Da Liga 3 ao Jamor, com escala em Torres Vedras. "Se o Fafe for à final e ganhar, tatuo a Taça no peito"
- 23/04/2026 10:10
- Redação
Fafe vibra com o sonho de fazer história. As horas antes da segunda mão da meia-final da Taça de Portugal, diante do Torreense, são nervoso miudinho e, à hora do jogo, a previsão é que as ruas da cidade fiquem desertas.
O percurso do Fafe até às meias-finais é digno dos maiores contos de fadas da Taça. Uma equipa da Liga 3 eliminou, além do Oriental (Campeonato de Portugal) e do Lusitano de Évora (Liga 3), três equipas da I Liga: Moreirense, o Arouca e o Sporting de Braga, semifinalista da Liga Europa.
Agora, os minhotos precisam de vencer no terreno do Torreense, depois de a primeira mão, em Fafe, ter terminado com um empate a um golo. Jogo marcado para as 20h45.
Aconteça o que acontecer, já é um "feito espetacular", diz Manuel Marinho, que não esconde a alegria de poder viver este momento: "É uma sensação única um clube como o Fafe estar nas meias-finais. Já esteve noutros tempos, é a terceira vez, contudo é a minha primeira a viver este sonho e sem dúvida que é extasiante estar a sentir este marco."
E se para o clube "é extremamente importante", acima de tudo, o presidente do Fafe considera a presença nas meias-finais da prova rainha "algo lindíssimo" para os fafenses: "Merecem, porque são muito ligados à Associação Desportiva de Fafe."
O entusiasmo é palpável, ao entrar no café Arcada, um dos mais populares da cidade. Respira-se história, no interior: o azulejo na metade inferior das paredes; as fotografias antigas na parte superior, toda em madeira. E para quem dúvidas tivesse, os cachecóis expostos na parede atrás do balcão deixam claro que, neste estabelecimento, sofre-se pelo Fafe.
Que o diga Filipe Sampaio, de 54 anos, um dos responsáveis, que após insistência dos colegas chega-se à frente para falar do clube do coração. É sócio desde 1986. Não vai a Torres Vedras, mas tem "vários clientes que vão".
"Alguns até vão um dia mais cedo, para estar com calma. E nós vamos ver aqui o jogo. Vamos pôr [na televisão]", afiança.
Filipe foi ver o jogo dos quartos de final com o Braga e o ambiente "fez lembrar os tempos" em que o Fafe militava na I Liga: "Era igualzinho. O ambiente nas bancadas... Tudo. Era tudo igual. É bom recordar os tempos em que o Fafe era o Fafe. Aquelas grandes vitórias, os jogos grandes que tínhamos aqui. A alegria dos adeptos, das claques. Era um espetáculo."
Quem também se lembra bem desses tempos é António Carvalho, sócio número 24, desde a fundação. Aos 84 anos, já evita ir ao estádio, porque "a idade já prejudica um bocado". O último jogo que viu ao vivo foi o dos quartos de final diante do Braga.
"Eu não estou bem no futebol, fujo um pouco das emoções. Quando saí, estava 2-0, já passava quatro minutos da hora. Mas quando cheguei uns 100 metros adiante, o Braga marcou, 2-1, e eu fiquei um bocado aflito que acabasse o jogo", confessa, entre risos. No fim, contudo, "tudo correu bem".
A presença nas meias-finais "é uma honra para a terra". A primeira mão "custou um bocado" a ver, mesmo pela televisão, no entanto, António Carvalho está confiante para o jogo em Torres Vedras: "Vamos lá com intenção de ganhar. Acredito numa vitória."
E se o Fafe for ao Jamor, António Carvalho até esquece a idade: "Eu quero ir. Sou capaz de ir com a família, ainda estamos a pensar naquilo que vai ser."
Há um adepto que tem uma confiança inabalável no apuramento para a final. João Freitas, de 23 anos, é membro da claque do Fafe, os "Fighters Boys 95", cujo símbolo tem tatuado no braço. Tem ainda duas tatuagens referentes ao clube na perna direita.
É um amor adquirido do patrão, que lhe arranjava bilhetes para ir ao estádio. Agora, João "não [consegue] passar um fim de semana sem ver o clube da terra jogar". Esta época, só falhou três jogos. Esta quinta-feira, será um de 419 adeptos fafenses em Torres Vedras e conta também ir ao Jamor, no final de maio.
"Ando a dizer desde o início que vamos à final. O Fafe é um gigante adormecido. Quem vai marcar é o João Santos, aos 120 minutos. Vamos sofrer até ao fim, mas vamos sair de lá com uma vitória", garante.
Esta campanha na Taça tem sido "uma loucura". O jogo com o Braga, em especial, fê-lo chorar de alegria: "Eu disse no café que íamos ganhar 2-1 nesse jogo e ganhámos 2-1. Não sou vidente, mas agora vamos ganhar por 1-0. É o que eu sinto."
Filipe Sampaio também acredita, e quer viver a festa da Taça no Jamor, embora sublinhe que "vai ser difícil" derrotar o Torreense.
Se o Fafe for à final, contudo, Filipe fala até de fechar o café para ir até Oeiras, confessa, entre gargalhadas: "Éramos capazes de fazer aí uma brincadeira para lá irmos. Isso é que era, a cidade toda fechada. Tudo no Jamor!"
"O povo está todo entusiasmado. É a loucura. Ainda no último jogo, a gente pôs a dar e foi um espetáculo. Eles vibram mesmo. É bom reviver estes momentos que eles viviam com o Fafe", assinala.
Apesar do entusiasmo com a campanha na Taça, a época no campeonato não tem corrido de feição. O clube não conseguiu apurar-se para o play-off de subida e teve de lutar pela manutenção, embora já tenha garantido a continuidade na Liga 3.
"O Fafe precisava de estar num patamar melhor. A segunda, pelo menos", diz António Carvalho.
"Para a primeira para já não, que é difícil, é preciso estruturar bem o Fafe. Mas a segunda era o ideal. É possível, a SAD está a trabalhar para isso. Estão a trabalhar mais ou menos. Nesta terceira [liga] eles facilitam um bocadinho e não temos conseguido subir, mas acho que vão fazer um projeto bom", avalia o adepto.
Filipe Sampaio acredita que, na próxima época, o objetivo será alcançado. Até porque as gentes da cidade sorriem mais quando a vida corre bem ao Fafe.
"A gente nota, quando o Fafe luta para subir, o pessoal anda sempre a saber quando é a próxima excursão e tudo. Agora, não. Nem se faz excursões nenhumas. O Fafe costuma ter sempre camionetas para levar adeptos e quando luta para descer já não organiza nada", salienta.
A confiança em Derlei, o presidente da SAD, é grande: "Está mais que habituado aos grandes palcos. E nota-se para quem acompanha os jogos que ele vibra mesmo com o Fafe."
João destaca que o antigo jogador de FC Porto e Sporting, que conquistou a Liga dos Campeões pelos dragões, "é uma boa pessoa" e que "fará justiça" pelo Fafe.
Tal como António: "Gosto do Derlei, gostei sempre dele. Como jogador e, agora, como presidente da SAD. É o ninja. Gosto dele."
Manuel Marinho, o presidente do clube, fala de uma "relação extraordinária" com a SAD.
"As pessoas da SAD, apesar de não serem portugueses nem de Fafe, já foram injetados com este ADN dos fafenses e estão a portar-se lindamente. Não se conseguiu atingir os objetivos inicialmente propostos, mas é preciso a bola entrar e as coisas não são fáceis. Tem sido uma relação extraordinária, de gente boa, e por essa razão também estamos a fazer este percurso", afirma.
Marinho não se vai recandidatar às eleições do dia 9 de maio, por acreditar que é preciso injetar sangue novo, com novas ideias, mas deixa trabalho feito nas camadas de formação das várias modalidades.
Nestes últimos meses de mandato, agradece à SAD pela partilha de lucros da campanha na Taça, que "tem muito impacto", e deseja sucesso para o futuro. Como adepto, vai continuar a apoiar: "Bem merecem ter um retorno para os ajudar nesta caminhada e para o próximo ano."
Manuel Marinho lamenta que o jogo passe em sinal fechado, ecoando uma queixa que já ouviu de "pessoas com mais dificuldades". Tudo aos cafés, portanto, para ver o jogo que decide a presença do Fafe na final da Taça de Portugal.
Um desses cafés é o Arcada, onde Filipe vai estar a servir os clientes. António também vai estar colado à televisão, a ver se o Fafe se torna na primeira equipa da terceira divisão desde 2002 a chegar à final.
"Fica aqui dito: se o Fafe for à final e ganhar, eu tatuo a taça e a data da final. No peito", atira.