Há descontentamento com a democracia porque a escola está a falhar
- 24/04/2026 05:49
- Redação
Segundo uma sondagem recente, 49,3% dos portugueses dizem-se pouco ou nada satisfeitos com a democracia, enquanto 47,3% se mostram muito satisfeitos. Ainda assim, cerca de 80% consideram que este continua a ser o melhor sistema político.
Para Raposo, o primeiro ponto a reter é simples: “Ainda bem que estão descontentes e podem demonstrar esse descontentamento.” O comentador sublinha que esta liberdade de crítica é, em si mesma, uma prova da vitalidade do regime. “Esta conversa só é possível em democracia. Nas ditaduras não é possível, ponto final”, afirma.
No entanto, há um dado que o preocupa: cerca de 20% dos inquiridos mostram abertura a alternativas autoritárias. “É muita gente”, nota, associando este valor ao crescimento eleitoral do Chega. Mais surpreendente, diz, é a presença significativa de jovens entre aqueles que admitem preferir regimes não democráticos.
Para o cronista, este fenómeno levanta uma questão central: falhou a forma como a história recente está a ser ensinada. “A história é dada de maneira horrível nas escolas”, critica, apontando para uma abordagem excessivamente teórica e distante. Em vez de começar pelos períodos mais próximos e relevantes — como o século XX —, o ensino opta por conteúdos longínquos e pouco mobilizadores.
Raposo defende que falta criar ligação emocional com os alunos. Exemplifica com dados concretos: antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, cerca de 25% da população portuguesa era analfabeta; hoje, esse valor é residual. Em 1974, apenas 5% concluía o ensino secundário; atualmente, esse número ronda os 90%. O acesso ao ensino superior também se massificou — de cerca de 70 mil estudantes passou-se para centenas de milhares.
As condições de vida também mudaram drasticamente. “Só entre 30 a 40% das pessoas tinham casa de banho em casa”, recorda, sublinhando como a evolução material do país é muitas vezes ignorada pelas gerações mais novas.
Para Raposo, o problema não é apenas da escola. A crítica estende-se à cultura, à arte e às famílias, que, no seu entender, falharam na transmissão da memória coletiva. “Os miúdos hoje em dia não sabem como era o país nos anos 70, 80 e 90”, afirma.
O resultado, conclui, é claro: uma geração sem noção clara do progresso alcançado nas últimas décadas — e, por isso, mais vulnerável a discursos que desvalorizam a democracia.