"Não tenho a certeza se os corredores europeus de hidrogénio darão certo"

"Não tenho a certeza se os corredores europeus de hidrogénio darão certo"

  • 27/04/2026 11:50
  • Redação

Para ser verdadeiramente autónoma, a Europa deve ter uma maior coordenação e integração dos seus sistemas de energia. Esta é a mensagem-chave de um estudo divulgado na última sexta-feira pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em parceria com a Brookings, um instituto de reflexão global com sede nos Estados Unidos. O tema vai ser debatido numa conferência em Lisboa, na próxima quarta-feira.

Samantha Gross, especialista em segurança energética da Brookings e coautora deste estudo, alerta para a necessidade de uma partilha de custos entre europeus para que os preços baixos da eletricidade, motivados pela aposta nas energias renováveis, cheguem a todos. Noutro plano, coloca reservas aos projetados corredores europeus de hidrogénio, como o que se planeia entre Portugal e a Alemanha.

Quando pensamos em interligação, estamos mais interessados na infraestrutura. Existem linhas ou gasodutos a ligar diferentes países ou regiões. Já a integração diz respeito ao mercado como um todo, se a infraestrutura está a funcionar, principalmente no setor elétrico, para garantir que todos têm acesso à eletricidade a partir das fontes mais baratas atualmente disponíveis.

A interligação é uma questão de infraestruturas, e a integração está ligada às condições de mercado, permitindo que essa infraestrutura funcione da melhor forma possível para reduzir os preços para todos.

No vosso relatório, defendem uma maior integração energética, mas detetam vários obstáculos. Estes estão mais no domínio das interligações ou do mercado?

Na verdade, estamos a falar de ambos. Há áreas onde são necessárias mais infraestruturas para permitir que os países comercializem, sobretudo, eletricidade de forma mais eficiente para ambos os lados. Mas algumas das razões pelas quais estes projetos não são construídos são de natureza política, sejam políticas nacionais ou a nível da União Europeia.

Não creio que a questão da integração se resuma às fontes externas de energia. Trata-se de integração, e não de independência. Para fazer face a crises energéticas como a que o mundo atravessa atualmente, se a Europa puder utilizar toda a sua energia, tanto a produzida internamente como a importada, de forma mais eficiente e distribuí-la da forma mais eficaz possível, isso tornará todos mais seguros e, idealmente, a energia mais barata.

Mas não haverá o risco de trocar uma dependência energética russa por uma americana, sobretudo ao nível do gás natural liquefeito (GNL), num contexto de instabilidade na relação transatlântica?

Compreendo perfeitamente o que está a dizer e que o governo dos EUA se tornou recentemente um pouco mais difícil de lidar e mais propenso a utilizar o nosso fornecimento de energia de forma coerciva.

A maior parte do gás natural da Rússia vem por gasoduto, o que é praticamente um "casamento". Temos a Rússia de um lado e a Europa do outro, e não há realmente para onde mais este gás possa ir.

Já em relação à construção de instalações de importação de GNL – que é como a Europa está a obter gás americano – os europeus também podem comprar gás noutros locais. Não estão presos aos EUA da mesma forma que estariam se houvesse um gasoduto a ligar os dois países.

Costumo falar no Qatar. No entanto, esta não parece ser uma opção muito boa neste momento. Há também a Austrália. Existem produtores de GNL em África. O GNL é produzido noutros sítios.

A crise energética mundial é um fator que pode acelerar a integração na Europa?

Isto torna tudo ainda mais importante, porque a ideia por detrás da integração é utilizar e dar preços à energia da forma mais eficiente possível, utilizando um mercado integrado para distribuir essa energia da forma mais sensata.

Sempre que ocorre uma crise, surge mais um argumento a favor de uma melhor integração, porque o objetivo é tornar toda a operação mais eficiente.

Esta é uma crise bastante grave. Representa aproximadamente a mesma quantidade de GNL perdida a nível global que a Europa perdeu em 2022, quando a Rússia desativou os seus gasodutos. Isto acresce ao problema que a Europa ainda enfrenta com a perda de gás natural por gasoduto.

Portanto, isto representou um grande golpe para o gás natural no fornecimento europeu. A integração é uma forma de tentar utilizar os recursos disponíveis e distribuí-los de forma mais eficiente.

O vosso estudo argumenta que a integração poderá poupar milhões de euros aos europeus. Pode explicar?

Um mercado integrado que funcione bem permitiria aos europeus comprar eletricidade, a qualquer momento, a partir de qualquer lugar onde seja produzida a um menor custo. Muitas vezes, isto significa energia solar na Península Ibérica ou energia eólica no Mar do Norte e nas áreas próximas.

Se o mercado estiver suficientemente integrado, o preço de equilíbrio do mercado será, mais frequentemente, proveniente de fontes renováveis. E todas estas energias renováveis podem ir para onde são necessárias, sem estarem limitadas ou com preços de eletricidade muito baixos em zonas com grandes quantidades de energia renovável. Em vez disso, esta energia pode ser partilhada.

Neste tipo de sistema, o gás natural raramente define o equilíbrio dos preços no mercado, o que é muito importante atualmente. Nesta altura a eletricidade é mais cara na Europa, quando o gás natural dita o preço. Portanto, idealmente, uma maior disseminação destas energias renováveis, quando disponíveis, pode reduzir os preços no geral.

Esse é o problema fundamental. Se analisarmos quem beneficia e com que frequência, é inegável que é benéfico para a UE no seu todo. Mas os benefícios são distribuídos de forma desigual e nem sempre chegam aos mesmos países ou regiões ao mesmo tempo. E isso torna muito difícil decidir quem paga estes projetos.

Acho que essa é a parte mais difícil e o maior desafio para uma maior integração. Não vejo ninguém disposto a suportar todos os custos.

Mas há projetos específicos que fazem claramente muito sentido do ponto de vista económico ou que foram considerados prioritários pelos governos por razões de segurança e que estão em curso.

Passei algum tempo a analisar as ligações entre a Península Ibérica e a França. E isso sempre foi difícil por causa dos Pirenéus. É tecnicamente mais difícil e mais dispendioso enviar uma linha de transmissão de energia elétrica sobre os Pirenéus. Mas existe um projeto de linha submarina em curso. Portanto, não se trata apenas de barreiras técnicas, mas também, por vezes, de barreiras físicas.

Mas, projeto a projeto, é possível encontrar financiamento. No entanto, quando se apresenta a fatura completa entre 2026 e 2040, parece inultrapassável. É algo que precisa de ser abordado peça a peça, analisando sobre quem recaem os benefícios em cada etapa.

Falou da ligação entre a Península Ibérica e o resto da Europa. Mas França parece não ver sentido nessa ligação e tem colocado muitos obstáculos há muito tempo.

As autoridades francesas têm-se preocupado com o facto de os benefícios para Espanha e Portugal serem maiores do que para a própria França. Mas poderá ser uma combinação realmente interessante entre o sistema energético francês, mais baseado na energia nuclear, e a elevada penetração das energias renováveis na Península Ibérica. No entanto, seria necessário calcular o fluxo de benefícios em cada direção e encontrar uma forma de o financiar.

Penso que os franceses se têm preocupado particularmente com a sua disponibilidade para construir projetos, para além das dificuldades de construir algo através dos Pirenéus, e querem encontrar uma alternativa.

Qual a relevância de Portugal e Espanha congregarem terminais de GNL neste contexto? Parece uma estrutura ainda desaproveitada.

As taxas de utilização são inferiores à média da UE. Isto deve-se em parte ao facto de, também no setor do gás, a Península Ibérica ser algo insular. Tendo especialmente em conta as crises de gás que estão a ocorrer em locais que perderam o fornecimento por gasoduto, o GNL tornou-se mais importante para a Europa como um todo.

Por isso, estes terminais, incluindo os de GNL, em toda a Europa, passaram a representar uma parcela mais significativa do fornecimento total de gás europeu. Portanto, uma maior capacidade de fornecer mais gás através destes terminais em Espanha – e creio que existe um em Portugal – é mais importante para o abastecimento europeu do que era no passado, quando chegava muito mais gás por gasoduto.

Existe certamente um maior potencial para Portugal absorver gás natural, dado que os Estados Unidos são a maior fonte de GNL no mercado atualmente. Os EUA também eram essa fonte antes de perdermos o gás do Qatar. Mas existem outros compradores aos quais poderia comprar.

Tornou-se muito importante que os produtores americanos estejam próximos. Os tempos de transporte são bastante curtos, especialmente quando comparados com os da Austrália.

Este é um mercado menos lógico para o gás australiano, simplesmente porque tem um longo caminho a percorrer. E, em parte, a Europa, e consequentemente Portugal, está muito ligada aos Estados Unidos devido à proximidade. Faz todo o sentido em termos de custos de transporte e tempo de deslocação.

Mas não tem de ser apenas uma ligação transatlântica. Estes portos podem importar GNL de qualquer lugar que o produza. Mas, devido à sua localização, os EUA têm sido um fornecedor lógico.

É uma boa pergunta. Penso que muitas pessoas na área das políticas públicas querem realmente que o hidrogénio seja a solução para muitos problemas, particularmente o hidrogénio verde, em que se utiliza energia renovável para separar os átomos da água.

O desafio é que o hidrogénio verde será sempre um produto caro de produzir, pois utiliza muita energia renovável. Portanto, é preciso estar numa região com um grande excedente de energia renovável para que um negócio de hidrogénio verde em grande escala faça sentido.

Creio que a razão pela qual se fala num gasoduto de hidrogénio que ligaria a Península Ibérica ao coração industrial da Alemanha, seria uma ligação de uma zona altamente industrializada a uma região com elevada produção de energia renovável.

No entanto, este plano ignora um pouco a ideia de que haverá competição por esta energia verde, uma vez que também se pretende utilizá-la para abastecer Espanha e Portugal.

Tenho sentimentos contraditórios em relação a estes corredores de hidrogénio. Não tenho a certeza se darão certo. Compreendo o entusiasmo em relação ao hidrogénio, pois é uma substância que atua e queima de forma muito semelhante a um combustível fóssil, sem produzir emissões de gases com efeito de estufa. Mas é também um produto que consome muita energia para ser produzido.

Por isso, acredito que o hidrogénio é um ótimo produto para situações em que se precisa realmente de algo semelhante a um combustível fóssil, mas não será a solução ideal para tudo, pois será sempre caro.

O vosso relatório cita um estudo que concluiu que, até 2040, 60% da rede europeia de gasodutos de hidrogénio poderia ser constituída por linhas de gás natural reconvertidas. E estima-se um investimento de 240 mil milhões de euros em redes de hidrogénio até 2040.

É uma questão complexa. Eu não fiz esse estudo, apenas o citei. Mas um dos desafios da utilização de gasodutos para hidrogénio é que o hidrogénio é uma molécula minúscula, muito difícil de manusear, e danifica a metalurgia de muitos gasodutos.

Portanto, a razão pela qual os gasodutos necessitam de operar a uma pressão mais baixa, por exemplo, quando transportam hidrogénio – ou mesmo quando não o conseguem transportar – depende da metalurgia destas tubagens, pois o hidrogénio é uma molécula traiçoeira.

Gostaria de ver estudos adicionais e compreender melhor a composição de cada gasoduto e como se comportará no transporte de hidrogénio. Mas é útil ter pelo menos a opinião de um estudo sobre o futuro desta área. Mas não creio que este estudo seja necessariamente a palavra final.

No projeto de “Autoestradas da Energia”, apresentado por Ursula von der Leyen no ano passado, há oito áreas prioritárias, incluindo a construção de um corredor de hidrogénio no Sul, ligando o Mar do Norte ao Mediterrâneo. E um outro corredor de hidrogénio no Sudoeste, de Portugal à Alemanha.

Acho que a parte do hidrogénio é mais aspiracional. Os projetos que Von Der Leyen colocou sob essa designação estão lá porque são projetos a longo prazo. Não são propriamente projetos de resultados rápidos, são muito mais focados na resolução de problemas estruturais a longo prazo, alguns deles em áreas como os Balcãs, que estão na periferia da UE. Há muito trabalho, tanto em termos de políticas como de infraestruturas, que precisa de ser feito para os integrar ainda mais.

Ou para os países bálticos, que só recentemente se ligaram completamente à rede europeia – e estão a ser ainda melhor ligados, garantindo a sua segurança energética, tendo em conta a sua posição histórica.

Assim sendo, não esperaria muitos resultados rápidos apenas alguns meses após o anúncio destas políticas pela presidente von der Leyen, simplesmente porque são concebidas como aspirações a longo prazo, visando a resolução de problemas estruturais.

Depende de projeto para projeto. Se observarmos os Estados Bálticos, por exemplo, todos são a favor de uma maior integração com a União Europeia. Trata-se apenas de concretizar projetos e encontrar financiamento. Não falta vontade política para que estas coisas aconteçam. Já nos Balcãs, por exemplo, existem alguns problemas com as políticas, porque esses países estão parcialmente na UE e parcialmente fora dela.

Existem diferenças entre os projetos, variando se há coisas que precisam de ser feitas, se a vontade política está claramente presente e se a base política está estabelecida. Além disso, alguns deles também enfrentam questões políticas. Eu usaria os Balcãs como um bom exemplo disso.

O vosso estudo exclui a abordagem à Ucrânia, quando há várias pressões para a entrada na União Europeia nos próximos cinco anos. Porquê?

Isso não foi incluído, porque baseámos o documento sobre a integração no projeto anunciado pela presidente Von der Leyen, simplesmente porque era uma boa forma de abordar o tema e fornecer alguns exemplos indicativos.

Penso que há muitas interrogações sobre o futuro do sector energético ucraniano. Na verdade, passei algum tempo na semana passada a conversar com um analista ucraniano sobre a situação atual do fornecimento de eletricidade e gás na Ucrânia. Está em constante instabilidade, num cenário de bombardeamento contínuo. É uma batalha constante para manter o fornecimento e para substituir o que está avariado.

A minha intuição diz-me que, como o sistema energético ucraniano se encontra atualmente em modo de sobrevivência, é difícil elaborar planos a longo prazo em que o documento se concentrava e que eram as prioridades da presidente von der Leyen.

É claro que a União Europeia, e especialmente alguns dos países vizinhos, têm estado muito focados em manter o sistema energético da Ucrânia em funcionamento. E também o facto de a Ucrânia se ter sincronizado a rede elétrica da UE logo após o início da guerra, demonstra definitivamente um certo empenho da UE em ajudar.

Mas penso que a integração a longo prazo com a rede da UE pode ser um passo muito à frente. Neste momento, o sistema energético da Ucrânia está numa espécie de modo de sobrevivência.

O estudo lembra que a UE fixou uma meta para todos os Estados-membros para que tenham capacidade de transmissão transfronteiriça suficiente para importar ou exportar 10% da sua procura de eletricidade até 2020, valor que sobe para 15% até 2030. Mas também assinalam que há seis países da Europa continental que ainda não cumpriram a meta de 2020 — França, Grécia, Itália, Países Baixos, Polónia e Espanha. São estes que estão a bloquear verdadeiramente a integração energética europeia?

É verdade que, por várias razões que variam de país para país, certas nações não se sentiram impelidas a construir os projetos, seja porque acham que os seus vizinhos poderiam beneficiar mais do que elas, ou porque isso varia de lugar para lugar. Mas é verdade que estes países ficaram para trás na construção de capacidade de interligação e os motivos também variam de lugar para lugar.

Escrevem que a questão do armazenamento de eletricidade que, de acordo com o relatório, está subrepresentada nos planos de integração e investimento da UE. Porquê?

Confesso que fiquei um pouco surpreendido por não ter visto o armazenamento incluído nos planos de integração. Talvez isto se deva ao facto de o armazenamento ter sido considerado numa diretiva diferente ou num conjunto distinto de planos - a UE tem muitas diretivas e planos, como pude constatar nas minhas pesquisas.

Talvez o foco esteja noutro lugar. Mas acho mesmo que é importante. Se o que se pretende é que as energias renováveis forneçam eletricidade com a maior frequência possível, o armazenamento é mais uma forma de o fazer.

Em vez de exportar o excesso de eletricidade renovável, pode armazená-la e utilizá-la mais tarde. Vejo o armazenamento e a interligação como duas formas diferentes de atingir este objetivo económico. Pretende-se que as energias renováveis definam o preço de equilíbrio do mercado tanto quanto possível, porque isso torna a eletricidade mais barata, especialmente num mundo onde o gás natural é muito caro na Europa. E o armazenamento é mais uma forma de o fazer.

Isto facilita a integração. Ajuda a suavizar o fornecimento, em geral. E, portanto, o armazenamento é sempre uma boa ideia, desde que seja acessível.

Mas requer resolver alguns dilemas, pois apresenta algumas resistências locais sobre a exploração de materiais críticos.

O armazenamento é uma coisa boa. Provavelmente vale a pena discutir algumas questões como as baterias, o que nos leva ao lítio. As baterias são ótimas para armazenamento intradiário, ou seja, para armazenar a energia solar produzida durante o dia para suprir o pico de consumo à noite, quando chegamos a casa, vemos televisão e fazemos outras coisas.

Mas não são tão boas para armazenamento a longo prazo, ou para armazenamento sazonal, por exemplo. É difícil, é muito caro ter tantas baterias para um armazenamento sazonal.

Outro ponto que gostaria de salientar é que não se trata apenas da presença de reservas de lítio, que são excelentes. A maior parte do processamento de novos materiais energéticos está concentrada na China. E também é verdade que a China é líder mundial na produção de baterias, se considerarmos o armazenamento de energia.

Portanto, nos Estados Unidos e também na Europa, estamos a pensar muito em como podemos trazer de volta para os nossos países - para perto de nós ou para países parceiros - mais destas indústrias, para que possamos produzir mais destes produtos.

A China partiu um pouco ‘na frente’ neste aspeto, mas, principalmente se estivermos a falar de uma região com bons recursos para diversas coisas, isso não significa que não possamos fazer este tipo de fabrico e extração de materiais em locais que não sejam a China ou que não tenham ligações a Pequim. Mas, neste momento, a China está realmente na liderança nestas tecnologias.

Regressando ao relatório, ele passa "de raspão" na questão do apagão de há um ano na Península Ibérica. Qual é a lição que retira deste evento?

Vou dizer-lhe o que percebi dos engenheiros de sistemas de energia, porque eu sou engenheira, mas não eletrotécnica. Pelo que percebi, as energias renováveis não foram a causa imediata do apagão. A causa imediata do apagão foi o facto de os equipamentos em torno destas fontes de energia não serem tão modernos, ou capazes como deveriam ser, para ajudar a estabilizar a rede.

Portanto, não é que a estabilização da rede fosse impossível. Acontece que, em Espanha, muitas instalações de energia renovável não eram obrigadas a ter, nem possuíam, os inversores mais modernos que poderiam ter ajudado a manter a rede estável.

Portanto, é uma simplificação excessiva dizer que o apagão foi causado pelo excesso de energia renovável, o que terá levado à instabilidade da rede. Será mais correto dizer que estas fontes de energia renovável não foram construídas e não possuíam os equipamentos necessários para proporcionar a estabilidade de rede que deveriam.

Isso, na verdade, é ótimo, porque é um problema que tem solução. Se instalar equipamentos mais modernos à volta destas fontes de energia renovável, capazes de ajudar a manter a rede estável, não terá este tipo de problemas. É isto que os engenheiros de sistemas de energia me dizem.

Certamente gostaria que isto não tivesse acontecido, mas pelo menos é um problema que sabemos como resolver. E isto resolve-se com equipamentos mais modernos para estas fontes de energia renováveis, à medida que transferem a sua eletricidade para a rede.

A Península Ibérica tem boa penetração de renováveis. No vosso relatório recordam que energias renováveis são a fonte de energia mais económica, atendendo a que têm custos marginais extremamente baixos. Podemos assistir a uma diminuição do preço da eletricidade? E a que se referem com o alerta sobre os custos sociais e económicos desta transição?

Quando pensamos em tentar reduzir os custos da eletricidade em toda a União Europeia, este é certamente um objetivo nobre que torna as economias em geral mais competitivas. Mas, neste tipo de esquema, a eletricidade não é mais barata para todos a todo o momento.

Por exemplo, se tiver preços de eletricidade muito baixos em locais com muita energia renovável durante o dia e se, por exemplo, distribuir esses preços por uma área maior, pode haver algumas pessoas em situação um pouco pior, porque essa energia ficou concentrada numa área geográfica específica.

Portanto, quando pensamos em quem vai pagar isto, há benefícios que são amplamente distribuídos, mas precisamos de pensar em como distribuir tanto os custos dos projetos como os benefícios desses projetos de uma forma justa e que não prejudique as pessoas cujos preços da eletricidade podem subir e que não podem suportar isso.

Há sempre o desafio de fazer investimentos que dão retorno no futuro, mas que precisam de ser pagos agora. E se nem todos estiverem sempre em melhor situação, é preciso pensar em como lidar com aquelas pessoas cujos preços podem subir em determinados momentos e que podem não conseguir suportar isso.

  • Fonte: Rádio Renascença
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