Quando a luz falha, eles continuam ligados. Como se vive fora da rede elétrica?

  • 28/04/2026 01:48
  • Redação

Quando o país fica às escuras, há casas onde nada muda. É como se vivessem num apagão constante — não por acaso, mas por escolha. Em diferentes pontos de Portugal, há quem tenha construído a sua própria rotina sem depender da rede elétrica.

É como se vivessem num apagão constante. Produzem a própria energia com painéis solares, captam água de nascentes e organizam o dia em função da natureza. Têm luz, máquina de lavar roupa e internet, “o básico de conforto e luxo”, dizem, mas sem depender de um sistema que pode falhar.

Martelos, pregos, aparafusadoras e um tico-tico foi tudo o que Alice e André Montanha precisaram para erguer o lugar onde hoje vivem. Em 2016, decidiram virar a vida do avesso e adotar o apelido “Montanha” — que, conta Alice, nasceu do desejo de “traçar um caminho novo” e da vontade de “subir para ver o que está lá em cima”.

As paredes que revestem o lar onde hoje vivem já ouviram passos de crianças e lições do passado. Hoje, estes pedaços de madeira fazem parte de outra história. Um conto que se escreve entre o cantar dos pássaros, o sussurro das folhas, os cantares da pequena Celeste e os risos do irmão Aldo.

Este “pequeno paraíso” fica a 15 minutos de Amarante. Para lá chegar, o carro fica a 500 metros do caminho: o resto faz-se a pé, descendo até ao vale. Junto à casa, o silêncio do campo é interrompido pelos saltos das crianças no trampolim.

A 130 quilómetros, mas noutro ritmo e noutro cenário, a história repete-se com outra paisagem.

O latir do cão é a campainha que avisa a chegada. Joana Costa e Yassine Benderra vivem há 16 anos rodeados do Parque Nacional da Peneda-Gerês. O terreno que sustenta as raízes da casa era leira de cultivo, terra que acolhia o milho, o feijão e o centeio.

Joana estudou Microbiologia e Yassine Osteopatia. Depois de anos a percorrer o país, chegaram ao Soajo, por recomendação de amigos. Bastou um passeio pela serra para escolherem ficar. Foi nesse instante que perceberam que aquele era o lugar onde queriam assentar.

Joana estava grávida quando chegou à vila dos 24 espigueiros. O nascimento do primeiro filho foi celebrado pelos soajeiros, “habituados a ver partir” — há décadas que não nascia uma criança numa casa da vila. Até o jornal local escreveu sobre a nova criança, símbolo “do regresso à terra”.

Mas não vieram sozinhos. Depois de comprarem o terreno, “vários amigos acampavam e ficavam fins de semana, meses”, naquilo que acabou por se transformar em permanência. Com o tempo, alguns desses visitantes também compraram terrenos e casas, e foram ficando, dando continuidade a um movimento que mudou discretamente a dinâmica da aldeia.

“Uma mina, um tanque e uma nascente” era tudo o que tinham quando compraram o terreno. A casa foi sendo construída ao longo dos anos, “integrada no vale, com materiais naturais e baixo impacto energético”, contam as mãos de Joana, Yassine e de quem por ali foi passando para ajudar.

A entrevista é interrompida por um apagão interno — a luz da casa falha, mas não há alarme, nem grande surpresa. Foi apenas um inversor do sistema elétrico, instalado recentemente, que está com um problema por resolver. Yassine levanta-se e vai tratar do assunto, com calma.

Não há uma realidade única, nem um modelo fechado. É uma forma de organizar o dia a dia sem depender da rede central de energia e abastecimento, e sem abdicar totalmente do conforto moderno, mas vivendo dentro dos limites do que é gerado.

É a partir desta lógica que estas duas famílias estruturam as suas casas e a sua rotina, ainda que com soluções diferentes em cada caso.

A energia é o primeiro eixo desta vida fora da rede, e em ambas as casas começa no mesmo ponto: o sol.

Na casa de Alice e André Montanha, um pequeno sistema solar alimenta o essencial do dia a dia. Os dois painéis permitem usar máquina de lavar roupa, frigorífico, eletrodomésticos, carregar dispositivos e ter internet. A energia acumula-se em duas baterias de chumbo recicláveis, uma opção escolhida por ser menos impactante do que o lítio, que implica maior degradação ambiental.

A consciência energética é um dos pilares deste estilo de vida: quanto menor o consumo, menor a dependência. A herbalista e o engenheiro agrónomo acreditam que não se deve ficar preso em excesso às tecnologias e que é possível “ter o básico de conforto e luxo, tendo consciência do consumo energético e daquilo que implica a nossa relação energética com o meio envolvente.” Essa lógica chega também ao quotidiano das crianças, “que sabem que têm de desligar a lâmpada senão não podem carregar a Nintendo”.

Na casa de Joana e Yassine, oito painéis solares instalados no telhado acumulam energia numa bateria de lítio, reaproveitada de um carro elétrico — “uma bateria que era nova”, contam, mas cujo veículo “teve de voltar para trás”. É o suficiente para uma vida energeticamente “muito simples”: lâmpadas durante todo o ano, carregamento de telemóveis, computadores e ferramentas, e um frigorífico, mas só no verão.

A horta funciona como principal fonte de alimentos frescos, complementada por idas semanais ao mercado. A alimentação organiza-se em torno do que é colhido e consumido no momento. Como não comem carne ou peixe, os produtos lácteos tornam-se a principal exceção à regra.

No verão, o queijo e a manteiga passam para um pequeno frigorífico recentemente adquirido. Até aí, eram guardados numa caixa colocada numa nascente, onde a temperatura se mantém constante.

Com o passar dos anos, este equilíbrio entre produção e consumo foi exigindo novas alternativas e adaptações. O sistema elétrico que instalaram recentemente passou a permitir algo que até há pouco tempo não era possível: “Ter uma máquina de lavar a roupa com temperatura e aquecer a água para tomar banho.”

“Haver água pura e boa com abundância” é, para Yassine, a maior riqueza do lugar onde vivem. A nascente, “que corre o ano todo”, serve para tudo: beber, cozinhar, regar a horta ou usar na casa de banho.

A água vem diretamente da mina através de tubagens que a distribuem por todo o terreno, por via de um sistema de reservatórios desenhado para funcionar “por gravidade, sem recurso a energia”. Tudo foi pensado ao detalhe, incluindo a localização da casa: se estivesse mais acima no terreno, explicam, “seria necessário bombear a água e voltar a depender de energia.”

Também aqui nada é deixado ao acaso. As águas cinzentas, da loiça ou dos banhos, são encaminhadas para uma estação de tratamento de água com plantas: uma “ETAP”. Plantas macrófitas como bananeiras, agapantos e lírios, filtram a água através das raízes, absorvem nutrientes, ajudam a oxigenar a água e devolvem-na ao solo já purificada, fechando o ciclo.

Um ciclo que só funciona porque, desde o início, simplificaram tudo o que entra na água: os sabonetes, feitos por Joana à base de azeite e plantas, são biodegradáveis e não contaminam.

E é na contaminação que as águas cinzentas se distinguem das águas negras, que resultam da casa de banho e incluem fezes e urina. A opção por casas de banho secas elimina esse tipo de resíduos do sistema, reduzindo a complexidade do tratamento.

O nome é autoexplicativo: se é seca, não há água. Em vez de descarga, os resíduos são depositados num compartimento seco e cobertos com material estruturante, como serrim ou serrilha, que ajuda a controlar odores e a iniciar o processo de decomposição.

Depois, os resíduos são recolhidos e seguem para compostagem. Para já, este é o sistema que usam, mas estão a desenvolver uma alternativa: uma sanita convencional, com água, ligada a um filtro ecológico natural, ou seja, um sistema de saneamento que recorre a minhocas e microrganismos para tratar as águas residuais negras.

Também em Amarante, no lar de Alice e André, se utiliza o mesmo sistema de gestão e tratamento de águas. A diferença está na água de consumo, que nesta casa passa ainda por um filtro lento de gravidade antes de ser bebida.

A história do casal Montanha, que agora se escreve com dois filhos, e um terceiro a caminho, começou depois de um ano a viver na Invicta.

Tinham pouco mais de 20 anos e uma carrinha que era casa e que, tal como uma andorinha, migrava de lugar em lugar, até que escolheram as margens do rio Zêzere, na Serra da Estrela, para passar o Inverno. Tencionavam arranjar um terreno para estacionar a casa e ter uma horta. A comunidade acabou por lhes ceder uma quinta com uma casa, em regime de comodato (empréstimo gratuito), durante seis meses.

Sem água corrente nem eletricidade, numa pequena casa no Sameiro, em Manteigas, Alice não se lembra “de estar tão em paz”. A água vinha da fonte e era transportada num carrinho de mão; acordavam com o sol e deitavam-se com ele, em harmonia com os ciclos da natureza. Viviam à luz das velas e partilhavam a mesa com a comunidade, que lhes abria a porta e “mostrava a vida real”.

Quando esse período terminou, mudaram-se para outra casa também cedida pela mesma comunidade, a casa onde viriam a ter o primeiro filho.

O nascimento de Aldo trouxe-lhes a necessidade de uma estrutura maior. Depois de dois anos entre montanhas e vales da Serra da Estrela, mudaram-se para Portalegre, também em comunidade e sem pagar renda, vivendo da terra. Mas foi a maternidade que despertou em Alice “uma grande vontade de voltar para casa”: Amarante, a cidade onde cresceu e onde queriam que a vida continuasse a crescer.

Em 2021 mudaram-se para um terreno da família de Alice, então “um mato impenetrável de carvalhos e silvas”, bem diferente daquilo que é hoje. Escolheram a dedo o sítio onde construiriam a casa: um lugar exposto a sul, onde o sol escolhe estar mais tempo. Durante a construção, viviam na autocaravana. Foram precisos apenas cinco meses — entre novembro e março de 2022 — sem eletricidade nem gerador. André trazia as ferramentas carregadas e a “necessidade ensinou a contruir”. A única exigência de Alice era “ter uma casa de banho a sério com água quente”. E assim foi.

Hoje, Alice e André ainda recorrem ao gás através de esquentador para aquecer a água, mas no verão optam por outra solução: tubagens instaladas no telhado, onde a água aquece com o calor do sol.

Na casa de Joana e Yassine, o sistema é mais antigo e mais testado pelo tempo. Um conjunto de tubagens permite escolher a forma de aquecimento da água consoante a época do ano, alternando entre energia solar, lenha e, mais recentemente, gás.

O método mais usado, sobretudo no inverno, continua a ser a “bailarina”, um cilindro a lenha onde se faz fogo para aquecer cerca de 90 litros de água, utilizados depois em banho de imersão. “É o nosso luxo”, descrevem, embora exija tempo: o processo pode demorar entre 30 minutos e uma hora até estar pronto.

Com as rotinas das crianças, especialmente os treinos de basquetebol três vezes por semana, o sistema foi sendo ajustado. Este ano instalaram um esquentador, algo “que nunca tiveram". A mudança surgiu da necessidade de adaptar o tempo da casa a dias com rotinas mais exigentes.

Ainda assim, mantêm as restantes soluções, e, paralelamente, continuam a testar e ajustar sistemas, numa lógica permanente de adaptação.

No futuro, o fogão a lenha, já usado para aquecer a casa e cozinhar durante o inverno, deverá também ser integrado no aquecimento de água, funcionando como uma espécie de sistema central que alimenta a casa de banho.

Opções não faltam e a lógica mantém-se: a construção de sistemas que se adaptam às estações do ano e diferentes rotinas.

Na casa de Joana e Yassine, no inverno o fogão a lenha tem trabalho a dobrar: aquece a casa e serve para cozinhar. No verão, a lógica muda para a cozinha solar: um forno fechado com refletores que concentram a energia do sol e permitem cozinhar apenas com calor solar. A panela é colocada no interior e a comida faz-se ao ritmo da luz. “É uma rotina diferente, tens de preparar o almoço ao pequeno-almoço”, contam. Quando não há tempo, recorrem a um fogão a gás.

A família ainda está a trabalhar num sistema mais eficiente para o verão, onde a energia solar possa substituir por completo o gás.

Na casa de Alice e André, o princípio repete-se. Sem lareira em casa, no inverno o “fogão a lenha aquece a casa toda” e serve para cozinhar. É nele que Alice faz o almoço, rodeada de umas quantas panelas e dos filhos que, enquanto a mãe cozinha, jogam cartas na mesa. Vão se levantando de vez em quando para ajudar, mexendo o caril de lentilhas com os cogumelos que colheram. No forno a lenha fazem-se os rissóis, ao mesmo tempo que se trata dos caldos de legumes e outras infusões.

Nos dias mais quentes, quando o fogão a lenha deixa de ser necessário, recorrem ao gás, enquanto o sistema de biogás ainda não está totalmente funcional.

O biogás resulta da decomposição de matéria orgânica — restos de comida, folhas, resíduos agrícolas ou mesmo excrementos e urina — em ambientes sem oxigénio.

Para isso, é criado um espaço fechado e estanque, chamado digestor, onde vivem bactérias específicas (metanogénicas) responsáveis por transformar essa matéria orgânica em metano. Esse metano pode depois ser captado e usado como energia para cozinhar, aquecer ou produzir eletricidade.

Apesar de o objetivo ser a autossuficiência total, Alice e André reconhecem que todo este processo “é longo e demorado”. E no que toca à alimentação, apesar de no primeiro ano André ter conseguido trabalhar na horta todos os dias, tornou-se gradualmente mais complicado conciliar com o trabalho diário. Ainda assim, o sistema foi-se estabilizando: as árvores de fruto crescem, e a diversidade de recursos naturais vai aumentando com o tempo.

No meio da construção, a infância acontece sem pressa. Aldo, em ensino doméstico, e Celeste, que frequenta o infantário, correm livremente de pés descalços, riem, ouvem e conversam. Depois do almoço, há uma rotina definida: uma hora reservada aos ecrãs. Ao fim do dia, seguem-se atividades como ballet, taekwondo ou música, a poucos minutos de casa.

Depois do almoço, há uma rotina definida: uma hora reservada aos ecrãs. Ao fim do dia, seguem-se atividades como ballet, taekwondo ou música, a poucos minutos de casa.

Ainda assim, tudo é vivido com a consciência de que a liberdade não depende apenas do lugar onde estão. “Se eles um dia quiserem voltar para a cidade, a liberdade da natureza vai sempre com eles”, dizem os pais.

Munido de um cinto de montanha, uma lanterna na cabeça e um pau na mão, Aldo, de sete anos, encontra no trabalho da horta o melhor momento do dia. Ainda não sabe o que quer ser quando for grande, mas responde com convicção que gostava de fazer “agricultura”. São pensamentos para o futuro, “para já, os pais são grandes por ti, depois quando fores grande logo saberás”, respondem.

Celeste, de cinco anos, gosta de brincar e de fazer festas aos gatos e às cadelas. “Brinco muito, mas nos prédios não”, diz, como quem já distingue dois modos diferentes de viver o mundo.

É também nesta vivência diária que ganha sentido a forma como olham para o território. “Esquecemo-nos de que a terra nos serve, mas nós também a temos de servir”, diz Alice. “Culpam a planta porque dizem que é invasora, depois culpam a chuva porque foi demais, depois culpam o vento porque é muito forte, tudo isto… em vez de olhar para nós próprios e pensarmos: temos de construir o nosso meio ambiente de outra maneira.”

No terreno de Alice e André, essa vulnerabilidade do território é pensada à escala da paisagem. André desenvolve uma agricultura baseada em espécies perenes e em sistemas agroflorestais, onde diferentes culturas convivem no mesmo espaço. “Estamos protegidos”, dizem, referindo-se à floresta que envolve a casa e funciona como barreira natural ao vento, sendo o lar da família Montanha protegido pelo efeito de orla que os bosques fazem.

Ainda assim, reconhecem que o sistema “ainda não está perfeito”, sobretudo no que toca à gestão da chuva e da drenagem. O projeto da casa foi pensado desde o início em função da paisagem, mas continua em adaptação constante. Exige preparação antes da chegada das chuvas mais intensas. “Desentupimos as valas, compusemos os buracos”, contam, numa tentativa de preparar o terreno para os episódios extremos.

Esta forma de viver estende-se também à forma como olham para os diferentes elementos do sistema. “As cabras têm uma função, as minhocas têm uma função, os cavalos têm uma função, e nós? Deixámos de ter uma função?”, questiona Alice. E resumem: “Somos os jardineiros da terra e devemos zelar pela qualidade de vida de todos os seres vivos, mas não, a nossa função tem sido a de destruidores do mundo.”

Mesmo as escolhas tecnológicas são vistas com essa lente de consciência: o sistema de energia solar, sublinham, “não deixa de ser baterias com metais”, lembrando que a autonomia também implica impacto e escolha.

Essa visão não fica apenas no plano das ideias. Traduz-se diariamente na forma como organizam o terreno e trabalham a terra. Na gestão do espaço agrícola, a lógica afasta-se de práticas mais convencionais. “Enquanto há quem faça queimadas por esta altura, nós fazemos estruturas”, explicam, descrevendo o que chamam de “engenharias naturais”.

Em vez de deixar os restos de poda ou troncos a decompor-se lentamente ou simplesmente queimá-los, utilizam um biotriturador. A máquina transforma a madeira em estilha, um material que depois é espalhado no solo, junto às culturas hortícolas e frutíferas. O objetivo é devolver matéria à terra e acelerar o seu processo natural de regeneração, alimentando o solo com aquilo que dele veio.

O ecossistema da quinta estende-se aos resíduos orgânicos. Além da Estrela e da Lobita, os companheiros de quatro patas que seguem os passos da família, há outro “exército” menos visível: as minhocas.

O prato favorito destes invertebrados são as cascas de frutas e legumes cruas, mas não só: “também gostam muito de papéis e cartões”. Mas para que servem? Vermicultura. Um processo de reciclagem de resíduos orgânicos através das minhocas. O resultado? Vermicomposto, um fertelizante natural de alta qualidade para enriquecer solos sem recurso a produtos químicos.

Mais do que uma solução alternativa à compostagem tradicional, trata-se de um sistema eficiente, sem odores e que não exige grande espaço. Nesta quinta, quase todo o ciclo dos resíduos orgânicos é fechado dentro do próprio terreno. “O mais difícil de gerir é o plástico”, mas André já tem uma solução em vista para o futuro: “Cogumelos que o ‘comem’ e conseguem processá-lo”.

No entanto, antes da gestão dos resíduos, o desafio começa na própria produção. Alice e André reconhecem que vivem com limitações logísticas: “Se calhar, se estivéssemos numa zona como o Porto, era mais fácil ir a lojas a granel”, referem, sublinhando que, apesar dos esforços, “ainda há muito a melhorar”.

Também no caso de Joana e Yassine, a produção de lixo é reduzida ao mínimo. O papel é reutilizado — ou serve para acender o fogo ou entra diretamente na compostagem — e os resíduos orgânicos são encaminhados para as galinhas, que os transformam em composto posteriormente usado na horta e nas árvores. No final do mês, dizem, sobra pouco mais do que “um saquinho de lixo”.

Há mais de uma década a viver off-grid, Joana e Yassine descrevem um quotidiano onde “há sempre o que fazer”, precisamente porque um ecossistema regenerativo exige trabalho constante. Ainda assim, sublinham que o sistema instalado já não implica uma manutenção intensa e “é muito eficiente”.

“Não temos uma vida de agricultor”, explica Yassine. Produzem parte da sua alimentação e cuidam do terreno, mas não dependem exclusivamente dele para viver. As galinhas exigem atenção diária e o sistema das casas de banho secas pede manutenção semanal, tal como a horta. O resto vai sendo ajustado ao ritmo das estações.

No caso de Alice e André, o processo ainda está numa fase mais exigente. Há apenas quatro anos no terreno, o dia a dia continua a pedir uma presença constante e um esforço mais manual. “Cortar lenha, acender o fogão, garantir que está tudo a funcionar — canalização, parte elétrica, etc.”, descrevem. A rotina ainda impõe bastante dedicação e, por isso, contam muitas vezes com a ajuda de vizinhos e voluntários que participam nos diferentes projetos da casa.

O percurso de Joana e Yassine ensina isso mesmo. “Quando começas um sistema como este exige muito trabalho, mas agora é mais gerível e não precisa tanto da nossa manutenção”, explicam. A lógica da permacultura está precisamente aí: “criar sistemas que, com o tempo, se tornem cada vez menos dependentes” da intervenção humana, funcionando em equilíbrio com os ciclos naturais.

É neste equilíbrio entre trabalho, adaptação e tempo que entra a permacultura como base de leitura de tudo o que fazem.

Joana explica: “Permacultura é um sistema de design de ecossistemas humanos sustentáveis”, que integra desde as construções e abrigos até à produção de alimentos, gestão da água, relações com outros seres vivos, organização social, economia e energia. No fundo, é “um desenho destes assentamentos baseado em determinados princípios e éticas que conseguem ser mais sustentáveis e harmoniosos”.

Ou seja, um sistema que faz com que a vida “humana e natural seja mais equilibrada, usando os recursos que existem”.

Mas fazem questão de sublinhar que não é um modelo exclusivo de quem vive fora da rede. “Não é preciso estar off-grid para praticar a permacultura”, dizem. E vão mais longe: “Estar ligado à rede pode ser mais ecológico do que não estar ligado à rede”.

Na prática, pode começar numa casa em cidade. “O que fazes, o que compras, como vais para o trabalho, que interações tens com a cultura, hortas comunitárias, projetos cooperativos”, enumeram. A ideia passa por uma maior autonomia dentro do sistema, tornando o quotidiano mais comunitário e mais próximo do que “era há uns tempos atrás”, explica Yassine.

Para Yassine, o impacto ambiental mede-se sobretudo pelo consumo. “O maior impacto em relação ao ambiente, vivendo num apartamento, é o que consomes, especialmente a nível de comida”, afirma, lembrando que a agricultura industrial continua a ser uma das principais fontes de pressão sobre os ecossistemas e sobre a saúde humana.

O exemplo que dá é simples: em vez de comprar produtos importados no supermercado, como o abacate, optar por produção local — “um vizinho aqui em Vila Verde”, exemplifica —, valorizando circuitos curtos e preços mais justos para quem produz.

No centro desta visão está um princípio-chave: fechar ciclos. “Sempre que conseguires fechar um ciclo não estás a desperdiçar energia, estás a transformar energia”, resumem.

A permacultura não se limita ao terreno onde é praticada — também se traduz em formas de partilhar conhecimento e acompanhar quem quer dar os primeiros passos noutro modo de vida.

Mais do que casas desligadas da rede, são espaços ligados a outro sistema: o dos ciclos naturais, da energia que se gere, da água que se devolve e dos resíduos que regressam à terra. Não há ausência de tecnologia, mas uma tentativa de a colocar em equilíbrio com a natureza.

Entre inversores que falham, fogões a lenha que aquecem casas inteiras e sistemas ainda em construção, estas famílias vivem num processo permanente de adaptação. Não há um modelo fechado. Há um caminho em aberto onde a autonomia se constrói todos os dias.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: