Fraternidade: o legado do Papa Francisco
- 21/04/2026 08:31
- Redação
Vivemos intensamente os sinais e impactos da terceira guerra mundial aos pedaços.
Conflitos intensificam-se, armas elevam o tom, manipula-se factos, diariamente povos inocentes são atingidos e impelidos a salvar a sua vida. Milhares de pessoas são forçadas a deslocarem-se, a pedir refúgio, a requerer proteção internacional, por outro lado há regiões do globo em que a vida se torna inviável, em que as políticas não promovem o desenvolvimento, não surtem o propósito de erradicar a pobreza, em que os sonhos de prosperidade, desenvolvimento pessoal e familiar impulsionam à decisão de emigrar.
As pessoas tornam-se migrantes e/ou refugiadas por força das circunstâncias. A mobilidade humana, é nesta perspetiva uma estratégia de sobrevivência para uns e para outros uma estratégia de desenvolvimento, é uma via para sair da pobreza, fugir da miséria e da morte, para outros um meio de enriquecer e uma fonte de exploração. A mobilidade humana comporta riscos e oportunidades, que somos chamados a enfrentar.
Migrantes e Refugiados eram referidos com muita frequência, pelo muito querido Papa Francisco. Apraz-me recordar o seu legado, os seus escritos, os seus gestos, o seu carácter, a sua voz, o seu bom humor. Constato que este, sucessor de Pedro (2013-2025), quis devolver à Igreja, a alegria que ninguém poderá tirar (cf. Jo 16,22).A sua primeira exortação foi um programa, em primeiro lugar para cada um de nós, para reavivar a fé e aprofundar a identidade cristã.
As exortações apostólicas, e carta encíclicas que se sucederam trouxeram a voz da tradição, do magistério na voz dos seus predecessores, da diversidade das conferências episcopais de várias regiões do globo, a escuta da ciência e tecnologia, das periferias, das gerações. Em chave de diálogo deixou recados e apelos às autoridades e instituições.
A Alegria do Evangelho (24.11.2013) foi a herança que nos quis deixar, uma proposta para cuidar do mundo em Louvado Sejas (24.05.2015), dirigiu-se às famílias através da Alegria do Amor (19.03.2016); assinalou a beleza da santidade, vivida com simplicidade e fidelidade ao Evangelho em cada dia Alegrai-vos e exultai (19.03.2018), dirigiu-se aos jovens mostrando-lhes que apesar das sombras e das dores, angústias quotidianas Cristo Vive (25.03.2019) como constatamos na JMJ 2023 - em Lisboa; partilhou connosco o seu Sonho a partir da Querida Amazônia (02.02.2020);exemplificou que é possível convivermos e construir uma amizade social em Todos irmãos (3.10.2020); e por fim confiou-nos que o Amor é o segredo dos santos para transformar o mundo e a nós próprios, na carta Encíclica Amou-nos (24.10.2024, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus).
Convocou diversas vezes a Igreja Católica na sua diversidade de serviços e carismas para sínodos temáticos, lançando por fim este processo de sinodalidade que nos permitirá pelo método de conversação no Espírito encontrar comunitariamente a resposta para as questões que nos inquietam. É imperativo reaprender a escutar e a dialogar como irmãos e irmãs, na fé e em humanidade enfrentar as tensões e os conflitos, renunciar à polarização e instrumentalização da religião. Apesar das limitações, a universalidade da Igreja é um dom querido por Deus, e pelo Espírito compete-nos promover a unidade na diversidade, um dos lemas que inspira a União Europeia.
Ao reafirmar a dignidade de cada ser humano, ao afirmar que tudo está interligado, deixou-nos as bases que nos permitirão, crescer em humanidade, como sociedade e como Igreja, capaz de acolher, proteger, promover e integrar sobretudo os mais frágeis.
Exortou-nos a conviver uns com os outros, com gentileza, deixando a marca da misericórdia e odor de santidade; convidou-nos a transcender as nossas limitações culturais e religiosas, a valorizar o que nos enriquece e aproxima, falou inúmeras vezes da necessidade de construir pontes e sermos artífices da paz.
Sem deixar ninguém para trás, colocou Jesus Cristo no Centro através da Sagrada Escritura, dos Santos, dos mais vulneráveis. Deixou-nos catequeses para curar o mundo e desde 2019 uma pedagogia para nos aproximarmos com verdade, compaixão e justiça daqueles que nesta casa comum por força das circunstâncias se deslocam, movem, pedem refúgio.
Talvez tenha passado despercebido, mas a partir da experiência global e dolorosa, que foi a COVID 19, o Papa Francisco ousou lançar os pilares de um mundo novo, assentes na ecologia, na economia, na saúde, na paz sem deixar ninguém para trás. Insiste que é urgente edificar um mundo com migrantes e refugiados reconhecendo a sua voz e o seu protagonismo.
Os países precisam de migrantes para o seu desenvolvimento. E nesse sentido é urgente repensar a economia, a alargar a conversão ecológica, promover a saúde da nossa casa comum, de cada povo e das pessoas. Promover a justiça e a paz como caminho para o desenvolvimento humano Integral.
Este foi o Papa que testemunhou o Evangelho, uniu com muita simplicidade e espontaneidade, as palavras ao gesto, iniciou processos e redefiniu estruturas, convidou-nos a sonhar e a construir um futuro diferente. Apelou à conversão pessoal e a colaborarmos juntos para enfrentar as adversidades, como peregrinos que não tendo nesta terra morada permanente, pela fé, vão concretizando a Esperança, com Amor.