O abraço a África do missionário que agora é Papa

O abraço a África do missionário que agora é Papa

  • 23/04/2026 13:25
  • Redação

Leão XIV escolheu quatro países muito diferentes para a primeira viagem apostólica a África do seu pontificado. Aparentemente, não existe um fio condutor entre a Argélia, os Camarões, Angola e Guiné Equatorial que possa explicar o porquê estes destinos e não outros, a não ser a sua clara preferência por África e Santo Agostinho, cuja sabedoria e exemplo continuam atuais e inspirou alguns dos seus discursos.

Interessante, é também a circunstância de os regimes políticos dos quatro países visitados serem todos de carácter autoritário ou mesmo, nalguns casos, totalitário.

Em Argel, o Papa visitou a Mesquita principal e lembrou que futuro pertence aos homens e mulheres de paz.

Fez questão de rezar em silêncio junto às ruínas da catedral de Hipona (atual Annaba), onde o seu “pai espiritual” foi bispo (no séc. IV) e encorajou o pequeno rebanho de católicos daquele país (apenas 0,02% da população), a darem testemunho da verdade, de olhos fixos no exemplo dos 19 mártires assinados nos anos 1990 por ódio à fé e recentemente beatificados.

Pediu para se combater "quem lucra com a desgraça alheia", que se eliminem "as causas do desespero e se multipliquem os oásis de paz", entre o Mediterrâneo e o Saara. Na Argélia e não só.

Criticou as "tentativas neocoloniais" e as "contínuas violações do direito internacional" e condenou quem utiliza os "símbolos e palavras religiosas" como "linguagens blasfemas de violência e opressão".

Durante 11 dias, em 11 cidades e 26 discursos, Leão XIV pôs o dedo nas feridas destas terras africanas.

Revelou ao mundo as fragilidades dos respetivos regimes políticos — totalitários ou quase — condenou a chaga da corrupção, os graves desequilíbrios entre ricos e pobres, a exploração abusiva dos sub-solos por exploradores desonestos “que esquecem a salvaguarda da criação, os direitos das comunidades locais, a dignidade do trabalho e a proteção da saúde pública”.

O Papa lamentou a falta de protagonismo da sociedade civil e, sobretudo, dos jovens, a quem pediu para não se resignarem e lutarem pela justiça e paz nos seus países.

O flagelo da corrupção foi apontado várias vezes e dirigiu duras aos senhores da guerra e recomendações aos governantes.

Pediu, sobretudo, “frutos de paz e fraternidade, sem mais guerras, nem injustiças, nem miséria, nem desonestidade, onde o Evangelho inspire os corações, as estruturas e os programas, para o bem de todos, ao serviço do bem comum e não de interesses particulares”.

E que cresçam espaços de liberdade e que a dignidade da pessoa humana seja sempre salvaguardada.

Leão XIV cumpriu toda esta agenda sempre sereno, discreto e atento. Tão afável com a multidão e os simples, como com os chefes de Estado; tão disponível para pegar ao colo e até embalar dezenas de bebés (alguns recém-nascidos), como para dar a bênção aos milhares que o aguardavam, sobretudo, junto à nunciatura de Luanda.

Na sua preenchida agenda, inseriu, quase diariamente, visitas e encontros com o mundo do sofrimento, mostrou-se carinhoso com os mais vulneráveis em hospitais, lares de idosos e casas de acolhimento, numa prisão e num orfanato.

Nunca se vislumbrou nele cansaço ou distração, nem mesmo nos momentos mais sufocantes do calor húmido africano.

Deste modo e ao longo desta grande viagem se foi revelando o novo Papa. Sempre educado e afável, certo daquilo que quer dizer, com poucas palavras e direto ao assunto, como aliás se verificou perante as declarações do presidente Trump que, a certa altura, ameaçaram desviar as atenções da viagem.

De facto, em décadas de experiência, vividas em mais de 50 países do mundo, a vocação de Robert Prevost, feliz como missionário agostiniano, é agora é posta a render para benefício de todos. O que testemunhámos nestes dias foi a expressão desta sabedoria acumulada.

  • Fonte: Rádio Renascença
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