UE em “momento crítico” para acesso a novos medicamentos, alerta responsável europeia
- 22/04/2026 11:17
- Redação
A diretora da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), Emer Cooke, alertou esta quarta-feira que a União Europeia enfrenta um “momento crítico” para garantir o acesso futuro a medicamentos inovadores, num contexto de crescente pressão global sobre preços e investimento no setor farmacêutico.
Falando no evento Reuters Pharma Europe 2026, em Barcelona, Emer Cooke enquadrou diretamente a gravidade da situação.
“Penso que estamos num ponto muito crítico neste momento”, afirmou, acrescentando que “todos estão a debater-se com o que serão os impactos da política dos EUA sobre os preços”.
Segundo a responsável, a questão vai além do valor dos medicamentos, afetando decisões estruturais da indústria, como “o local onde se realizam os ensaios clínicos, onde se comercializa e onde se lança”.
De acordo com dados do setor, o número de lançamentos de novos medicamentos na Europa caiu mais de um terço desde que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, introduziu, em maio passado, uma política que liga os preços dos fármacos aos valores mais baixos praticados noutros países desenvolvidos.
Essa política, conhecida como “nação mais favorecida”, está a gerar efeitos indiretos no mercado europeu. Como explicou Bill Coyle, da consultora ZS, “a política de nação mais favorecida está a criar uma enorme hesitação em lançar aqui na Europa”, sobretudo “se isso expor os preços nos EUA”, sublinhando que isso acontece porque “naturalmente, [os EUA] são o principal motor de lucro para toda a indústria”.
Apesar das críticas crescentes da indústria — que aponta preços mais baixos, regulamentação exigente e incentivos considerados insuficientes — Cooke defendeu a posição europeia, lembrando que o continente continua a oferecer vantagens estruturais relevantes.
“Temos muitas coisas muito positivas a acontecer na Europa”, afirmou, destacando reformas em curso para reforçar a inovação e a competitividade.
A responsável revelou ainda que tem mantido diálogo com líderes do setor para encontrar soluções que acelerem a entrada de novos medicamentos no mercado europeu, incluindo mecanismos como negociações conjuntas de aquisição dentro da UE.
No mesmo evento, Cooke indicou que a EMA está prestes a concluir a avaliação de uma nova geração de comprimidos para perda de peso, salientando que uma decisão será tomada “muito em breve”, possivelmente antes do verão.
Os tratamentos, desenvolvidos por empresas como a Eli Lilly e a Novo Nordisk, já foram autorizados nos Estados Unidos e podem vir a transformar o mercado da obesidade.
A diretora da EMA abordou também a relação com a Food and Drug Administration, reconhecendo mudanças recentes na liderança da agência norte-americana, mas assegurando que a cooperação se mantém sólida.
Paralelamente, destacou os desafios e oportunidades da tecnologia no setor regulatório. “É importante que a inteligência artificial seja utilizada com supervisão humana e sem comprometer o discernimento necessário para decisões regulatórias”, afirmou.
A diretora da Agência Europeia de Medicamentos revelou ainda que a Europa começa a atrair talento científico proveniente dos Estados Unidos, ainda que de forma discreta.