Cocaína nos rios está a deixar salmões mais ativos (e com comportamentos estranhos)

Cocaína nos rios está a deixar salmões mais ativos (e com comportamentos estranhos)

  • 21/04/2026 11:05
  • Redação

Há uma nova ameaça silenciosa nos rios europeus — e não é visível a olho nu. Vestígios de cocaína presentes na água estão a alterar o comportamento do salmão do Atlântico, segundo um estudo de investigadores da Universidade Sueca de Ciências Agrárias, publicado na revista Current Biology, e citado pelo jornal The Guardian.

A investigação concluiu que a cocaína e o seu principal metabolito, a benzoilecgonina, podem acumular-se no cérebro dos peixes, influenciando a forma como se deslocam, se alimentam e evitam predadores — com consequências ainda difíceis de prever para os ecossistemas aquáticos.

Para investigar este fenómeno, a equipa liderada por Jack Brand utilizou salmões juvenis criados em viveiro, que foram equipados com implantes capazes de libertar lentamente quantidades ambientalmente realistas destas substâncias. Um terceiro grupo, sem exposição, serviu de controlo. Todos os peixes foram posteriormente libertados no Lago Vättern, onde foram monitorizados durante dois meses através de transmissores acústicos.

Os resultados mostraram que os salmões expostos nadaram distâncias significativamente maiores e se dispersaram por uma área mais vasta do lago. Nas últimas semanas do estudo, os indivíduos expostos à cocaína percorreram, em média, mais cinco quilómetros do que os peixes do grupo de controlo, enquanto aqueles expostos à benzoilecgonina chegaram a nadar quase mais 14 quilómetros, o dobro da distância. Além disso, aventuraram-se mais para norte, com diferenças que atingiram os 12 quilómetros face aos não expostos.

Segundo Jack Brand, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, “foi realmente o metabolito, que sabemos ocorrer em concentrações mais elevadas na natureza, que teve um efeito muito mais profundo no comportamento e na movimentação dos peixes”, alertando que a ausência destes compostos nas avaliações de risco pode levar a uma subestimação significativa do impacto ambiental.

O investigador acrescenta, em declarações ao The Guardian, que “em grande parte, não sabemos quais são as consequências, mas pode haver compromissos”, explicando que os peixes poderão gastar mais energia ou expor-se mais a predadores ao procurar alimento adicional.

Especialistas externos, como Leon Barron, do Imperial College London, defendem que é essencial confirmar se estes efeitos também ocorrem em condições naturais. O especialista, também citado pelo jornal, sublinha ainda que uma melhor gestão das águas residuais — sobretudo a redução das descargas de esgoto não tratado — pode ajudar a diminuir os riscos para a vida selvagem.

Apesar de muitas estações de tratamento conseguirem remover grande parte das drogas ilícitas, a contaminação continua a verificar-se, sobretudo devido a descargas diretas de esgoto não tratado, frequentemente associadas a chuvas intensas ou a ligações incorretas na canalização doméstica. Sem medidas mais eficazes, alertam os investigadores, este tipo de poluição poderá continuar a afetar de forma silenciosa a biodiversidade aquática.

  • Fonte: Rádio Renascença
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