“Muzeu” que abre em Braga quer ser "sítio de contemplação” de arte e criação de pensamento
- 24/04/2026 01:15
- Redação
“Um museu é um sítio de contemplação, onde mesmo os não crentes podem rezar”. É desta forma que o colecionador José Teixeira fala do espaço do Muzeu – Pensamento e Arte Contemporânea que abre este sábado ao público, em Braga.
O presidente do DST Group – empresa portuguesa que trabalha em áreas como a construção, obras públicas, energia e telecomunicações – depositou a sua coleção de arte contemporânea no edifício onde outrora funcionou o Tribunal Judicial de Braga e que agora acolhe o museu.
Situado no centro histórico da cidade, projetado pelo arquiteto bracarense José Carvalho Araújo, o Muzeu resulta de um investimento privado, do DST Group, de cerca de 40 milhões de euros.
O seu presidente fala em “dever social” quando questionado sobre a criação do Muzeu. José Teixeira afirma que o “trabalho de educação cultural é um trabalho sem fim à vista” e que “não é um papel apenas dos estados e das cidades”.
No interior do Muzeu, o visitante vai encontrar um edifício de cinco andares, quadro deles de exposição e um último com um auditório, onde parte da coleção criada pelos afetos do colecionador, nos últimos 40 anos, é mostrada.
Ao todo, o acervo detém 1500 obras de 240 artistas nacionais e internacionais. Entre os presentes destaque para nomes como Pablo Picasso, Anselm Kiefer, Nan Goldin, Candida Höfer, ou os portugueses Paula Rego, Helena Almeida, Fernanda Fragateiro, Pedro Cabrita Reis ou Julião Sarmento, entre muitos outros.
“Queremos que arte seja uma provocação e uma ferramenta de transformação.”
Daí este Muzeu ter como subtítulo “Pensamento e Arte Contemporânea”. A ideia, refere José Teixeira, é a “arte ter um papel transformador” e gerar não só conhecimento como reflexão.
“É o primeiro museu no mundo que inscreve a palavra pensamento no seu nome”, sublinha Helena Mendes Pereira.
Ainda antes de entrar no edifício, o visitante é confrontado com arte. As portas do Muzeu sofreram uma intervenção do artista José Pedro Croft, à qual nem a farmácia vizinha do museu escapou. A porta que fica mesmo junto ao edifício também foi beneficiada pela intervenção artística, uma espécie de tinta rugosa em cor cinza-claro.
A exposição inaugural “Sejamos realistas, exijamos o impossível” vai estar patente até 23 de outubro de 2027 e estende-se pelos quatro pisos expositivos. Ao todo são mostradas em cerca de 3000 m², mais de 100 obras de 96 artistas, 40 portugueses e 56 internacionais.
O primeiro andar é dedicado à ideia de “praça”, explica Helena Mendes Pereira. A diretora indica que este piso faz a ligação entre os dois lados do museu, ou seja, entre a praça Conde de Agrolongo e a praça do Município. A ideia é criar uma espécie de “terceira praça” onde está não só um vestígio arqueológico das antigas muralhas da cidade, como peças de artistas como Manuela Pimentel ou Ana Vidigal.
No centro do edifício, o arquiteto Carvalho Araújo projetou uma escada que faz a ligação. Descendo ao piso inferior, o visitante vai encontrar o que a diretora diz ser “o chão da fábrica”.
“É o elogio ao trabalho” que está retratado neste andar que pretende fazer uma ligação direta ao Campus DST, onde está o coração produtivo da empresa e muitas obras de arte pública de artistas também presentes no Muzeu. Neste mesmo andar foi mantido um poço do século XIV.
O segundo andar “é o mais político”, refere a diretora. “Corpo, poesia, protesto” são as temáticas deste piso onde a fotografia está muito presente, bem como “grandes núcleos de artistas”, como Julião Sarmento, Helena Almeida ou Pedro Cabrita Reis, presentes na coleção com obras de diferentes épocas. É também neste andar que está a obra de Pablo Picasso.
“O terceiro piso é a ‘Alma da Casa’”, diz Helena Mendes Pereira. “É onde está o maior número de peças que vieram diretamente da casa do colecionador”. Estão presentes artistas dos anos 30 e 40, bem como um importante núcleo permanente dedicado à obra de Anselm Kiefer.
O último piso é um auditório. É ali que o Muzeu se propõe a dar espaço a conferências e debates. Na entrada do auditório, de onde é possível ver a cidade, estão diversas fotos de Alfredo Cunha a personalidades da cultura, como Manuel Alegre, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa-Luís ou Graça Morais e Olga Roriz.
Na apresentação à imprensa, José Teixeira foi categórico em afirmar: “Nós desejamos ter e ser um efeito Bilbau”, referindo-se ao museu espanhol como fator transformador da cidade do País Basco.
Perto do Porto e de Guimarães, o Muzeu pretende, assim, afirmar-se no panorama cultural nacional e internacional. “A partir da cultura transformar o mundo num lugar mais belo”, diz Teixeira, é um propósito deste museu.
O Muzeu teve a sua inauguração oficial na quinta-feira, com a presença do Presidente da República, bem como do ministro da Educação e do secretário de Estado da Cultura. Outra das personalidades que marcou também presença foi o Cardeal D. José Tolentino Mendonça, a quem coube abençoar o Muzeu.
No dia seguinte, e antes da abertura ao público, coube aos trabalhadores da DST visitar em primeira mão o museu. Depois de sábado, o Muzeu estará aberto de terça a domingo até às 19h00, com entrada gratuita às quintas-feiras.
A marcar os dias até 31 de outubro está um ciclo de programação intitulado “Abrir Abril”, que assinala a Revolução de 1974 e que prevê um programa de performance, espetáculos e conferências.