Sabia que a crise climática está a prolongar a época do pólen na Europa?
- 23/04/2026 07:57
- Redação
A época do pólen no Reino Unido e na Europa continental está a tornar-se progressivamente mais longa devido à crise climática, agravando os sintomas de alergias em dezenas de milhões de pessoas. Um estudo recente, publicado na revista médica The Lancet, citado pelo The Guardian, conclui que, desde a década de 1990, a duração da polinização se prolongou entre uma a duas semanas, refletindo o impacto direto do aquecimento global na saúde pública.
Embora menos visível do que fenómenos extremos como incêndios florestais ou inundações, este efeito representa um aumento significativo do sofrimento quotidiano.
“É um daqueles indicadores do dia a dia que mostram que algo está a piorar um pouco para muitas pessoas. O sofrimento das pessoas devido a estas alterações pode ser muito grande ”, sublinha Joacim Rocklöv, da Universidade de Heidelberg e codiretor do relatório.
A investigação mostra que as épocas de polinização de espécies como a bétula, o amieiro e a oliveira começaram mais cedo — entre uma a duas semanas no período de 2015-2024 , quando comparado com 1991-2000.
Ao mesmo tempo, a intensidade da polinização aumentou entre 15% e 20% em várias regiões europeias, incluindo o sul do Reino Unido, o norte de França, a Alemanha e partes da Europa de Leste.
O fenómeno é impulsionado por temperaturas mais elevadas e maiores concentrações de dióxido de carbono, que estimulam as plantas a produzir mais pólen, intensificando reações alérgicas que podem variar de sintomas ligeiros a complicações graves.
Além disso, os investigadores alertam para o risco crescente associado a espécies invasoras, como a ambrosia comum, cujo pólen altamente alergénico tende a expandir-se para novas regiões.
“As alergias ao pólen são um risco para a saúde decorrente das alterações climáticas ”, explica ao jornal Katharina Bastl, da Universidade Médica de Viena, acrescentando que o impacto do aquecimento global na polinização já é evidente, embora varie de região para região.
O relatório insere-se no Lancet Countdown, uma colaboração internacional que reúne dezenas de investigadores e instituições para monitorizar os efeitos das alterações climáticas na saúde.
Para além do prolongamento da época do pólen, os dados revelam um aumento das mortes relacionadas com o calor, uma intensificação dos episódios de calor extremo, a expansão do risco de doenças infecciosas como a dengue e o agravamento das secas de verão em grande parte da Europa.
Apesar deste cenário preocupante, há também sinais positivos, nomeadamente a redução significativa da mortalidade associada à poluição do ar proveniente dos transportes e da produção de eletricidade. Ainda assim, os especialistas insistem na urgência de agir, alertando que “a janela de oportunidade para agir está a estreitar-se”.
Os autores do estudo defendem ainda a necessidade urgente de redirecionar investimentos dos combustíveis fósseis para energias limpas, melhorar a qualidade do ar e reforçar a preparação dos sistemas de saúde, sublinhando que estas medidas podem trazer benefícios imediatos e duradouros para a saúde pública.
No conjunto, o estudo evidencia como a crise climática já não é apenas uma ameaça distante ou abstrata, manifestando-se também em alterações subtis, mas profundamente impactantes, na vida quotidiana das populações europeias.