Lista Suja do Racismo no Desporto vai a votos no Brasil: "As pessoas estão muito preocupadas, é uma covardia"
- 24/04/2026 04:40
- Redação
Há exatamente um mês, a Câmara dos Deputados do Brasil aprovou a “Lista Suja do Racismo no Desporto”, com 295 votos a favor, 120 contra e uma abstenção. Resumindo, clubes condenados judicialmente por atos racistas praticados por adeptos, dirigentes, treinadores ou atletas transitam para essa lista durante dois anos.
Esse prazo até pode ser encurtado caso o clube condenado coloque em marcha ações de combate ao racismo. Essa espécie de lista supera a vergonha, tratará de impedir essas entidades de celebrarem contratos com o Estado, receber patrocínios públicos ou até benefícios fiscais.
O texto da proposta de lei, que terá de ser aprovada pelo Senado, foi originalmente escrito por Eduardo Bandeira de Mello, agora deputado do Partido Verde e antigo presidente do Flamengo (2013-2018). A “Lista Suja do Racismo no Desporto” conheceu as virtudes de uma caneta depois do debate mundial à volta do caso Vinicius-Prestianni, no Estádio da Luz, no Benfica-Real para a Liga dos Campeões.
Foi por essas continuadas manifestações racistas que a gente tem assistido, não só na Europa como algumas até no Brasil. Infelizmente, está sendo cada vez mais comum a gente ver manifestação racista, manifestação de intolerância em jogos de futebol. Acho que as mais flagrantes e evidentes para todo mundo são as que afetam o Vinícius Júnior, nos jogos do Real Madrid, mas aqui no Brasil a gente tem também, principalmente quando envolve adeptos da Argentina, por exemplo, e às vezes até do sul do Brasil, que se manifestam dessa maneira deplorável.
A legislação brasileira, nesse sentido, é muito mais avançada do que a de outros países, considera o racismo um crime. O propósito dessa lei foi criar mais um constrangimento. Então, se determinado clube, federação, organização, sofrer alguma punição por racismo, ficará também impedido de ter acesso a recursos públicos, como financiamento de bancos públicos, como acesso à lei de incentivo ao desporto.
É como se fosse uma punição que já existe aqui no Brasil para quem deve dinheiro ao Estado. Então, clubes que não tenham certidão negativa de débito, de débitos fiscais, não podem receber, por exemplo, patrocínio de empresas estatais, não podem receber financiamento de bancos estatais, nem podem receber nenhum tipo de recurso público, sobre que forma for, de organismos ligados ao Estado. É claro que isso é apenas mais uma coisa e serve, inclusive, para chamar a atenção de que essa questão a gente considera grave e nós gostaríamos que esse tipo de coisa acabasse. O ideal seria que a gente não precisasse aplicar a lei para ninguém.
Um dos temas de discórdia na discussão, creio eu, foi o envolvimento dos adeptos, aquilo de poder haver penalização se um adepto cometer algum ato de racismo e depois afetar quinhentos funcionários num clube. Houve esse debate, certo?
Mas isso na realidade não existe, essa questão, porque a punição vai para o caso do clube que for punido de alguma maneira. Já existe uma outra instância que vai avaliar que houve conivência do clube com seu adepto. Se for simplesmente uma manifestação isolada de um torcedor, e o clube, inclusive, como ele deveria sempre fazer, o clube se manifesta contrário, ou às vezes até identifica quem é o adepto e expulsa-o do clube, expulsa-o do estádio, não vai acontecer nada com o clube.
Agora, se o clube for considerado culpado em alguma instância, aí sim, ele passa a fazer parte da lista suja do racismo. Alguns deputados, no dia em que o projeto estava sendo votado, colocaram essa questão. Eu, nesse dia, não estava no plenário, estava acompanhando à distância e não pude rebater. Mas, efetivamente, ninguém precisa de ficar preocupado com isso. Não é porque tem uma manifestação racista isolada de um adepto ou até de um grupo de adeptos que você vai punir o clube. Você vai punir o clube se, efetivamente, se envolver diretamente em práticas racistas.
É verdade. No meu clube, por exemplo, felizmente nunca aconteceu isso. Mas se o Flamengo algum dia tiver algum adepto envolvido nisso, eu vou querer muito que o clube se manifeste e puna esse adepto. Mas, felizmente, o Flamengo tem estado na outra ponta.
Queria perguntar-lhe se essa experiência no Flamengo lhe trouxe outra sensibilidade para esta temática, ou não?
Na realidade, essa sensibilidade está no sangue da maioria de nós, brasileiros. Não é porque eu fui presidente do Flamengo que eu passei a ter uma preocupação com essa questão, isso já vem da minha condição de cidadão mesmo. Eu trabalhei mais de 30 anos no BNDES, que é o Banco de Desenvolvimento Brasileiro, em que essa questão é levada em consideração também, as questões de racismo ou de trabalho escravo. Quem se envolve nesse tipo de prática, não tem acesso a recursos públicos. Acho que isso é uma condição inerente à minha condição de cidadão. Não é porque eu fui presidente do Flamengo
Eu acho que a reação aqui no Brasil tem sido sempre, na maioria das vezes, muito positiva. As pessoas estão muito preocupadas com isto. Isso realmente é uma covardia, isso que se faz. Sinceramente, eu não consigo entender como é que você humilha uma pessoa por conta da cor da pele. E, muitas vezes, não é só uma pessoa. Como uma boa parte da população brasileira ter origem africana, muitas vezes é um clube brasileiro como um todo que vai jogar num país em que esse tipo de preocupação não é tão disseminada e acaba com o clube a sofrer esse tipo de covardia.
Então, acho que isso a gente tem que proibir. E não é só punir, você tem que educar também. Acho que o papel de vocês, da imprensa, tem sido fundamental no sentido de proibir esse tipo de coisa. Nós tivemos, por exemplo, na última vez que o Vinícius Júnior foi agredido, a atitude do Vincent Kompany, o treinador do Bairro de Munique. Para mim, foi exemplar, foi uma coisa que a gente tem que enaltecer muito. Eu sempre fui fã do Kompany como zagueiro, como treinador está fazendo um belíssimo trabalho como treinador no Bayern de Munique e agora eu sou mais fã dele ainda como pessoa humana, como figura humana.
Não sei se acompanhou na altura, porque os casos do Vinícius infelizmente sucedem-se, mas como viu aquela reação do Benfica? Tem algum reparo?
Não gostei, acho que foi uma reação talvez precipitada. Acho que se eles pensarem bem, vão entender que não está à altura de um clube como o Benfica, um clube que tem uma torcida enorme, tem raízes populares também. Acho que não faz o menor sentido tentar relativizar um ato de racismo de um atleta.
Ele [Prestianni] é jovem, muito jovem, o que o Benfica deveria ter feito era fazer com que ele entendesse que o que ele fez é muito grave. Ele tem ainda muito tempo de carreira pela frente para proceder de uma outra maneira.
Sei que o seu texto sofreu uma alteração porque era futebol e depois evoluiu para desporto ou modalidades, não é? Pareceu-lhe bem?
Acho que sim. Na realidade, o projeto original falava só de futebol. Essas manifestações racistas têm acontecido, praticamente, a totalidade delas em jogos de futebol. Mas, na comissão de desporto, a relatora, a deputada Laura Carneiro, achou por bem incluir as outras modalidades. Acho que isso não faz mal, pelo contrário. Nós podemos ter, embora não seja comum, isso em jogos de basquetebol, voleibol. Acho que foi positivo, concorde.
Quando estava a magicar essa ideia, tinha em mente algo diferente no início, ou não? Era mais ambiciosa?
Acho que foi sempre assim, porque a ideia seria fazer alguma coisa para ser mais um constrangimento para atitudes covardes e racistas. E eu me inspirei nessa questão das certidões negativas. Trabalhei muito tempo nos bancos, trabalhei muito tempo no BNDES, e a impossibilidade de se realizar uma operação de crédito com instituições que estejam em débito com o governo ou que estejam envolvidos em atividades de trabalho escravo, ou semelhantes ao trabalho escravo, é uma coisa que sempre esteve presente na minha vida. Agora que essa coisa do racismo está a tornar-se cada vez mais recorrente, eu pensei “bem, porque não aproveitamos essa ideia que já funciona bem para outras coisas e vamos incluir também a covardia do racismo nela?
Chegou ao Senado na semana passada. Há uma burocracia envolvida, foi aprovada na Câmara dos Deputados e está a chegar ao Senado agora. Mas eu acredito que não terá nenhum problema não, porque assim como na Câmara nós não tivemos muita contestação, eu acredito que no Senado também não vamos ter. É uma questão supra-ideológica. Não é pelo facto de um deputado ou um senador ser de esquerda, centro, direita, que ele não se vai sensibilizar com uma covardia como essa que os nossos atletas estão sofrendo. Acredito que vai passar no Senado sem problemas e que vai ser promulgada pelo Presidente da República e virar lei.