Xenofobia e racismo em Braga? “Não vivemos isso no dia a dia, mas estão lá”
- 21/04/2026 01:30
- Redação
No gabinete de estética de Luziete, numa das ruas mais brasileiras de Braga, em São Vitor, há tantas clientes brasileiras como portuguesas. Renata é cliente e amiga. Veio pedir emprestado um equipamento de luz para fazer um direto para as redes sociais.
“ Vou apresentar o meu livro”, explica a psicóloga que chegou a Portugal há oito meses.
“Eles adaptam-se. É um pouco mais fácil e não percebem tanto as coisas como a gente percebe, mas, de qualquer forma, é difícil”, diz a mãe que deteta discriminação, sobretudo, por parte da “professora e dos pais dos amiguinhos”.
A psicóloga não se arrisca a falar em arrependimento, mas confessa que tem vontade de regressar ao Brasil porque “profissionalmente, aqui não é bom”.
“Na minha área, que é a psicologia, é como se estivéssemos uns 10 anos atrasados em relação ao Brasil. E a remuneração também não é boa”, aponta.
À questão da xenofobia junta-se, em muitos casos, a do racismo. É o caso de Munique. Sentiu-o quando, chegada a Portugal, ingressou na escola. O "problema" não era ser brasileira: "Era a única da escola que tinha a pele negra.”
Luziete, a proprietária do salão de estética, garante que nunca teve problemas por ser brasileira, mas não é estaa regra: “Muitos clientes falam que sofrem discriminações por conta da cor."
Viviane de Oliveira é autora de uma investigação sobre a imagem da mulher brasileira em Braga e o resultado não é abonatório. “Há muito mais discriminação por ser mulher e brasileira”, diz
Viviana chegou a um perfil da migrante brasileira em Braga: “São mulheres entre 35 e 50 anos, que tem um nível superior completo, são fluentes em duas línguas, são mães, são casadas e, mesmo, com todo esse aparato de qualidades, é mal vista. Ela é colocada de lado, colocada em subempregos, muitas das vezes, justamente só pelo fato de ser brasileira."
No entanto, Viviane diz que tanto a xenofobia como o racismo tem características diferentes mediante as regiões. Trata-se de “xenofobia e racismo regionalizados” que, enquanto negra e brasileira, também, conhece.
“Eu fui fazer uma entrevista de emprego para ser gestora de uma de uma rede de lojas e lembro-me perfeitamente que a senhora que estava na receção se virou para mim e falou assim: 'Olha, o pessoal da limpeza ainda não chegou, a senhora veio limpar alguma sala?' Respondi que não”, conta.
Algumas das queixas chegam à associação UAI - União Apoio e Integração da Comunidade Brasileira em Braga. Alexandra Gomito, dirigente associativa, fala de manifestações discretas de xenofobia que ganham outro peso no local de trabalho e no mundo online.
Estima-se que em Braga residam cerca de 20 mil brasileiros naquela que é uma das maiores comunidades no nosso país.