“Não podemos colocar a cabeça na areia”. Bélgica recomenda “kit de emergência” para três dias
- 23/04/2026 10:23
- Redação
As autoridades belgas estão a apelar à população para preparar um “kit de emergência” que garanta autonomia durante pelo menos três dias, numa altura em que o país procura reforçar a sua capacidade de resposta face a crises. A recomendação surge num contexto internacional considerado mais instável e perante o aumento de fenómenos extremos associados às alterações climáticas.
A iniciativa integra-se nas orientações da Comissão Europeia, no âmbito da estratégia “Preparação 2030”, e surge num cenário marcado pela guerra na Ucrânia e por crescentes tensões geopolíticas na Europa. Ainda assim, o governante foi cauteloso quanto a cenários extremos: “Isso vai realmente acontecer? Espero que não, mas hoje não podemos dizer que a probabilidade é zero. É preciso estar preparado”.
O objetivo das autoridades é claro: garantir que a maioria da população consegue sobreviver de forma autónoma nas primeiras 72 horas de uma crise, permitindo que os serviços de emergência concentrem recursos nos mais vulneráveis.
Bernard Quintin destacou que esta abordagem faz parte de uma lógica de resiliência: “Resiliência é preparar-se para o choque. Estar pronto não só para absorver o impacto, mas também para recuperar rapidamente dele”, explicou.
O ministro apontou ainda o exemplo de países do norte da Europa, como Finlândia ou Suécia, onde existe uma cultura de preparação mais enraizada: “Esses países vivem há muito tempo com uma perceção de ameaça e mantêm um nível permanente de preparação. Nós precisamos de atingir esse nível, ainda que de forma adaptada”, exemplificou.
O kit, que deve estar pronto a ser transportado numa mochila em caso de evacuação, inclui itens essenciais para sobrevivência, comunicação e segurança. Entre os principais elementos recomendados estão:
Além disso, as autoridades aconselham a manter em casa um kit mais completo, com reservas adicionais, para cenários em que seja necessário permanecer isolado, sem eletricidade, água ou acesso à internet.
A campanha “Ready Together” incentiva os cidadãos a adotarem medidas simples de preparação, como o registo no sistema de alerta BE-Alert e o acompanhamento dos canais oficiais. Também promove a entreajuda entre vizinhos e comunidades, incluindo a possibilidade de criar kits partilhados.
Para o governante, esta mobilização deve envolver todos: “Cada cidadão também deve assumir a sua responsabilidade”. O ministro rejeitou a ideia de que o Estado deva assegurar todos os recursos: “Estamos a falar de água, alimentos básicos e produtos de higiene para 72 horas. Não é irrealista pedir isso às pessoas”, apontou.
O governante recordou as cheias de 2021, que provocaram cerca de 40 mortos na Bélgica, como prova de que catástrofes graves são uma realidade concreta. “Podíamos fingir que essas crises não aconteceram, mas isso não seria responsável”, afirmou.
Além dos desastres naturais, Quintin alertou também para novas formas de ameaça: “Temos ciberataques todos os dias aos nossos sistemas. Não estamos em guerra, mas dizer que não estamos sob ataque já é ir longe demais”, sublinhou.
Apesar de a Europa viver o mais longo período de paz da sua história recente, o ministro deixou um aviso claro: “Temos a sorte de viver há mais de 80 anos em paz, mas isso pode mudar. Precisamos de estar preparados”.
Com esta iniciativa, a Bélgica procura não apenas reforçar a segurança, mas também criar uma verdadeira cultura de prevenção e resiliência entre os cidadãos — algo que, segundo o próprio ministro, ainda está por desenvolver no país.