Autora de “Cisnes Selvagens”: “A China está a ser arrastada para os maus velhos tempos maoístas”
- 17/04/2026 17:47
- Redação
O primeiro poema que escreveu, destrui-o, deitou-o pela sanita abaixo quando o Exército Vermelho batia à porta de casa dos pais. Jung Chang é autora de um dos maiores bestsellers mundiais, o livro “Cisnes Selvagens”, e está agora a lançar a sequela. Quarenta anos depois regressa à história da sua família em “Voai, Cisnes Selvagens” (ed. Quetzal).
A escritora que esteve em Portugal, em Matosinhos, a participar no LeV, o Festival Literatura em Viagem, confessa que quando cresceu na China, “nem sequer podia sonhar” em tornar-se escritora, “porque todos os escritores eram denunciados”.
A autora que escreveu em conjunto com o marido a biografia de Mao, continua a ter os seus livros banidos na China e não regressa ao seu país, onde a mãe está a viver os seus últimos tempos de vida. Sabe que se for, não voltará a sair de lá. Vive em Londres, onde chegou há 40 anos. Na altura, sentiu que “tinha aterrado em Marte”.
Com uma vontade imensa de falar sobre o seu passado que só deixou de ser tão traumático, porque o transformou em literatura, a escritora é hoje uma voz crítica da China. Ela que conheceu bem o regime de Mao, considera que a China “parece estar a recuar à época de Mao”. “Tornou-se mais repressiva e muito menos livre. O tipo de capitalismo que tinha sido incentivado nas últimas décadas foi realmente reprimido”, afirma.
Tenho a memória de infância de criar bichos-da-seda, porque a minha terra natal é uma antiga cidade produtora de seda. Marco Polo escreveu sobre isso nas suas viagens à China. Criar bichos-da-seda era um modo de vida e lembro-me de ter os braços cheios de folhas de amoreira que colhia e alimentar os bichos-da-seda que eram felpudos.
Colocava as folhas numa cesta de bambu e observava os pequenos bichos-da-seda a comerem avidamente. Assim que as folhas de amoreira acabavam, eu, e outras crianças voltávamos às amoreiras para colher mais folhas.
Estes pequenos bichos-da-seda engordavam ao comer as folhas e começavam a soltar esse tecido das suas boquinhas rechonchudas. O tecido de seda enrolava-se à sua volta para formar um casulo. O fio de seda era retirado.
Lembro-me de tentar puxar o fio de seda para fora do casulo e eles partiam-se logo devido às minhas mãos desajeitadas! Eu tinha cinco a seis anos.
Tinha 12 anos quando pedi ao meu pai para mudar o nome. Nessa altura, a China tinha-se tornado uma sociedade altamente politizada. E Mao dizia que todos tínhamos que obedecer ao partido. Caso contrário, o país mudaria de nome, deixaria de ser a China vermelha.
E um dia, o nosso professor disse na aula que, se não seguíssemos o presidente Mao, o nosso país mudaria de cor e passaria de um vermelho vivo para um vermelho desbotado. O meu nome era Erhong, no dialeto de Sichuan. O professor dizia a China ia passar para "erhong erhongli", ou seja de vermelho vivo para vermelho desbotado.
Toda a gente se ria de mim na turma, ou seja, o meu nome original, Erhong, que significa "segundo cisne selvagem", tem a mesma pronúncia que "vermelho desbotado". Por isso, pedi ao meu pai que me desse outro nome.
Ele queria dar-me um nome bonito, mas eu não quis. Mao estava a ordenar que as crianças do país aprendessem com o Exército Popular de Libertação. Então disse que queria algo com um tom militar.
Todos os meus amigos tinham mudado o nome para Wang, “o exército”, Li, “o soldado”. Então o meu pai deu-me o nome Jung que na verdade era uma palavra clássica que já desapareceu. Significa "assuntos marciais".
Mas nos tempos antigos evocava a imagem de um lutador a cavalo com armaduras brilhantes. E assim o meu nome, hoje significa assuntos marciais. E apesar de eu querer voltar ao nome "Segundo Cisne Selvagem", fiquei presa neste nome de “assuntos militares”.
Vive na Europa há 40 anos. Mas a China continua presente em todos os seus livros. Acha que os poderia escrever se ainda vivesse na China hoje?
Acho que não. Deixei a China há muito tempo. Saí do país em 1978. Aquele foi um momento decisivo. Fui um dos primeiros chineses a deixar a China comunista para vir estudar para o Ocidente. Acho que não poderia ter escrito aqueles livros na China, sobretudo porque precisava de alguma distância.
Os chineses dizem: "não se pode escrever sobre uma montanha quando se está dentro dela, só quando se está de fora é que se consegue ver as formas das montanhas". E essa é uma das questões. A outra questão é que sinto que agora tenho uma perspetiva do país.
Só quando saí da China é que percebi o quão importante foi o ano em que saí, 1978, quando a China maoísta chegou ao fim. E Deng Xiaoping iniciou as reformas e a abertura ao mundo. Foi um momento decisivo.
Desde essa altura e até hoje, chegámos a outro momento decisivo. As reformas parecem ter parado. E a China está a ser arrastada para os maus velhos tempos maoístas. Quero dizer, outra era terminou e eu pude ver tudo isso fora da China.
Com mais liberdade. Mas fale-nos sobre "Cisnes Selvagens". É sem dúvida um dos seus maiores sucessos. Tem como subtítulo "As três filhas da China". No livro percorre a sua vida, a da sua mãe e a da sua avó. O que aprendeu com elas?
Foi a minha mãe que me inspirou a escrever "Cisnes Selvagens" porque, durante dez anos, desde que vim para o Ocidente, eu não queria escrever.
Escrever, para mim, era olhar para o passado e para dentro de um passado demasiado doloroso para se pensar nele. Durante a Revolução Cultural, o meu pai, que se manifestou contra a Revolução Cultural, foi preso, torturado, exilado para um campo e morreu tragicamente.
A minha mãe estava sob uma pressão tremenda para denunciar o meu pai. Ela recusou-se. Por isso, foi submetida a dezenas de reuniões de denúncia, o que era uma coisa quotidiana na China durante anos.
Basicamente, as vítimas, como a minha mãe, eram forçadas a ficar de pé num palco, em frente a uma multidão histérica, e os seus braços eram empurrados violentamente para trás, a sua cabeça empurrada violentamente para baixo e era-lhe pendurada ao pescoço uma placa a denunciá-la.
A minha mãe foi obrigada a ajoelhar-se sobre vidros partidos. Ela foi levada pelas ruas, onde as crianças lhe cuspiam e atiravam-lhe pedras. Foi enviada para um campo, mas sobreviveu. A minha avó também teve uma morte muito trágica durante a Revolução Cultural.
Eu só queria esquecer tudo isso. Não queria escrever. Mas, em 1988, a minha mãe foi a Londres para estar comigo. Um dia estávamos a passear em Hyde Park e a minha mãe parou de repente, apontou para uma pedra rasa e redonda e disse-me: "Olha para aquilo. Parece mesmo uma mó de moinho. Era este tipo de pedra que costumavam colocar nos pés das meninas para os esmagar e criar os chamados ‘Pés de Lotus’”
Eram pés com sete centímetros. Era o nome dado aos pés enfaixados. Trata-se de uma tradição horrível da China que se prolongou por mais de mil anos. Eu sabia que a minha avó tinha tido os pés enfaixados. Eu vi os pés da minha avó.
Quando era criança, quando ia às compras com a minha avó, quando voltávamos, ela colocava imediatamente os pés numa bacia com água quente. Ela suspirava de alívio e dizia: "Sabes, as pessoas dizem que acabamos por superar a dor, mas nunca se supera a dor."
Eu vi os pés da minha avó, que eram assustadores de se ver. Apenas os dedos grandes estavam normais. Os outros quatro dedos de cada pé estavam sem vida, como se não tivessem ossos. Estavam enfiados debaixo do arco do pé. Tinham sido esmagados debaixo de uma mó pela mãe dela quando a minha avó tinha dois anos.
Foi um processo que durou anos. A minha avó implorava à mãe. Ela chorava, desmaiou, mas não conseguiu fugir. E implorou à mãe para parar. Mas a mãe dizia-lhe: "Se não tiveres estes Pés de Lótus não conseguirás encontrar um marido quando cresceres."
Assim a minha mãe começou a contar-me as histórias de como os pés da minha avó foram enfaixados. Fiquei chocada, porque não fazia ideia de que os pés enfaixados eram feitos dessa forma.
Então, pedi à minha mãe para me contar mais. Ela começou então a contar-me mais histórias e fez com que eu conhecesse o passado.
Sim, ela queria, sempre quis. Antes tinha-me sugerido que escrevesse algo sobre a nossa família, porque eu adorava escrever quando era criança.
Mas quando cresci na China, nem sequer podia sonhar em tornar-me escritora, porque todos os escritores eram denunciados.
Bem, a questão é mesmo essa! Antes tinha todos estes traumas, mas só queria reprimi-los. Assim que a minha mãe me contou as histórias, comecei a pensar: "Tenho de escrever tudo isto."
Pedi por isso, à minha mãe mais histórias, e ela contou-me. Ficou comigo, em Londres, durante seis meses. Falava todos os dias. Enquanto eu estava fora a trabalhar, falava para um gravador.
Quando se foi embora de Londres, tinha-me deixado 60 horas de gravações. Eu transcrevi depois essas 60 horas e comecei a escrever "Cisnes Selvagens".
Escrever "Cisnes Selvagens" foi o maior presente que a minha mãe me deu. Tornei-me escritora, o que era realmente, como a minha mãe sabia, a única coisa que me fazia sentir realizada. Esse era o meu talento.
Consegui transformar o trauma, em memória. Por isso, posso estar aqui falar consigo sem sentir demasiada dor.
Quando regressei à China, ao longo dos anos, descobri que a maioria das pessoas simplesmente não tem o luxo de transformar os seus traumas em memória. Sempre que o passado é mencionado, as pessoas ficavam alteradas. Começavam a tremer, a falar de forma incoerente, porque tinham algum...
Não é por causa do medo, porque agora na China ainda é assim, e mais ainda do que nas últimas décadas desde a morte de Mao.
As pessoas não têm permissão para falar sobre o passado e não têm permissão para pensar no passado. Por isso, a maioria das pessoas reprimiu o passado e o trauma. Assim, não conseguiram transformar o trauma em memória.
A sua mãe ainda está viva. Dedica-lhe o seu novo livro "Voai, Cisnes Selvagens", mas não consegue visitá-la na China. O que a mantém afastada da China hoje?
Em 2018 estive na China e, nesse ano, o Sr. Xi, o líder da China, acabara de se autoproclamar "líder supremo permanente da China". Uma das primeiras ordens que ele deu foi tornar crime punível, com pena de prisão, se fosse considerado que alguém tinha insultado um herói revolucionário.
O Mao continua a ser o maior herói revolucionário da China. O seu retrato está nos portões de Tiananmen, a sua cara está em todas as notas chinesas. E depois de "Cisnes Selvagens" escrevi uma biografia de Mao, em conjunto com o meu marido, Jon Halliday.
No nosso livro, que levámos 12 anos a escrever, documentámos o mau governo de Mao na China. Eu sei que seria considerado que tinha insultado Mao. Então comecei a preocupar-me.
Antes de 2018, eu tinha lutado para voltar a ver a minha mãe, porque todos os meus livros estavam proibidos na China. Mas em 2018 percebi que o meu problema não era não poder voltar à China, mas sim sair da China.
Por isso, tomei a decisão mais dolorosa e difícil de não voltar para ver a minha mãe quando ela está muito doente e a morrer.
"Voai, Cisnes Selvagens" é o livro que lhe dedica. É um livro que começa onde "Cisnes Selvagens" terminava. Porque sentiu necessidade de regressar à história?
Basicamente, o principal foi para falar das mais de quatro décadas, desde 1978. Sinto que a outra era, como disse, terminou. Durante essas mais de quatro décadas aconteceram muitas coisas dramáticas.
Vi a China mudar desde 1974, desde aquela época de otimismo e esperança, passando por um fantástico desenvolvimento económico, até aos dias de hoje, em que o país parece estar a recuar à época de Mao. Tornou-se mais repressivo e muito menos livre. O tipo de capitalismo que tinha sido incentivado nas últimas décadas foi realmente reprimido.
Muitos empresários e pessoas ricas fugiram hoje da China para o Ocidente. Acredito que muitos também para Portugal. Por isso, o foco do livro é documentar este período e como ele afetou a minha mãe, a mim e as nossas vidas.
Percebo que, embora viva em Londres, na verdade, de certa forma, nunca saí da China, porque todos os meus livros têm a ver com a China. E a minha mãe ainda lá está, assim como alguns dos meus irmãos e irmãs. Regressei todos os anos, até 2018, para os ver e para fazer investigação.
Escrever é, de certa forma, sentir a necessidade de descrever as nossas vidas e de atualizar as histórias da minha mãe e a minha, juntamente com a da China, até aos dias de hoje.
Não há ficção em "Cisnes Selvagens" ou em "Voai, Cisnes Selvagens". Nem nas minhas outras três biografias sobre grandes figuras da China moderna.
Esses dois livros sobre a minha família não são nada de ficção. Mas com a China, sabe, os factos são sempre mais estranhos do que a ficção.
Acha que a sua voz literária mudou com os anos, agora que escreveu "Voai, Cisnes Selvagens", comparando com "Cisnes Selvagens"?
Acho que não. A questão é que, claro, quando estou a escrever o segundo livro de memórias, "Voai, Cisnes Selvagens" sei muito mais sobre a China do que quando escrevi "Cisnes Selvagens", há mais de 30 anos.
Na verdade, como o Jon e eu passámos 12 anos a fazer a pesquisa para a nossa biografia de Mao, passei a saber muitas coisas que não sabia quando escrevi "Cisnes Selvagens".
Na verdade, entrei em pânico. Pensei que talvez tivesse de reescrever "Cisnes Selvagens", porque não sabia essas coisas quando escrevi o livro! Voltei ao livro, li-o e fiquei imensamente aliviada!
Ao escrever este novo livro, encontrei todas as cartas que troquei com a minha mãe. Li, de facto, os conselho que a minha mãe me deu quando estava a escrever "Cisnes Selvagens".
A minha mãe dizia, isto há mais de 30 anos, que deveria ater-me às histórias pessoais e que não devia pensar em escrever uma história da China quando estava a escrever "Cisnes Selvagens".
Ela sentia que o meu conhecimento da história da China moderna estava fortemente influenciado pela doutrinação a que fui sujeita enquanto crescia na China.
A minha mãe foi tão sábia, porque, ao reler "Cisnes Selvagens" depois de ter investigado a China moderna durante 12 anos com o Jon, percebi que o livro é apenas uma história pessoal, e que o contexto foi reduzido ao mínimo.
Talvez haja umas duas frases com as quais não estou totalmente satisfeita, mas, enfim, podem ficar, porque não estão erradas. Penso na sabedoria da minha mãe, e percebo que de certa forma, garantiu que "Cisnes Selvagens" resistisse ao teste do tempo.
Já falou sobre a biografia de Mao. Isso causou-lhe alguns problemas porque, depois disso, não pode voltar à China. Conte-nos como Mao era visto, quando a Yung ainda vivia na China. Era visto como um "deus"?
Quando eu era criança, nos anos 50 e 60, Mao era como um deus. Se as crianças, quiséssem dizer algo algo que dizem é absolutamente verdade, diziam "Juro pelo Presidente Mao".
Quando o Mao pediu aos jovens na China para se juntarem ao Exército Vermelho na Revolução Cultural, não era preciso dizer, todos sabíamo que tínhamos de nos juntar ao Exército Vermelho.
Naquela altura, tinha 14 anos e já sentia uma repulsa total pelo que se passava na minha escola durante a Revolução Cultural.
A minha escola era a mais antiga da China. Foi fundada em 141 a.C. e, por isso, possuía muitos tesouros. Lembro-me que havia um enorme templo de Confúcio, com aquelas gigantescas placas de pedra gravadas com os ensinamentos de Confúcio, havia estátuas, incensários... era um lugar lindíssimo.
Durante a Revolução Cultural, quando Mao ordenou aos jovens que destruíssem tudo o que era antigo, os "Quatro velhos", principalmente a cultura antiga, vi com os meus próprios olhos essas coisas que eu adorava serem destruídas.
Os rapazes andavam por ali a arrancar as cabeças das estátuas nas pontes que atravessavam um pequeno canal que passava pelo zona da escola. Eu detestava tudo aquilo, e o Mao chegou mesmo a virar-se contra a horticultura. Considerava o cultivo de flores e relva como um hábito burguês.
Por isso, tivemos de arrancar a relva do relvado da escola. Eu detestava o que estava a fazer, mas tinha de me criticar a mim própria por ter esses pensamentos que iam contra os ensinamentos do Mao.
Pior do que tudo isso, eu vi professores meus a serem abusados, sujeitos a estas reuniões de denúncia de que falei. Vi o meu professor a ser espancado por crianças. Cheguei a ver uma criança considerada "negra", o que significa vir de uma família má, a tentar suicidar-se saltando da janela do andar de cima.
Mesmo detestando tudo aquilo, não podia questionar a Revolução Cultural ou Mao. Quando me foi autorizado a entrar para o Exército Vermelho, era óbvio que deveria voltar para a escola e colocar uma braçadeira vermelha.
Mao era inquestionável! Sabe como precisamos de beber água, de comer, de respirar, ele era assim.
Penso que ainda existem, mesmo pessoas muito liberais que foram para o exílio, percebi que pararam de questionar Mao.
Quando os media chineses me convidavam para falar, muitas vezes não me convidavam para falar de Mao, mas sim do livro "A Imperatriz Viúva", que é oficialmente a vilã, a responsável por cem anos de humilhação da China às mãos do Ocidente.
Ele podia denunciá-la, mas o meu livro tornou-a uma mulher, a concubina, que deu início à China moderna. Ela fez mais coisas boas pela China do que todos os líderes anteriores e posteriores a ela juntos. Mas ela era a vilã oficial.
Escrevi essa biografia sobre ela e os media chineses, até os media chineses no estrangeiro, convidaram-me para falar sobre ela, mas tinham receio que eu falasse sobre Mao.
Acho que ainda há algo que inibe as pessoas, principalmente as pessoas na China. Claro que os jovens, sabe, é impensável. Quer dizer, Mao morreu em 1976, ou seja, estamos a falar de meio século, mas ele ainda é a "vaca sagrada", a pessoa que não pode ser contestada.
Foi na sua infância, nesse tempo da China de Mao que começou a escrever. A primeira coisa que escreveu foi um poema. Lembra-se dele? De que falava?
Não me lembro do poema, mas lembro-me de uma ocasião, no dia dos meus 16 anos, em 1968. Escrevi esse primeiro poema. Diziam-nos que a China comunista era o paraíso na Terra. E pensei, se havia toda aquela violência e atrocidades, os meus pais tinham sido detidos, a minha avó a soluçar na casa ao lado, e pensei, se isto é o paraíso, o que é então o inferno?
Então escrevi sobre esse sentimento no meu primeiro poema. Mas depois ouvi a baterem à porta, e o Exército Vermelho vinha invadir o nosso apartamento. E eu sabia que, se eles vissem o meu poema, eu, e a minha família, teriamos problemas. Por isso, fui a correr para a casa de banho, rasguei o poema e deitei-o na sanita.
Nos anos seguintes, eu culpava a mulher de Mao e o Bando dos Quatro — não sei se já ouviu falar, basicamente eram os assistentes de Mao — por toda a violência e atrocidades, mas não conseguia culpar Mao.
Este estado de espírito confuso, a mente incapaz de pensar racionalmente, persistiu durante muitos anos, até 1974.
Nessa altura, já tinha aprendido um pouco de inglês, e um amigo deu-me uma revista ocidental, acho que era a Newsweek, e num artigo havia duas pequenas fotos, Mao e a senhora Mao, e a legenda dizia: "Senhora Mao é os olhos, ouvidos e boca de Mao". E, de repente, percebi, claro que era responsabilidade de Mao. Acho que é esse o poder da lavagem cerebral.
É por isso que a nossa biografia de Mao foi descrita pela revista Time como "uma pequena bomba atómica em forma de livro".
Quando o livro foi publicado em 2005, e eu o traduzi para chinês, em 2006, quando chegaram exemplares à China, causou uma enorme repercussão. Claro, o regime reprimiu imediatamente e tentou proibir-me de entrar na China. O governo britânico ajudou-me e fez um acordo com Pequim para me permitir ir lá durante algumas semanas por ano, para visitar a minha mãe.
Nessa altura, a China precisava do Ocidente, porque a sua economia ainda não tinha disparado completamente, e o país não era tão rico e poderoso como é hoje.
Penso que, de facto, por natureza, não deixa de ser comunista, mas com muitas características capitalistas. Acho que hoje o país regrediu mesmo.
Na década de 1990, consegui voltar à China, mesmo com a proibição dos "Cisnes Selvagens", eu consegui ver a minha mãe, consegui viajar, consegui pesquisar sobre Mao. Consegui escrever a biografia de Mao, em parte graças à pesquisa que pude fazer na década de 1990.
Mesmo depois da publicação da nossa biografia de Mao e de eu estar sob vigilância estatal, ainda consegui pesquisar sobre a Imperatriz Viúva. Ainda havia um certo ambiente relaxado, apesar da minha experiência com a segurança do Estado chinês.
Mas hoje é impossível! É impossível haver qualquer edição pirata dos meus livros, como existiu antes. É impossível qualquer liberdade, em parte porque o Sr. Xi, o actual líder, é da linha mais dura. Está absolutamente determinado a impedir tudo o que possa pôr em perigo o domínio do Partido Comunista e a reputação de Mao.
Em parte, isto deve-se ao facto de termos toda esta tecnologia que, de certa forma, o regime consegue controlar.
Embora os seus livros sejam proibidos na China, existem chineses livres como a Yung Chang que leem os seus livros? O que lhe dizem?
Dizem-me coisas maravilhosas! Quando a biografia de Mao foi publicada, quando fui primeiro banida, mas depois consegui ir à China, eu queria pesquisar sobre a Imperatriz Viúva. Então, os meus amigos ajudaram-me a entrar em contacto com os estudiosos da Dinastia Qing.
A Dinastia Qing é a dinastia da Imperatriz Viúva. Eu estava preocupada, porque acho que toda a gente sabia que eu tinha escrito a biografia de Mao. A Academia Chinesa de Ciências Sociais tinha feito 200 exemplares para distribuir a todos os seus académicos. E receei que não quisessem falar comigo, mas, pelo contrário, ajudaram a escrever a biografia.
Não sei, conheço poucas pessoas que tenham condições de o fazer, mas quando eu escrevia, a minha mãe aconselhou-me a não me preocupar com nada. "Não penses em nada, escreve apenas o que queres escrever", dizia-me.
Dizia-me também para, antes de mais, não me preocupar com ela, porque vivia na China. Claro que "Cisnes Selvagens" não seguiam a linha do partido e eu preocupava-me com a minha mãe. Mas a minha mãe disse: "Não te preocupes comigo. A China de hoje não é como no tempo de Mao e eu tenho formas de lidar com isso. Não te preocupes".
Ela dizia-me para eu não me preocupar como os leitores iriam ver o meu livro, se lhes vão ou não dar atenção. Por último, a minha mãe dizia-me para não me preocupar com o facto de eu e a minha mãe pensarmos de forma diferente.
Ela não concordaria com algumas coisas no meu livro. O melhor é que ela não o leia. Por isso, a minha mãe disse: "Não me envies o manuscrito da tradução chinesa".
Quando o livro foi publicado, ofereci um exemplar à minha mãe, mas nunca soube se o chegou a ler. Nunca falámos sobre isso! Tendo sido ela a dar-me toda a matéria para o livro, ela deu-me total liberdade para escrever o que quisesse.
Acho que tenho uma mãe extraordinária! Quer dizer, obviamente que o meu conselho para os jovens escritores é que escrevam livremente, sem deixar que os preconceitos atrapalhem. Mas, como disse, nem toda a gente tem o apoio que eu tive.
A história moderna chinesa está repleta de tesouros. Não é como outros países. A história moderna da China, a linha do partido é, do princípio ao fim, uma grande, grande mentira.
Devo dizer, claro, que há ali muitas coisas verdadeiras, mas também há muita coisa a ser descoberta.
Eu diria que, se as pessoas querem realmente divertir-se, devem estudar a história moderna da China.
Mais uma vez, quando estava a escrever a biografia de Mao na década de 1990, o anterior líder reformista, Hu Yaobang, e os líderes da década de 1980 tinham permitido o acesso a muitos materiais de arquivo. Tinham mesmo dado ordens a todos os museus e arquivos da China que compilassem e publicassem todos os documentos de arquivo.
Portanto, havia esta enorme quantidade de documentos na China que poderia usar como fontes e infelizmente, poucas pessoas os utilizaram. Acho que hoje em dia isso é impensável. Foram todos retirados e destruídos.
Quando escrevi o livro com o meu marido, dividimos a pesquisa sobre Mao por línguas, e como sou chinesa, trabalhei com as fontes em chinesas e o Jon outras línguas, nomeadamente russo. Passou 10 anos na Rússia a trabalhar nos arquivos, analisando documentos e entrevistando pessoas.
Entrevistámos centenas de pessoas, algumas contemporâneas de Mao que ainda estavam vivos. Conseguimos aproveitar aquela janela de oportunidade quando na década de 1990, Boris Yeltsin abriu os arquivos russos e na China, o acesso era relativamente livre.
Agora, acho que as pessoas vão enfrentar mais problemas, mas também é gratificante superá-los.
Mao e Estaline tiveram muitos problemas entre si, mas pertenciam ao mesmo campo comunista.
Hoje, a China e a Rússia têm muitos problemas históricos e modernos, mas também são camaradas. Estão juntos, a lidar com o Ocidente. Essa é a prioridade deles.
Não sei se foi noticiado no Ocidente, a China, por exemplo, teve o Fórum de Xangai, liderado pelo Sr. Xi. Na última reunião, estiveram presentes Putin, Kim da Coreia do Norte, os líderes do Irão, todas estas potências chinesas. Estão nesta rivalidade, liderado pela China, contra o Ocidente.
Comecei por lhe perguntar sobre a sua memória mais antiga, posso perguntar-lhe do que sente mais falta da China, além da sua família, claro?
Comecei por falar da seda de Chengdu, que é, na minha opinião, a seda mais macia do mundo. E o segredo está no fio que sai do casulo. Tem de ser um só fio. O casulo inteiro forma um único fio. É do que sinto saudades. Acabou
Está a desaparecer. Tenho saudades de ir lá comprar lenços de seda e outras coisas para oferecer aos meus amigos. E, além disso, Chengdu é agora um lugar lindo.
Recebo fotos da minha irmã. É como uma cidade-jardim. Está absolutamente fantástico agora com as flores a desabrocharem, os pêssegos em flor rosa contrastando com uma profusão de flores de colza, douradas e amarelas.
Quando a minha irmã me envia aquelas fotografias, sinto muita vontade de ir ver aquilo, porque quando fui exilada para as aldeias para trabalhar como camponesa - essa é a minha memória mais marcante - aquelas plantações de colza eram enormes.
Mas divirto-me muito em Londres. Fui uma das primeiras a ir para a Grã-Bretanha. Quando cheguei, aos 26 anos, não fazia ideia de como era o Ocidente, como é que as pessoas viviam, como é que agiam
Tudo era estranho. Era como aterrar em Marte! Antes disso, a única imagem que tinha do Ocidente, era a imagem da minha infância de quando li "A Pequena Vendedora de Fósforos", de Hans Christian Andersen sobre uma menina que vendia fósforos e que morre de fome e frio na noite de passagem de ano.
Era-nos permitido ler aquilo, porque supostamente mostrava como as crianças viviam no mundo capitalista. Também liamos excertos do "Oliver Twist", de Charles Dickens, que foi traduzido para chinês como "O Órfão na Capital da Névoa".
Lembro-me daqueles grandes e tristes olhos do Oliver Twist que supostamente representavam a fome que as crianças ocidentais sentiam.
Antes de sair da China, vi um filme ocidental, o "Música no Coração". Lembro-me de ter pedalado durante horas numa bicicleta que tinha pedido emprestada até um lugar incrivelmente privilegiado, com um bilhete valiosíssimo para ver o filme.
Por isso, claro, ir para Londres foi como aterrar em Marte. Também porque tínhamos ordens estritas para não sairmos sozinhos. Tínhamos de nos deslocar em grupo, e todos usávamos o fato à Mao. Uma espécie de uniforme azul. Éramos uma espécie de visão nas ruas de Londres.
E o inglês que aprendi foi aprendido sob o regime de Mao. Portanto, os nossos professores nunca tinham visto estrangeiros. Os nossos manuais escolares eram traduções diretas de textos chineses.
A saudação da aula era a tradução direta das saudações chinesas. Cumprimentávamo-nos dizendo: "Para onde vais? Já comeste?". Eram estas as saudações que eu usava para cumprimentar as pessoas em Londres!
Os únicos estrangeiros com quem tinha conversado eram alguns marinheiros no porto do sul da China, para onde fomos enviados para praticar o nosso inglês. E eu e os meus colegas estávamos muito ansiosos por falar com eles.
Sentavamo-nos naquele clube internacional de velejadores, aguardando ansiosamente a chegada deles e abordámo-los assim que chegavam à costa.
Assim, podem imaginar o quão fantástica Londres foi para mim! Fui a tantos sítios sozinha, secretamente.
Um deles foi o pub inglês, porque nos deram ordens específicas para não entrarmos num pub, uma vez que a tradução chinesa para pub sugere um lugar indecente, com mulheres nuas a rebolar! Diziam-nos que nos iamos meter em sarilhos se fossemos a um pub.
E eu, claro, estava cheia de curiosidade. E um dia, saí sorrateiramente da faculdade. Atravessei a rua a correr. Entrei num pub e não vi nada daquilo! Só vi um senhor idoso sentado a beber cerveja. Fiquei bastante desiludida.
Diverti-me imenso, o que também foi um dos motivos pelos quais não queria escrever e pensar no passado até o dia em que a minha mãe chegou.