Francisco: o incómodo necessário
- 21/04/2026 02:00
- Redação
21 abr, 2026 - 07:00 • *Pe. Paulo Terroso, diretor de comunicação na Arquidiocese de Braga
A morte não apaga quem marcou a história. Às vezes torna-o ainda mais presente. As palavras ganham outra luz, os gestos tornam-se mais claros, a memória deixa de ser passado para se tornar critério.
Quem, hoje, não recorda a voz profética do Papa Francisco quando denunciou uma “terceira guerra mundial aos pedaços”? O que, na altura, em 2014, soava a exagero, revela-se agora diagnóstico. Francisco via mais longe.
Há figuras que passam pela história. Outras desinstalam-na e abrem caminhos. Francisco pertence claramente à segunda categoria.
Não foi um pontificado cómodo. Nem para dentro da Igreja, nem para fora. E talvez por isso tenha sido tão necessário. Francisco não quis ser um Papa de equilíbrio diplomático ou de manutenção tranquila. Preferiu o risco do Evangelho: a palavra direta, os gestos que incomodam, uma Igreja em saída. «Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo…» (Evangelii Gaudium, 49).
O que mais marcou foi o seu olhar. Um olhar que não partia da norma, mas da pessoa. Um olhar pastoral antes de ser disciplinar. Num tempo de classificações apressadas, insistiu na escuta. Num mundo de trincheiras, falou de encontro. E isso nem sempre foi bem recebido.
Francisco trouxe para o centro aquilo que tantas vezes estava nas margens: os pobres, os migrantes, os descartados. Não como tema social, mas como lugar teológico. Não como agenda, mas como critério. Disse, sem rodeios, que uma Igreja que não chega às periferias trai o Evangelho que anuncia. E isso mexe, porque obriga a rever prioridades, estilos de vida e até a própria ideia de sucesso pastoral.
Mas talvez o mais desconcertante tenha sido a sua liberdade. Francisco não se deixou capturar por expectativas. Nem pelas de quem o queria revolucionário, nem pelas de quem o queria guardião rígido. Caminhou num território mais exigente: o do discernimento. E isso não cabe em slogans. Por isso gerou tensões. Porque pensar cansa mais do que repetir.
O seu maior legado não é uma reforma estrutural acabada. Ele sabia que a Igreja não se transforma por decreto. O seu legado é uma mudança de eixo: do controlo para o cuidado, da autorreferencialidade para a missão, da segurança das respostas para a coragem das perguntas. E, para isso, deixou-nos três textos decisivos: Evangelii Gaudium, Episcopalis Communio e Praedicate Evangelium.
Francisco devolveu à Igreja algo essencial: a consciência de que evangelizar não é ocupar espaço, mas abrir caminhos. E que a verdade cristã não se impõe nem se conquista por proselitismo: propõe-se, testemunha-se, sofre-se até.
Por isso, ao recordar a sua morte, não estamos apenas a olhar para trás. Estamos a ser confrontados. Porque o incómodo que ele trouxe não desaparece com a sua ausência. Permanece como critério.
A pergunta é simples e exigente: queremos uma Igreja mais tranquila ou mais fiel ao Evangelho?