Presidente da CEP admite que luta pela unidade é prioridade da Igreja nos próximos anos

Presidente da CEP admite que luta pela unidade é prioridade da Igreja nos próximos anos

  • 25/04/2026 03:44
  • Redação

O novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Virgílio Antunes, admite que a Igreja Católica terá como foco manter a unidade, perante os riscos de cismas por parte de grupos conservadores e progressistas, opositores ao longo do processo sinodal.

Para tentar fazer face a esta luta interna e no seguimento daquilo que a Igreja Católica alemã já estava a fazer, o Papa Francisco aprovou um processo sinodal para auscultar todas as tendências a partir das bases, cabendo depois aos episcopados de cada país fazer a síntese, até que haja uma decisão do líder supremo do catolicismo sobre o que mudar.

Nalguns casos, como a ordenação das mulheres ou do celibato dos padres, foram nomeadas comissões para investigar se, no início do cristianismo, havia algumas dessas práticas, já que existem registos de sacerdotes casados e de mulheres indicadas por São Paulo para liderarem comunidades eclesiais.

Contudo, “as comissões depois chegaram a conclusões que não são de todo conclusivas”, admitiu o bispo de Coimbra.

Agora, é o tempo das decisões do Papa e “uns ficam mais felizes e outros mais desgostosos, porque não vai ao encontro daquilo que esperavam”.

Para esta clivagem interna contribuem as diferenças no seio da Igreja, com a Europa e a América Latina a pedirem mais tolerância e mudança de normas, até para combater a redução da prática religiosa, uma reivindicação que colide com outros continentes como África ou a Ásia, onde as comunidades e os episcopados que são mais conservadores.

Para Virgílio Antunes, as razões pelas quais muitas igrejas, sobretudo no Ocidente, estão mais vazias não tem a ver com os sacerdotes serem ou não casados, mas com a “secularização das sociedades ocidentais que experimentaram a viver sem sentido de Deus”.

Muitos católicos “viram que é possível viver sem ter um sentido forte da presença de Deus ou sem a dimensão religiosa da vida”, reconheceu o também bispo de Coimbra. E este risco permanece, avisou, dando o exemplo da Igreja na Alemanha, que tem assistido à saída de fiéis porque está a promover o caminho sinodal ou por esse mesmo caminho “não ter ido mais longe nas conclusões e nas decisões”.

Mas, além deste tema, Virgílio Antunes destacou outras prioridades para o mandato de três anos que agora inicia.

A evangelização, a proteção de menores e adultos em situação vulnerável ou a “denúncia daquilo que também corre mal nas sociedades” são algumas das prioridades, a par de “falar de algumas dimensões ideológicas que tem vindo a perturbar a vida da sociedade, nomeadamente a ideologia de género”, elencou o bispo de Coimbra.

Sobre os imigrantes, Virgílio Antunes salientou que o tema mostra a coesão da Igreja, que defende a integração e acolhimento, mas também a existência de normas legais claras.

Nesta entrevista à Lusa, o presidente da CEP diz que a recente polémica entre o Presidente dos EUA e o Papa Leão XIV foi "inútil e desnecessária" para todas as partes.

“Penso que foi uma nova polémica inútil e desnecessária, que não deveria ter existido porque não foi bom, não foi boa para ninguém, nem para os Estados Unidos, nem para a Igreja, nem para a realidade que se está a viver”, diz D. Virgílio.

"Não devem existir estes confrontos” que têm “um caráter muito pessoal”.

O presidente da CEP lamenta que existam políticos que pretendem “capturar o cristianismo” para o seu lado, “para justificar” perspetivas e ideologias, procurando “capturar a própria voz da Igreja, como se [a Igreja] tivesse que ficar aprisionada”.

Pelo contrário, a “Igreja é para todos e fala às pessoas de todos os partidos e de todas as ideias e ideologias”, pelo que “não pode ser capturada por nenhuma ideologia nem por nenhum partido”, mas também “tem de fazer um esforço para não se intrometer naquilo que são as questões mais" mundanas.

Cabe à Igreja fazer recomendações gerais, com exemplos concretos, explicou, dando o exemplo dos conflitos. “A guerra é uma questão fulcral para a vida da humanidade” e “falar de guerras só de uma forma genérica” acaba por perder efeito.

Por isso, o discurso contra a guerra na viagem a África “fazia todo o sentido”.

Para D. Virgílio Antunes, a viagem a África mostrou a força do Papa na cena mundial, naquele que foi o seu primeiro grande momento de exposição pública depois de ter sido eleito. Leão XIV “expôs-se totalmente, expôs as suas ideias, as suas perspetivas” e procurou “abordar as questões, mesmo as questões mais complexas”.

O seu discurso sobre direitos humanos, pobreza ou democracia mostraram uma “voz absolutamente lúcida e clara” de um “daqueles homens que trazem a energia toda”, comentou Virgílio Antunes.

Noutro plano, o novo presidente da CEP saúda a revogação da lei de identidade de género e diz esperar que o Governo abra de novo o debate sobre o modelo de ensino, que inclua contratos de associação.

Para Virgílio Antunes, não seria “justo permitir que pessoas menores possam tomar decisão de mudança sem estarem previstas determinadas condições”.

Diplomas do PSD, Chega e Livre foram aprovados na semana passada para revogar a lei existente, que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa, introduzindo limitações à prática em menores e exigindo pareceres médicos.

“Temos de ter muito cuidado quando se toca em algumas destas questões que põem em causa a própria estrutura da humanidade, quando se toca na pessoa humana”, justificou Virgílio Antunes.

Nesta entrevista à Lusa, o também bispo de Coimbra diz esperar que Governo reforce as verbas para a ação social. “Nós esperamos que venham a ser aumentadas as verbas das comparticipações através do Instituto da Segurança Social, concretamente para as IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social], muitas delas ou grande parte delas com tutela da Igreja”, que vivem em crónico subfinanciamento.

No plano da Educação, D. Virgílio Antunes lamenta a política do Estado que tem visado o ensino cooperativo e privado, colocando em risco financeiro muitos colégios católicos que tinham contratos de associação. “É evidente que nós, enquanto sociedade e Igreja, queremos um ensino que respeitasse todos, público, privado e cooperativo.

“Continuamos a pensar, como Igreja, que a liberdade de ensino deve ser respeitada e mais do que respeitada deve ser proporcionada”, sublinha.

Sobre a questão dos abusos, o bispo de Coimbra diz esperar que o modo como a Igreja Católica lidou com o assunto seja um exemplo para outras instituições em Portugal.

“Tem sido também uma aprendizagem, uma aprendizagem para a Igreja, uma aprendizagem para os bispos, uma aprendizagem para as próprias vítimas, mas para a sociedade”, com “esta forma de abordar a questão de frente”, afirmou o bispo, esperando que esta linha de ação seja “replicada, de facto, em muitas outras instâncias da sociedade, onde este problema existiu no passado e pode vir a existir no futuro”.

“É impossível resolver no coração de cada pessoa todas as questões, mesmo que os processos sejam muito seguros, muito bem delineados e muito bem conduzidos”, aponta.

A a Igreja portuguesa vai avaliar se mantém em funcionamento o Grupo VITA — estrutura de apoio psicológico às vítimas e definiu manuais de boas práticas — e as comissões diocesanas, mantendo como objetivo a “erradicação de qualquer forma de abuso” e “o acolhimento do tratamento e das pessoas que foram porventura vítimas”.

“Vamos ter um encontro brevemente para delinear o futuro”, após ouvir as todas as partes, após a conclusão do processo de compensações, que já estão a ser pagas.

Este foi um dos principais dossiês do seu antecessor, José Ornelas, e caberá a Virgílio Antunes encontrar o modo de criar estratégias de prevenção de novos casos.

“O tema das compensações está inserido numa questão muito mais vasta” e “foi uma forma de a Igreja manifestar que acolhe os testemunhos das pessoas que se quiseram manifestar, às vezes com grande sofrimento, depois de muitos anos a tentar calar uma mágoa que existia lá dentro”, explicou.

A compensação definida é um “sinal” que “ajudará algumas pessoas a ter a certeza de que a Igreja não as esqueceu e que inclusivamente está disponível para dar um contributo monetário que as ajudar, em alguns casos a ter uma vida de uma forma diferente”, com “tranquilidade e paz interior diferentes”, acrescentou Virgílio Antunes.

  • Fonte: Rádio Renascença
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