José Luís Carneiro convicto de que será primeiro-ministro e de que não tem opositor interno
- 24/04/2026 01:00
- Redação
O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, mostra-se “firmemente convencido” de que vai disputar legislativas enquanto líder do PS, que será primeiro-ministro e recusa ter um opositor interno porque não vê divergências de fundo, recebendo Pedro Nuno Santos “de braços abertos”.
Em entrevista à agência Lusa, Carneiro acolhe o regresso do antecessor Pedro Nuno Santos ao parlamento, responde à recente recusa do ex-ministro Duarte Cordeiro para integrar os órgãos do partido e afasta a ideia de que esteja a surgir uma oposição interna não assumida que possa vir a disputar a sua liderança perto de umas eleições.
“Estou firmemente convencido que irei a eleições e que vou ganhar as eleições para primeiro-ministro”, enfatiza, clarificando que esta sua convicção é válida para o calendário normal das legislativas ou para uma eventual antecipação.
Sobre o regresso de Pedro Nuno Santos ao parlamento para reassumir o mandato de deputado, Carneiro afasta qualquer desconforto e revela que conversou com o ex-líder do PS na semana passada.
“Disse-lhe que o acolheríamos de braços abertos e se ele se sente bem hoje no parlamento, é onde ele deve estar. Ele tem um mandato, tem uma legitimidade. E mais, espero que ele se sinta bem”, afirma, esperando que as suas “capacidades e experiência política sejam devidamente valorizadas no trabalho parlamentar”.
A entrevista à Lusa realizou-se ainda antes das declarações de Pedro Nuno Santos, que na quarta-feira disse respeitar mais José Luís Carneiro do que “taticistas que se escondem atrás da porta" à espera de ventos favoráveis para se candidatarem à liderança do partido.
Concretamente sobre Duarte Cordeiro, Carneiro manifesta “a maior consideração” pelos seus camaradas que “têm manifestado as suas divergências pontuais".
O secretário-geral socialista José Luís Carneiro, considera que a “estabilidade deve ser uma conquista” do primeiro-ministro, Luís Montenegro, e promete reciprocidade ao Governo no tratamento que der ao PS, que recusa ver provocado ou desconsiderado.
“A estabilidade deve ser uma conquista do primeiro-ministro e do Governo porque o primeiro-ministro conhece a composição do parlamento. Sabe que não pode ignorar a Assembleia da República. Tem o dever de a respeitar e tem o dever de construir a solidez política a partir do parlamento”, avisa.
Na perspetiva de Carneiro, isto “depende mais” de Montenegro “do que propriamente das oposições”.
“Não pode é o primeiro-ministro estar permanentemente a contar com o elevado sentido de responsabilidade do PS para, na hora certa, viabilizar os seus orçamentos. Portanto, compete ao primeiro-ministro trabalhar para construir essa credibilidade e essa confiança. O que não tem acontecido, deve dizer-se”, considera.
Depois da expectativa em torno da relação com o Governo nos dias que antecederam o congresso do PS, o líder do PS recusa que tenha havido qualquer “contradição entre o início e o fim” da reunião magna.
“Se o Governo provoca o PS, se desconsidera o PS, o que é que poderá ter como resposta? A mesma desconsideração em relação às pontes de diálogo que venham a ser estabelecidas”, enfatiza.
Sobre o OE2027, Carneiro refere que ainda se está longe e que é preciso conhecer a proposta do Governo, além de ter de ouvir “no momento próprio, os órgãos do PS”.
“Vamos aguardar por aquilo que é a posição do próprio Governo. É cedo ainda. Cada coisa a seu tempo”, aponta.
Noutro plano, o secretário-geral do PS acusa o Governo de “asfixia democrática”, criando “instrumentos de distração da opinião pública”, não respondendo a jornalistas e mexendo na “composição das estruturas de administração dos órgãos de comunicação social”, como a Lusa.
“O que está a acontecer com o Governo é que se aplica ao Governo aquilo que outrora a [antiga presidente do PSD] Dra. Manuela Ferreira Leite falou do Governo do PS, da asfixia democrática”, defendeu José Luís Carneiro em entrevista à agência Lusa.
Segundo o líder socialista, o Governo está a procurar “criar instrumentos de distração da opinião pública”, como a “questões dos estrangeiros”, das burcas, ou a lei da nacionalidade, temas “que não passam sequer pela cabeça das pessoas no seu dia-a-dia”, para “manter o espaço mediático ocupado”.
“Fazem conferências de imprensa e não respondem às perguntas dos jornalistas. É o primeiro sintoma. Depois, contratam uma empresa que há poucos dias teve dificuldades em Inglaterra, porque afinal essa empresa em Inglaterra estava a controlar as oposições e a controlar os jornalistas”, afirmou, numa referência à ferramenta News Whip, que o Governo recusou que sirva para classificar e monitorizar jornalistas e que classifica de “’clipping’ moderno”.
José Luís Carneiro argumentou ainda que o Governo procura igualmente “mexer na própria composição das estruturas de administração dos órgãos de comunicação social, como está a acontecer com a Lusa”.
O secretário-geral socialista já transmitiu a Mário Centeno que terá “todo o gosto” em acolhê-lo como militante do PS e destaca a “relação sadia” com o Presidente da República, mas admitindo possíveis visões diferentes sobre alguns temas.
José Luís Carneiro assume que já disse ao antigo governador do Banco de Portugal e ex-ministro das Finanças de António Costa, Mário Centeno, que gostaria de contar com o seu contributo no PS.
“Também lhe foi transmitido que se ele quiser dar esse passo, nós também temos todo gosto em acolhê-lo”, responde, quando questionado se gostava de lhe entregar o cartão de militante do PS.
O líder do PS considera que Centeno é “um quadro dos mais qualificados” que há em Portugal e “que tem de ser valorizado”, lembrando que esteve numa reunião recente do Conselho Estratégico do PS.
“E se ele puder dar o seu contributo ao PS, pois com certeza é bem-vindo”, enfatiza.
José Luís Carneiro defende que é preciso conhecer a proposta concreta de reforma do Estado, embora considere que os valores conhecidos para dispensar visto prévio do Tribunal de Contas são “muito elevados”.
Sobre a proposta do Governo de isentar de visto do Tribunal de Contas contratos até 10 milhões de euros, no âmbito da reforma do Estado, que na semana passada o executivo apresentou aos partidos com assento parlamentar, Carneiro disse ainda não ter conversado com o presidente do grupo parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, sobre o tema, que ainda não tem proposta formal.
“Nós estamos à espera de conhecer a proposta do Governo. Até agora só verificámos manifestação de intenções no espaço público. É preciso conhecer a proposta. Que todos reconhecem que é necessário desburocratizar os termos dos processos de decisão, por forma a dar celeridade ao investimento público, isso todos temos a consciência. Quem teve responsabilidades executivas, tem essa consciência. Agora, depende em que termos é que vai ser feito”, sustentou.
“Por exemplo, qual é o limite abaixo do qual está isento o visto. Por exemplo, parece-me que é um ponto crítico. Parece-me que os valores que apareceram no espaço público são valores muito elevados”, apontou.