A “batatada” no Parlamento, a “cavalgada” na Constituição e um debate PCP-PSD. Memórias de uma jovem deputada e de um veterano
- 25/04/2026 08:00
- Redação
Nos 50 anos das primeiras legislativas livres, Gabriela Cabilhas do PSD e José Pedro Soares do PCP juntam-se no Parlamento para passar em revista as últimas cinco décadas do país político. Da educação (ou falta dela) nos debates parlamentares até à revisão constitucional e às memórias de Sá Carneiro, tentam unir o passado e o futuro da democracia. Eis um improvável encontro de gerações, com direito a provocações mútuas.
Ela só conhece o mundo já com quatro canais de televisão, ele ainda se lembra do “Conversas em Família” de Marcello Caetano na RTP a preto e branco. Ele cresceu numa vila recheada de analfabetos, ela nasceu num país com escolaridade obrigatória. Ela aprendeu a repudiar a tortura da PIDE nos bancos da escola, ele sofreu-a na pele em Peniche. Ele foi eleito num tempo em que ainda se boicotavam eleições, ela entrou no Parlamento já a fragmentação política era um dado assumido.
Embalados por fotografias que marcam o país político desde 1976, Gabriela Cabilhas, de 29 anos, e José Pedro Soares, de 76, lamentam a “batatada” e a “política de ‘show’” que se vive atualmente no hemiciclo, olham para os próprios partidos e tentam apontar causas para a mudança drástica do xadrez parlamentar e dividem-se sobre a revisão constitucional e a responsabilidade da Troika.
Pelo meio, comparam as cadeiras e os corredores da Assembleia entre 1976 e 2026, partilham o medo da primeira vez nos Passos Perdidos e quase se emocionam sobre o dia em que Sá Carneiro abraçou presos políticos do PCP.
Numa tarde de abril, quando os cravos vermelhos já se penduravam nas paredes do Parlamento, um veterano e uma jovem quebraram as fronteiras partidárias e ideológicas para coserem o início e o futuro da democracia. E no final até acabaram a concordar em discordar.
“Eu estava tão… tão intimidado”, relembra o comunista, quando chegou à Assembleia da República para tomar posse na Constituinte. Chegou ali pela mão de Álvaro Cunhal e dos mais altos quadros do Partido Comunista Português, que queriam um preso político conhecido entre o grupo de deputados.
No início da década de 1970, liderou e lançou a partir de Vila Franca de Xira (onde trabalhava como tipógrafo) células clandestinas sindicalistas. Ficou conhecido como um dos principais nomes contra o Estado Novo no Baixo Ribatejo e acabou preso em 1971. Ficou em Peniche mais de três anos.
“Nunca falei, nunca falei. Era para aí já a quarta noite não me dormia e trouxeram-me um conjunto de fotografias. Disseram-me: ‘Estás aí armado em herói, estás a ver estas pessoas? Estão todas a falar’. Mas eu disse que não conhecia ninguém, mas conhecia-os todos. Fui muito forte”, recorda, enquanto mira a fotografia de cadastro que lhe foi tirada em Peniche.
Ao longo dos mais de 36 meses atrás das grades, viu ser-lhe lançada uma campanha de solidariedade nacional e internacional, por parte da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e da Amnistia Internacional. Ficou conhecido entre o movimento estudantil – e isso motivou até visitas na prisão de deputados da chamada Ala Liberal do Estado Novo.
“Pinto Balsemão, Sá Carneiro e Pinto Leite foram visitar-me à prisão. O Sá Carneiro avançou e disse ao guarda: ‘Afaste-se eu sou deputado’. E ele começou a falar comigo e a primeira coisa que fiz foi despir a camisa e mostrar-lhe como estava o meu corpo. E deu-me um abraço”.
Para Gabriela Cabilhas, nada disto surpreende. Estudou a fundo o pensamento e a ação política tanto de Sá Carneiro como Pinto de Balsemão, dois seres de “grandiosidade” que eram capazes de dar lições de “humanidade” e de “luta pela liberdade”, para lá das fronteiras partidárias.
“É uma lição para quem, às vezes, invoca o regime, usando a saudade portuguesa para chorar por esses tempos de miséria, de horror, de tortura de prisão onde, muitas vezes, a fuga era o melhor destino possível. Isto mostra que os temos de continuar a lutar pela nossa democracia e liberdade”, aponta.
Entraram nos Passos Perdidos, pela primeira vez, na categoria dos sub-30 – José Pedro Soares com 25, pouco tempo depois de sair de Peniche (onde foi submetido a tortura de sono durante três semanas); Gabriela Cabilhas com 27, quando deixou a liderança da Federação Académica do Porto.
“A primeira vez que eu aqui entrei foi para vir tomar posse”. Estávamos em 2024 e a deputada do PSD nunca tinha estado no Parlamento. “Fez-me quase lembrar o primeiro dia de aulas, porque havia uma grande azáfama nos corredores, muitos deputados estreantes, muita emoção, energia, garra para desbravar caminho. E também trazia as preocupações da minha geração”.
“Eu sabia muito bem aquilo que eu queria dizer ao país. Sente-se uma tentativa de divisão, de virar os políticos contra o povo. Queria dizer que nós somos o povo e, portanto, não há uma divisão entre nós e eles”, aponta. Mas a união e a proximidade também começam nas bancadas parlamentares. “Os partidos precisam também de conseguir abrir portas, de se rejuvenescer e de captar também pessoas diversas”.
O caminho passa, considera, por dar “espaço aos jovens no local da decisão” – com representantes mais novos, mas também com políticas pensadas especificamente para a juventude. Um esforço que decaiu nos últimos anos, mas que também existia no início da democracia, diz José Pedro Soares.
“O problema do voto aos 18 anos, o problema dos jovens aprendizes – como modistas e costureiras – que queriam duas horas para estudar, o problema da guerra colonial e a integração dos jovens, porque acabaram as guerras. Foi isso que agarrei aqui há 50 anos”.
Na Sala do Senado, o cenário não mudou muito à primeira vista. As cadeiras “desconfortáveis” são semelhantes, a claraboia ampla continua a iluminar as bancadas e até o retrato de D. Luís I permanece imóvel por cima da tribuna. E não choca ter um rei pendurado no edifício mais republicano de todos. “A revolução de 1820 é que foi muito importante. Depois, já havia constituição e partidos”, aponta José Pedro Soares.
Entrou por esta porta, pela primeira vez, com 25 anos (hoje com 76), na altura da Assembleia Constituinte. Já irá contar-nos o que sentiu e pensou, o tipógrafo vindo de Vila Franca de Xira e que esteve preso mais de três anos em Peniche. Por agora, os olhos percorrem atentamente as bancadas e notam as diferenças de cinco décadas, tanto aqui como na Sala das Sessões.
À vista, há mais microfones – “antes tínhamos só uns 20 micros, andavam a passear entre as bancadas” – e também computadores para acompanhar as sessões. Longe dos olhos, as diferenças marcam-se no envolvimento dos cidadãos.
“Havia muita gente que escrevia para a Assembleia Constituinte a pôr os seus problemas de habitação, de desconforto, com muitas coisas. Era diferente. Muitas vezes, o professor Henrique Barros começava a sessão por aí. Um membro da mesa lia a correspondência. Era um património muito interessante, a forma como as pessoas se sentiram”, relembra.
Gabriela Cabilhas do PSD vai ouvindo atentamente estas memórias. 50 anos mais tarde, a ponte com a sociedade civil hoje já não tem o Parlamento como intermediário.
“Os algoritmos são muito mais permeáveis ao discurso de ódio, ao discurso que divide a acusações, ao medo, à intolerância e eu creio que o grande desafio hoje é ser moderado e, portanto, para mim hoje ser moderado é a nova rebeldia”, acredita a deputada do PSD.
O tema aparece naturalmente. Nos últimos 50 anos, o debate parlamentar já viu de tudo. Na altura da Constituinte, as atas são bem reveladoras da intensidade dos trabalhos, com muitas acusações entre a esquerda e a direita, principalmente entre as bancadas do PCP e do CDS-PP. “Da minha bancada, era uma coisa – que eu não gostava –, mas ouvia-se muito: ‘Reacionário’. Era tudo muito à flor da pele”, relembra José Pedro Soares que, no entanto, vê hoje uma diferença nos modos de discussão no parlamento.
Gabriela Cabilhas junta-se à reflexão – e se aponta o dedo ao Chega pelo “excesso”, também é capaz de se virar para dentro e lamentar que, entre as outras bancadas, também existam personalidades que respondem e ultrapassam os “limites do aceitável”. Em qualquer caso, acredita que os eleitores separam o trigo do joio no momento de colocar a cruz.
“Um político não pode ser medido pelo número de visualizações, ‘likes’, partilhas, vídeos… O político tem de ser medido e avaliado por aquilo que consegue mudar na vida das pessoas. Creio que o povo português continua a conseguir distinguir uma política de ‘show’ e uma política focada em darmos o nosso melhor para melhorarmos a vida das pessoas”.
Desde 1976, já houve sete revisões constitucionais – a mais relevante, em 1982, quando o Conselho da Revolução foi extinto e os partidos concordaram em flexibilizar o sistema económico e político, já depois de terminado o período mais acérrimo da revolução.
O tema tem voltado de quando em vez à discussão política e, nas legislativas de 2025, voltou a marcar a agenda, com a Iniciativa Liberal e o Chega a pressionarem o governo da AD a avançar com um processo, já que constituem uma maioria de dois terços no Parlamento.
“Creio que não pode ser nem por taticismos, nem por uma qualquer tentativa de usar a revisão da Constituição para ganhar espaço na agenda mediática, para ganhar espaço na agenda pública e, à custa da revisão da Constituição, cavalgar a onda do dia”, aponta, com uma fotografia da Constituição à sua frente.
Se o processo deve ou não incluir o PS, a social-democrata vinca que tanto os socialistas como o Chega têm de participar na discussão, dada a relevância no Parlamento – até porque excluir algum deles seria caminhar para uma Constituição “sem consenso” e pôr em risco o que foi conquistado até agora. “Eu creio que os portugueses estão pacificados com a nossa Constituição e creio que a revisão não será radical”.
José Pedro Soares não é tão afirmativo na necessidade de rever a Constituição, mas admite que tem de ser aperfeiçoada e atualizada: “Até nas nossas casas temos a necessidade ao fim dos meses de mudar o sítio onde estão as flores”. Mas o que não pode estar em causa são mudanças que venham “alterar o direito à greve”, “permitir a pena de morte” ou até “reduzir os deputados e trazer menos representatividade”. O texto atual, acredita o comunista, é aquele que os portugueses – e, principalmente, os jovens – “precisam”.
“Estão lá garantidos os direitos fundamentais o acesso à cultura, ao desporto à vida, à realização pessoal, a criação de condições políticas, económicas e sociais para que os direitos se realizem”.
A sensação é igual àquela que se tem quando dois primos são da mesma família, partilham o nome, mas não têm qualquer semelhança no rosto. Comparar a configuração parlamentar entre 1976 (depois das primeiras legislativas, a 25 de abril) com a atual (saída das eleições de maio de 2025) é perceber que pouco ou nada se mantém igual.
Naquela altura, havia 263 deputados; hoje, e desde a revisão constitucional de 1989, são 230. Em 1976, havia cinco partidos com assento parlamentar, ao passo que hoje o número duplicou: são precisamente dez. Há 50 anos, o PS tinha 107 lugares na Assembleia e a maior representação; atualmente, é o PSD com 91 e o PS, pela primeira vez, é a terceira força política. Também nas primeiras legislativas, o PCP conseguiu 40 deputados e foi o partido mais votado em três distritos; entretanto, reduziu para apenas três lugares.
Na leitura de José Pedro Soares, que mira a comparação dos deputados das duas legislaturas, a queda dos comunistas é “preocupante”, mas não é a análise mais grave que faz dos últimos 50 anos – para esse lugar, atribui as honras ao Chega.
“Um dia entrei numa taberna e estavam todos ‘eh, Ventura’. Fiquei tão magoado, que quase fiquei com vontade de chorar. As pessoas lutaram tanto pelos seus direitos, para os seus filhos frequentarem a escola, por terem os seus direitos profissionais, salário igual, trabalho igual, os direitos das mulheres. E agora aparecem coisas assim? Fico muito chocado”.
Sobre a redução eleitoral do PCP na última década, reconhece que a mensagem do partido “não está a passar” e reconhece que, no caso da guerra da Ucrânia, o partido meteu os pés pelas mãos ao início.
Esta é, para Gabriela Cabilhas, uma questão “inconcebível” e não consegue compreender os argumentos de quem diz que o PCP foi “marginalizado”. Quanto ao desempenho da esquerda nos últimos anos, é rápida a fazer um diagnóstico das razões para queda dos adversários.
“A esquerda afastou-se dos problemas reais, concretos, das pessoas. Para mim, nos últimos anos, esteve alheada, numa certa bolha e creio que isso traduziu-se naquilo que foi a expressão da indignação das pessoas”.
“O PSD continua a ser um partido muito pluralista, consegue incorporar também as diferentes sensibilidades dentro do seu espectro. É um reflexo da expressão do nosso povo e, portanto, eu creio que hoje nós estamos próximos daquilo que é a vontade e os anseios dos portugueses”.
Segundo uma análise feita pelo portal PTdata.org, a partir de dados da Assembleia da República, advogado é a profissão com maior representação entre os deputados (42), logo seguido de professores (35) e gestores (28). Segundo o portal Pordata da Fundação Francisco Manuel dos Santos, apenas 25 deputados dos 230 (cerca de 11%) não têm formação superior.
“Ai, antes era muito diferente”, compara o comunista José Pedro Soares. “Havia muitos operários. Hoje a composição social tem muitos jovens que passaram pelas faculdades e tiveram outra capacidade de intervir, de estudar, de investigar. Há um nível diferente de intervenção”.
Nessa altura, a variedade de vozes era tanta, que o ambiente era muito intenso, ainda para mais com problemas prementes para resolver, como “as muitas barracas que existiam”. Para isso, contou e muito o trabalho das comissões parlamentares, “essenciais” à redação da Constituição de 1976 – e que, ainda hoje, ficam à margem do conhecimento dos cidadãos sobre a política.
“É um trabalho que não tem a mesma presença no digital. Acontece muito nos bastidores e o que passa para fora é sempre o plenário”. Mas isso não tem de ser mau quando é necessário tomar decisões. “Há combate político também [nas comissões], mas há muito trabalho obviamente desta concertação e de um esforço conjunto em função das iniciativas”.
Para Gabriela Cabilhas, o pior da instabilidade política é o clima de “suspeição” e “desagrado” que habitualmente cria em torno dos políticos – e que mina a relação com os cidadãos. Daí, pedir cautela no uso da bomba atómica.
“Estabilidade política é essencial ao país e, muitas vezes, quando vemos que há um país político que está dissociado do país real, isso também é prejudicial para o estado da nossa democracia, para o funcionamento das instituições e para a confiança com que os portugueses também depositam nos políticos”.
“As pessoas foram muito prejudicadas, tirando-se os feriados foi um período muito difícil. Houve muitos direitos em causa. Foram medidas que se prolongaram muito tempo e coisas que só muito mais tarde é que foram resolvidas”.
À boleia de uma fotografia de José Sócrates e de Teixeira dos Santos em 2011, quando aprovaram o programa da Troika, Gabriela Cabilhas lamenta que este momento não esteja mais vezes na cabeça dos deputados, como um lembrete de responsabilidade e de respeito por quem está em casa a assistir aos debates parlamentares.
“Às vezes, estamos num debate a ver quem é que dá mais, quem é que propõe mais, quem é que tem mais medidas a apresentar. Este foi um período em que os portugueses passaram por um período de amargura, desespero e grandes dificuldades. Esta prudência é muito importante, o equilíbrio das contas públicas”, aponta.
Sobre a responsabilidade destes tempos, as opiniões dividem-se: para Cabilhas, é exclusivamente de Sócrates; para José Pedro Soares, o PSD também tem culpas no cartório. As visões dividem-se aqui. Como em muito mais do sistema político:
José Pedro Soares: É a Constituição. Ela é tão ampla que apontava um caminho para o Socialismo que até voltou para trás, para a integração monopolista do capitalismo.
Gabriela Cabilhas: Eu só posso dizer: ainda bem que o caminho não foi para o socialismo. A pessoa está primeiro e só depois é que vem o Estado. A pessoa deve ser o centro de todas as políticas.
José Pedro Soares: Isto deve acontecer no Parlamento, estas opiniões diferentes.
Nisto concordam. Depois de 50 anos de Parlamento democrático, é o que fica: a liberdade de pensamento.