Depois de comerem “junk food”, comem terra. O que está a acontecer com os macacos de Gibraltar?
- 22/04/2026 09:26
- Redação
Os investigadores documentaram, pela primeira vez de forma sistemática, a prática de geofagia — ingestão intencional de terra — nesta população, a única de macacos selvagens na Europa.
“O que estamos a ver é uma resposta direta a uma mudança radical na dieta”, explicou Sylvain Lemoine, antropólogo biológico que liderou o estudo, citado em comunicado.
“Os alimentos trazidos por turistas e consumidos pelos macacos de Gibraltar são extremamente ricos em calorias, açúcar, sal e laticínios”, o que é completamente diferente dos alimentos normalmente consumidos pela espécie.
De acordo com os dados divulgados pela universidade, quase um quinto (18,8%) da dieta destes primatas provém de comida humana, incluindo chocolate, batatas fritas e gelados — produtos que perturbam a microbiota intestinal.
Essa mudança alimentar parece estar na origem do novo comportamento. “Pensamos que os macacos começaram a comer solo para proteger o seu sistema digestivo”, afirmou o investigador, acrescentando que “as nossas descobertas apoiam esta hipótese de proteção”.
A terra ingerida atua como uma espécie de “remédio natural”. “A terra consumida atua como uma barreira no trato digestivo, limitando a absorção de compostos nocivos”, podendo aliviar sintomas como náuseas ou diarreia. Além disso, “pode fornecer bactérias benéficas que ajudam a reequilibrar o microbioma intestinal”, acrescenta.
Durante 98 dias de observação, entre o verão de 2022 e a primavera de 2024, os cientistas registaram 46 casos de ingestão de terra em 44 animais diferentes. Os autores do estudo dizem que esta é a primeira vez que se documenta cientificamente que este grupo pratica regularmente a geofagia e que o faz devido à atividade humana.
Em média, foram registados 12 episódios semanais de geofagia, com maior incidência nas zonas mais frequentadas por turistas e durante a época alta. Em alguns casos, os macacos eram observados a ingerir terra pouco depois de consumirem pão ou gelado.
Para o investigador Lemoine, há também um paralelo evolutivo: “A disponibilidade de comida de plástico pode desencadear este mesmo mecanismo nos macacos”, notando que “comer terra pode permitir-lhes continuar a consumir alimentos que têm efeitos digestivos negativos, mas que são altamente apelativos”.
O comportamento não é apenas funcional — é também social. Cerca de 30% dos episódios ocorreram em grupo, e a maioria aconteceu na presença de outros macacos, sugerindo aprendizagem por observação.
“Estamos perante algo que é simultaneamente funcional e cultural”, sublinhou Lemoine, acrescentando que “tal como o uso de ferramentas noutros primatas, este comportamento parece estar a tornar-se uma tradição local, impulsionada pela proximidade com os humanos”.
Os macacos demonstram ainda preferências por tipos específicos de solo, sobretudo a chamada terra rossa (argila vermelha), o que reforça a ideia de transmissão cultural entre grupos.
“Os macacos de Gibraltar estão profundamente entrelaçados com a história humana”, concluiu o investigador, explicando que “a variedade de interações com pessoas cria uma oportunidade única para compreender como ambientes dominados pelos humanos moldam o comportamento e a cultura dos primatas.”