Francisco: um legado que não se recorda, vive-se
- 21/04/2026 02:00
- Redação
21 abr, 2026 - 07:00 • *Sílvia Monteiro, cardiologista, diretora do Serviço de Humanização da ULS Coimbra
Um ano após a morte de Francisco, dou graças por ter vivido no tempo de um Homem que não se limitou a anunciar o Evangelho, mas que o tornou vida – com uma autenticidade desarmante, rara e profundamente transformadora.
Francisco, o Papa da Misericórdia e da Esperança, dois pilares do seu pontificado que continuam a iluminar o nosso caminho. A Misericórdia como possibilidade de reconciliar o passado; a Esperança como convite a olhar o futuro com confiança, na certeza de um Deus que nos ama incondicionalmente, tal como somos, apesar dos erros, diferenças e fragilidades. Ama-nos a todos. Todos. Todos!
Desde o primeiro momento, fui tocada pela sua simplicidade, humildade e alegria. Francisco aproximava-se sem barreiras, com uma atitude constante de acolhimento, proximidade e compaixão.
Chamou-lhe a “revolução da ternura”. E essa revolução transformou a minha vida – pessoal e profissional. Num mundo onde se privilegia a eficiência, a rapidez, o automatismo e o algoritmo, Francisco devolveu-me ao essencial: o amor que se faz próximo e concreto.
Com Francisco, aprendi a valorizar a cultura do encontro e da proximidade, feita de pequenos gestos dirigidos a pessoas concretas. Aprendi a olhar de forma atenta e profunda – um olhar que permanece e gera encontro. Aprendi a escutar com o “ouvido do coração”, a respeitar o silêncio e a acolher sem julgar. Aprendi o poder transformador do toque: abraçar, segurar uma mão, aproximar sem medo. Aprendi a falar com o coração, o reflexo íntimo daquilo que somos e trazemos cá dentro.
Francisco também me ensinou a deslocar o centro, a ir ao encontro das periferias – não apenas as que estão longe, mas também aquelas que habitam o nosso quotidiano: a solidão, o medo, a doença, a exclusão. O seu olhar sobre as periferias da humanidade interpelou-me a amar rostos concretos, a cuidar a fragilidade e a promover a dignidade da vida humana.
Guardarei para sempre a imagem dos sapatos gastos do Papa Francisco no leito do seu caixão. Um Papa peregrino, que caminhou com o seu povo, que gastou a sola dos sapatos e se entregou por inteiro até ao fim, ao serviço da Igreja e do mundo – sempre focado no essencial: o Evangelho e a sua relação com a vida concreta.
Um Papa que percorreu hospitais, campos de refugiados, prisões e tantas outras periferias geográficas e existenciais. Que transportou as dores de tantos e deu voz aos mais pobres e descartados deste mundo.
Num tempo marcado pela indiferença, pelo descarte e pela fragmentação, o seu pontificado foi um apelo constante à reconstrução da humanidade a partir do coração. “Amou-nos” — escreveu na sua última encíclica, que nos fala sobre a centralidade da força do amor de Deus pela humanidade e por cada um de nós, e nos convoca a colaborar na promoção do seu amor.
Na verdade, quando nos reconhecemos como filhos de Deus, amados por pura graça, esse amor transborda e leva-nos a assumir a vida como dom e a entregá-la ao serviço da humanidade.
O seu sonho de uma Igreja sinodal tornou-se também o meu. Uma Igreja menos centrada em si mesma e mais disponível para acolher, acompanhar, integrar e discernir. Uma Igreja que não teme as “zonas cinzentas” da humanidade, porque escolhe a misericórdia como fundamento da sua relação com a realidade da vida.
O Papa Francisco deu passos importantes na reflexão e valorização do lugar da mulher na Igreja. Enquanto mulher, sinto que as suas palavras abriram espaço – não apenas institucional, mas também interior – para assumir o lugar que me foi confiado pelo Batismo.
Com Francisco, encontrei a coragem para colocar ao serviço de Deus os dons que recebi no feminino, acreditar que posso refletir, partilhar e colaborar na construção de uma nova forma de ser Igreja e de um mundo mais equilibrado, sustentável e humano.
Mais do que memória, este primeiro aniversário da sua morte é um apelo renovado à ação:
•Agir. Sujar as mãos. Sair de nós mesmos ao encontro do próximo, particularmente dos mais frágeis.
•Deixar-nos ferir pela dor do outro, tornando-nos participantes na vida concreta das pessoas.
•Habitar e abraçar as periferias da humanidade: pobres, doentes, presos, perseguidos, vítimas de abusos, marginalizados, migrantes…
•Falar com o coração para gerar uma cultura de paz e tornar possível o milagre do encontro.
Este é o legado exigente do Papa Francisco – um legado que nos interpela, nos desinstala e nos impele a continuar.
Sílvia Monteiro, cardiologista, diretora do Serviço de Humanização da ULS Coimbra