Fundo de Compensação do Trabalho: uma janela de oportunidade para investir em formação antes que seja tarde

Fundo de Compensação do Trabalho: uma janela de oportunidade para investir em formação antes que seja tarde

  • 20/04/2026 01:00
  • Redação

O Fundo de Compensação do Trabalho (FCT) nasceu com um objetivo claro: garantir o pagamento de parte das compensações devidas aos trabalhadores em caso de cessação do contrato. Durante muito tempo, foi encarado como uma obrigação legal, um custo inevitável, pouco integrado na estratégia das organizações e raramente gerido de forma ativa.

Esse paradigma mudou, em 2024, com as alterações legislativas, em que o FCT deixou de ser um instrumento exclusivamente associado ao momento da saída e passou a ser utilizado pelas empresas como ferramenta de investimento. A possibilidade de mobilizar este saldo para financiar a formação dos colaboradores, dar resposta à habitação ou à criação de creches, introduz uma nova lógica: a de antecipar valor, em vez de apenas responder a um risco futuro.

Até janeiro de 2026, as empresas tinham levantado mais de 120 milhões de euros do FCT, todavia, ainda constavam mais de 500 milhões de euros no fundo. Isto revela, por um lado, que existe liquidez acumulada, que está parada e, por outro, que um conjunto crescente de organizações já está a aproveitar a oportunidade para aplicar na gestão de pessoas.

Atualmente, apesar da informação disponível, muitas empresas continuam sem saber exatamente o saldo que têm, como o podem utilizar ou de que forma integrar este mecanismo na sua estratégia de desenvolvimento de competências e talento. O tempo é, no entanto, um fator crítico, dado que o atual enquadramento apenas permite a utilização destes fundos até dezembro de 2026 e, depois disso, os montantes não utilizados deixam de poder ser aplicados nas mesmas condições, o que nos coloca perante uma janela de oportunidade com prazo definido.

Neste contexto, a utilização do FCT para financiar formação continua a ganhar particular relevância. Não apenas porque responde a uma necessidade estrutural das empresas, mas porque o faz sem exigir um esforço adicional de tesouraria. Trata-se, na prática, de

transformar um valor já provisionado num investimento com impacto direto na organização.

Num momento em que as empresas enfrentam desafios crescentes associados à transformação digital, à integração da inteligência artificial e à necessidade de desenvolver novas competências de gestão e liderança, esta oportunidade não deve ser desperdiçada. O FCT pode ajudar a responder à escassez de talento qualificado, acelerar transições de carreira internas, e preparar líderes para temas que já não são opcionais.

Formação contínua certificada, avançada e executiva, ações de upskilling e reskilling, pós-graduações e mestrados deixam, assim, de ser apenas uma obrigação legal ou um benefício adicional e passam a assumir um papel central na estratégia empresarial. É neste ponto que o FCT pode fazer a diferença, porque permite alinhar investimento com necessidades reais, acelerar processos de qualificação e, sobretudo, reduzir barreiras financeiras à formação e ao desenvolvimento dos colaboradores.

É fundamental olhar para o FCT como um instrumento de gestão de pessoas e não apenas como um fundo regulatório. A CATÓLICA-LISBON, tal como outras escolas de negócios, tem vindo a apoiar as empresas nesta oportunidade de mobilização do saldo do FCT, garantindo uma resposta concreta de formação certificada, com foco em impacto, conformidade e execução rigorosa. Isso implica identificar o saldo disponível, definir prioridades claras de desenvolvimento dos colaboradores e, sobretudo, tomar decisões em tempo útil, porque, como em muitas outras dimensões da gestão, o maior risco não está na escolha errada, mas na ausência de escolha.

As empresas que encaram a formação como um investimento estratégico, demonstram uma cultura mais ágil e dinâmica e tendem a reagir mais rapidamente a este tipo de oportunidade; as que a veem como um custo ou uma obrigação tendem a adiar a tomada de decisão, a analisar em excesso e, muitas vezes, a perder o momento. Estas circunstâncias evidenciam, muitas vezes, as diferenças entre culturas organizacionais.

Se há uma leitura estratégica a fazer, é esta: dezembro de 2026 não é apenas uma data no calendário, é um prazo de gestão; usar o FCT como ferramenta de investimento é uma oportunidade concreta; deixar este saldo expirar será desperdiçar uma vantagem que, honestamente, não aparece duas vezes.

Acredito que esta decisão terá impacto direto na capacidade das empresas de se adaptarem, inovarem e crescerem, porque, no final, não se trata apenas de utilizar um fundo, trata-se de decidir se queremos investir, de forma consciente, nas competências que vão sustentar o futuro das nossas organizações. É transformar um fundo, que nasceu para gerir risco, num instrumento de competitividade.

Tânia Sousa, Business Development Manager for Executive Education na Católica Lisbon School of Business & Economics.

  • Fonte: Rádio Renascença
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