Francisco e o amor para com os pobres
- 21/04/2026 04:15
- Redação
No primeiro aniversário da morte do Papa Francisco, faz-nos bem parar um pouco e pensar nas marcas que ele nos deixou e no seu legado à Igreja que ele serviu nas diversas fases da sua vida, sobretudo enquanto Papa, entre os anos 2013-2025. Tenho muito presente o seu amor para com os pobres, do princípio até ao fim do seu pontificado.
É conhecida a interpelação do Cardeal Cláudio Hummes – «Não te esqueças dos pobres!» – aquando da eleição do Cardeal Jorge Mário Bergoglio. Foi o próprio Francisco que contou, explicando a escolha do seu nome enquanto Papa: depois das palavras do Cardeal meu amigo, logo pensei em Francisco de Assis. Em seguida pensei nas guerras. E Francisco é o homem da paz. E assim surgiu o nome no meu coração: Francisco de Assis (cf. Papa Francisco, Discurso no encontro com os representantes dos meios de comunicação social, 16 de março de 2013).
Acerca de São Francisco, continua o Papa: «Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e preserva a criação; neste tempo, também a nossa relação com a criação não é muito boa, pois não? [Francisco] é o homem que nos dá este espírito de paz, o homem pobre... Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!» (Papa Francisco, Discurso no encontro com os representantes dos meios de comunicação social).
Estas palavras são síntese da visão franciscana do Papa Francisco, que muito nos ajudam a entender o seu pontificado. Compreendemos melhor a sua relação com Francisco de Assis no seu precioso testemunho, escrito nos últimos meses da sua vida, como uma espécie de «testamento espiritual» (publicado no livro: Papa Francisco, O meu São Francisco: colóquio com o cardeal Marcello Semeraro, Paulinas Editora, Prior Velho, 2026).
Este colóquio abre exatamente com uma longa reflexão acerca dos pobres. Na pergunta, o Cardeal Semeraro, lembra algumas das principais palavras da homilia do Papa Francisco aquando da sua primeira viagem a Assis, no dia 4 de outubro de 2013: «Em toda a vida de Francisco, o amor pelos pobres e a imitação de Cristo pobre são dois elementos indivisivelmente unidos, as duas faces de uma mesma medalha.»
Estas palavras conduzem-nos ao essencial do amor de Francisco para com os pobres: o amor de Francisco de Assis e o amor do Papa Francisco. Na resposta, o Papa clarifica ainda mais o seu pensamento: «Penso que o encontro com os pobres é fundamental para cada cristão. É como encontrar um outro Evangelho, um Evangelho “de carne e osso”, diferente do que está escrito na página que lemos na Bíblia ou que escutamos na liturgia, mas igualmente fundamental. É outra página importante, um Evangelho vivo.» (Papa Francisco, O meu São Francisco, p. 16).
Este legado do Papa Francisco é assumido no pontificado atual. O primeiro documento do Papa Leão XIV, a Exortação apostólica Dilexi te, assinada no dia 4 de outubro de 2025, dia de São Francisco de Assis, é sobre o amor para com os pobres. Também aqui se diz claramente: «Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação: o contacto com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história. Nos pobres, Ele ainda tem algo a dizer-nos.» (Dilexi te 5).
Referindo-se a São Francisco, diz o Papa Leão XIV: «Entre os pobres, via irmãos e imagens vivas do Senhor. A sua missão era estar com eles, por uma solidariedade que superava as distâncias, por um amor compassivo. A sua pobreza era relacional: levava-o a fazer-se próximo, igual, na verdade, menor. A sua santidade brotava da convicção de que só se recebe verdadeiramente a Cristo na entrega generosa de si mesmo aos irmãos.» (Dilexi te 64).
Aqueles que não se esquecem dos pobres e os colocam no centro da sua vida, como Francisco de Assis e o Papa Francisco, vivem o essencial do Evangelho, a virtude da pobreza, o despojamento. E sabem que é possível amar sem possuir. Sim, é nesta possibilidade que o ser humano tem de amar sem possuir que está o segredo da vida de pobreza evangélica (que não se pode confundir com miséria) do Santo de Assis que inspirou o Papa Francisco.