É possível relatar a Guerra Civil espanhola com realismo mágico? David Uclés demorou 15 anos, mas conseguiu

É possível relatar a Guerra Civil espanhola com realismo mágico? David Uclés demorou 15 anos, mas conseguiu

  • 17/04/2026 08:33
  • Redação

Diz que quer vir viver para Lisboa para poder escrever. David Uclés é o escritor sensação do momento em Espanha, depois de ter escrito “A Península das Casas Vazias” (Ed. D. Quixote), um romance de 900 páginas que vendeu 300 mil exemplares e venceu os principais prémios no país vizinho.

Esteve em Lisboa a lançar a tradução do seu livro, assinada por Teixeira de Aguiar. Aproveitou o momento para tatuar no braço a assinatura de José Saramago e comprar uma guitarra que vai juntar à guitarra portuguesa que tem e com a qual canta fados de Amália Rodrigues.

David Uclés tem 36 anos e levou 15 anos a escrever “A Península das Casas Vazias”, um romance sobre a Guerra Civil espanhola. Diz que é um “livro único”, porque “pela primeira vez” é um romance que “conta toda a guerra e em toda a Península” Ibérica.

“A guerra não terminou em 1939. A guerra terminou em 1975, quando Franco morreu. Naquela altura, estava tudo muito instável e os governos de esquerda e direita, e os partidos decidiram fazer uma lei do silêncio, ou seja, não curar a ferida, mas tapá-la e enterrá-la”, afirma David Uclés.

Questionado se o livro que está a lançar era necessário para lidar com o passado, sobretudo para uma geração como a sua que não viveu a guerra civil, o autor refere que a ferida do conflito “não está curada”.

“O que é que se passou? Com o tempo ela foi destapada e desenterrada. Quem desenterrou a ferida? Creio que foi a extrema-direita, há alguns anos, ao recuperar mensagens fascistas, de ideologia muito conservadora, muito fratricida e belicosa. Portanto, é uma ferida aberta, porque não se fechou quando devíamos tê-la fechado. Agora há muitos que querem recuperá-la”, critica.

Recentemente, em Espanha David Uclés envolveu-se numa polémica pública com o escritor Arturo Pérez-Reverte – autor que tem também um livro sobre a Guerra Civil espanhola. O escritor convidou Uclés a participar num encontro em torno do tema. O autor de “A Península das Casas Vazias” aceitou, mas veio depois a rejeitar a participação ao perceber que entre os convidados estavam antigos líderes políticos, como José Maria Aznar.

“A Península das Casas Vazias” é um livro com uma trama com 80 personagens e que levou muitos anos a tecer. “Comecei a escrevê-lo aos 19 anos”, diz David Uclés.

“O meu avô ainda estava vivo e contava-me as histórias da minha pequena aldeia no maior olival do mundo que fica em Jaén, numa serra. Contava-me histórias dos meus bisavós, tetravós, e essas histórias passavam-se durante a Guerra Civil”, recorda o escritor.

O escritor esbarrou com as editoras. “Outro livro sobre a guerra civil? Com realismo mágico?”, questionaram-no. Daí ter levado 15 anos a publicar, mas isso considera que beneficiou a história.

“Estou contente por ter demorado 15 anos, porque isso permitiu-me fortalecer o texto. O realismo mágico é mais puro. Precisei escrever o livro com tinta e com tempo”, afirma.

A história nasce assim a partir da vida da sua família. “Decidi não só contar a história da minha família, mas espalhar os membros da minha família por toda a península e contar toda a guerra civil”, explica.

No livro essa aldeia chama-se Jandula. David Uclés diz a rir que lhe faz lembrar “Grândola” e canta um pouco da canção “Grândola Vila Morena...” “Nasci numa aldeia muito pequena, com três mil habitantes, num vale muito isolado, dedicado exclusivamente à produção de oliveira. Até aos 18 anos, conheci bem como é o campo, por isso, no primeiro quarto do livro, não há guerra, só há apenas costumes do campo e superstições mágicas”, refere.

O realismo mágico de que fala David Uclés é diferente do realismo mágico dos escritores da América Latina como Garcia Marques. “Eu nasci no mesmo olival que Garcia Lorca, muito próximo de Granada. A minha terra, a Andaluzia tem um folclore muito mágico e o realismo mágico está em qualquer aldeia. Mas também tenho referências literárias que me ajudaram, como José Saramago, Gunter Grass, Salman Rushdie ou Olga Tokarczuk.”

“São escritores que escrevem sobre feridas recentes, mas com uma desconstrução um pouco mágica, com cor e expressionismo e essas são as minhas maiores referências”, confessa David Uclés.

  • Fonte: Rádio Renascença
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