givenchy, a Sarah Burton. Ela trabalhou com o Alexander McQueen durante muitos anos. Agora é diretora artística e criadora da casa Givenchy. Esta peça foi usada pela atriz Anne Hathaway na capa da Vogue norte-americana”, indica.

Mas há mais. São apresentadas três peças assinadas por Mariano Fortuny que foram usadas no filme “Othello” de Orson Wells. Um mundo para descobrir na exposição que estará aberta ao público até 21 de junho com visitas ao sábado e domingo até às 21h.

“Estamos a prestar uma homenagem a Calouste Gulbenkian e também a Nevarte, a sua esposa, porque eles adoravam coisas bonitas. Viviam rodeados por estas belas peças em casa, era por vezes até um pouco exagerado, mas queriam ter os belos tapetes, os belos candeeiros, o belo piano, a bela tapeçaria. Eram realmente pessoas que adoravam moda”, destacou o curador na apresentação da exposição.

  • Fonte: Rádio Renascença
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