Abril: antes e depois

  • 24/04/2026 18:15
  • Redação

24 abr, 2026 • Eduardo Oliveira e Silva, Luís Marinho, Luís Marques e Rui Pêgo

“As Crónicas…” ao vivo no Teatro-Cine de Pombal não poderiam deixar de querer saber como é que as comunidades locais se viram retratadas pelos Media na cobertura das recentes tempestades que assolaram tragicamente a região. E na presença de alunos das escolas locais e do vereador da educação do município, era imperioso saber como é que a comunidade educativa viu a cobertura dos Media, designadamente das televisões. Sentiram-se tratadas com respeito e cuidado? Que papel lhes atribuem na contribuição para o socorro às populações? E os órgãos de comunicação locais estiveram à altura da exigência?

As cheias de 1967 foram também dramáticas. Devastaram a região de Lisboa. A imprensa foi impedida de relatar a verdadeira dimensão da tragédia pela Censura do Estado Novo. O que é que os Média não puderam contar? Tudo, afinal. O número real de mortos; a miséria dos bairros de barracas na periferia pobre de Lisboa, onde a população vivia em condições sub-humanas; o desordenamento urbano e a ausência de saneamento básico; a inoperância inicial do Estado; o papel dos estudantes: a participação de 5000 estudantes universitários no socorro às populações foi quase ignorada. No fundo, controlar a narrativa. Tratava-se de outro país.

Estes dois eventos caracterizam de forma eloquente a diferença entre a realidade dos Média antes e depois do 25 de Abril. A Censura, antes; a Liberdade de Informação, depois. Mas o que determina as grandes alterações ao longo dos últimos 50 anos é a tecnologia. Viemos do papel. Vivemos num ambiente digital. Os jornais perderam influência, que começa logo na distribuição deficiente – a imprensa regional vive hoje dificuldades tremendas -; a rádio ganhou nova vitalidade com as plataformas digitais; a televisão multiplicou o número de canais e exibe uma agilidade nunca vista. As redes sociais vieram alterar completamente o paradigma da comunicação e introduzir um fator que domina este nosso tempo: a velocidade. A Censura foi um entrave, um obstáculo ao exercício do jornalismo. E sem Censura, a atividade ganhou autonomia crítica ou deixa-se, algumas vezes, aprisionar pelos diversos poderes? Com as redes sociais, desapareceu a mediação profissional, o que torna o combate à desinformação uma tarefa tremenda.

Os anos setenta do século passado eram outro tempo. A verdade é que o Império morava longe. A notícia da queda do Estado Novo chegou aos territórios africanos a “conta gotas”. Em Luanda foi a rádio que liderou o processo de informação com a divulgação, no próprio dia 25, de que havia movimentações não habituais em Lisboa. O Diário de Luanda, vespertino, informava no próprio dia 25, através de uma nota do Governador-Geral na primeira página: “notícias naturalmente confusas, chegadas de Lisboa, dão conta de ter eclodido um movimento cujas características não se conhecem ainda”. Fernando Santos e Castro era demitido dois dias depois. Estava oficializada a queda do regime na colónia. Nesse mesmo dia, a revista Notícia acrescenta na capa um “carimbo” que desfaz dúvidas: “Golpe militar em Lisboa”. Três dias depois, o jornal “A Província de Angola” ainda trazia na 1ª página “Visado pela Censura”. No campo de S. Nicolau (150 km a norte de Moçâmedes) a notícia chegou dias mais tarde por megafone: “Estão todos livres. Dentro de dias, vão poder voltar para vossas casas” (Ismael Mateus, jornalista, ex-preso)

As comemorações dos 50 anos do 25 de Abril terminam este ano. Nunca houve verdadeiramente um projeto, um desígnio nacional, recursos financeiros e até o falado Museu vai morrer antes de nascer. O 25 de Abril passará a ser assim uma espécie de 5 de outubro, de que já ninguém tem memória?

Em suplemento ao programa, nos Grandes Enigmas, quem é que gostaria de viver num país em que os acontecimentos são escondidos?

  • Fonte: Rádio Renascença
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