Pedrinho, o 10 do Shakhtar que não tem saudades dos gritos de Jesus e que aprendeu a admirar o povo ucraniano

Pedrinho, o 10 do Shakhtar que não tem saudades dos gritos de Jesus e que aprendeu a admirar o povo ucraniano

  • 29/04/2026 09:15
  • Redação

Pedrinho olha para os ucranianos à sua volta com admiração. Com a invasão russa que se vai perpetuando e que vai caindo na hierarquia da atenção mediática, o futebolista aprendeu a ver no outro a virtude da “superação”. Afinal, o povo ucraniano mantém "o sorriso e está firme" perante a agressão do vizinho.

Em conversa com Bola Branca diretamente de Lviv, o número 10 do Shakhtar celebra, apesar de todas as adversidades, um “feito histórico”: o clube de Donetsk está em primeiro lugar do campeonato, com mais dois pontos do que o Dynamo Kiev, e na semifinal da Liga Conferência. Segue-se o Crystal Palace, da Premier League, na quinta-feira.

O jogador, nascido em Maceió há 28 anos, reflete sobre a paciência no futebol, ou a falta dela e como isso pode traçar o fado de um jovem futebolista, lembra Jorge Jesus no Benfica, lamenta a falta de sorte no clube (tanto dele como de Cebolinha, um “irmão”), e dispensa uns elogios para Roberto de Zerbi, o atual treinador do Tottenham. Finalmente, descreve o que sentiu quando a guerra estalou em 2021.

Realmente foi um grande golo, fui muito feliz na conclusão da jogada. Sabemos que esse jogo seria diferente, contra uma grande equipa e que se fizéssemos o golo o quanto antes poderíamos sair com a vitória, então o jogo estava muito apertado, muito difícil. Acabei por ser muito feliz, acertei um grande chuto e fiz um golaço.

Está a ser uma grande temporada: semifinal da Liga Conferência e liderança da liga ucraniana. O que podem pedir mais?

Sim, está a ser uma grande temporada, não só para mim como para os meus companheiros e equipa técnica. Temos de terminar da melhor forma possível, temos dois títulos para disputar. Tenho a certeza que temos capacidade e qualidade para conquistar os dois. É um momento importante da temporada, temos de dar tudo.

Sabemos da grandeza deles, vai ser um jogo dificílimo, estamos num grande momento. Se fosse para acontecer, teria de ser neste momento, porque estamos mentalmente preparados, trabalhamos forte para poder surpreender e quem sabe cavar essa vaga na final.

Como é que se compete a este nível num país em guerra? Como é possível render e ter a cabeça limpa?

Tem sido uma aprendizagem muito grande para todos nós. Somos a única equipa que não tem casa própria para jogar [Shakhtar não joga em Donetsk desde 2014], viajamos sempre, muitas horas, para podermos jogar. Isso só engrandece ainda mais o feito que estamos a fazer. É um feito histórico, importante para nós, porque não é fácil viver com tudo isso, com sirenes a tocar, com viagens e muitas outras coisas que acontecem, e mantermo-nos com um nível alto. A gente está aqui para isso, estamos preparados. Vamos traçando grandes objetivos e grandes jogos para podermos estar com a cabeça limpa e poder desfrutar dentro de campo.

Com esse contexto todo e pensando no passado, não está tão bem física e mentalmente ou acha que está no topo das suas condições?

Estou no topo. Sou um jogador mais experiente, com a cabeça no lugar, sei diferenciar as coisas, mesmo quando as coisas não correm bem fora de campo, seja politicamente, seja com a guerra, com a questão familiar... A gente tenta, dentro do campo, desfrutar um pouco. Ali, dentro do campo, é o que nos torna felizes. Claro que num jogo pode acontecer muita coisa, vitória e derrota, mas sempre sonhámos desde pequenos tornarmo-nos jogadores, porque é isso que nos motiva e alegra, então tentamos colocar as dificuldades de lado. Como falei, diante de todas essas coisas, é um dos melhores momentos, como equipa e como jogador, por isso tenho de aproveitar e desfrutar desse momento.

Enquanto preparava esta entrevista, dei conta de que está sem a família. Já lida melhor com essa questão? Passa muito tempo sozinho?

Neste momento estou com a família. Passei um ano sem eles e, no início do ano, resolvi trazê-los. Como você disse, não é fácil viver sozinho e eu passei muito tempo sozinho desde a formação. Agora foi um pouco mais difícil, porque tenho dois filhos e tenho a minha esposa. Conviver um ano longe deles foi um pouco complicado. Para esta época, decidimos assim, sabemos do risco, das consequências, das viagens que acabamos por ter e ficamos longe deles, porém tenho a certeza que isso me tem ajudado bastante. Tê-los perto motiva-me ainda mais para render dentro do campo.

Imagino que essa história toda que está a viver aí, como país e comunidade, crie uma ligação diferente do que viveu em Portugal. Essa carga toda à sua volta oferece uma ligação maior às pessoas?

Sim, realmente. A gente vive tantas coisas aqui, convivemos e vemos a luta dessas pessoas, acabamos por nos colocar no lugar deles. Acabo por ter um carinho enorme pelas pessoas que aqui estão, pelas pessoas que trabalham, como fazem tudo acontecer no meio de uma guerra, isso acaba por te fazer ganhar uma admiração enorme.

Chegou com 21 anos a Portugal e disse que queria mostrar o seu talento. A perceção de talento mudou, agora que é um jogador feito?

O que me fez tornar jogador foi esse talento, a versatilidade, creio que sou um jogador de muito drible, muito passe. Quando cheguei ao Benfica foi um grande passo, infelizmente não tive as oportunidades que queria ter. Cheguei num momento complicado, era pandemia, era muito jovem, havia jogadores de alta qualidade naquele Benfica. Cheguei querendo demonstrar o meu futebol. Infelizmente, foi por pouco tempo. Tive algumas lesões. Tenho gratidão ao Benfica, a todos os portugueses, porque Portugal também é uma maravilha, dentro do campo e fora. Não pude sentir o calor dos adeptos do Benfica, que até hoje acompanho, tenho amigos aí ainda. Foi uma experiência maravilhosa que eu queria muito que tivesse dado certo.

Sim, nós até dizemos que aqui o Shakhtar tem outra cultura. É a única cultura que atrai muitos jovens, com muito talento e acaba por utilizá-los pouco a pouco, por isso é que aqui acaba por dar mais vezes certo. A média de idades da nossa equipa é 22, 23 anos, são muito jogadores jovens que dão certo aqui e noutros clubes não. Aqui é onde há mais paciência, tranquilidade, você tem de moldar o jogador. Não é do dia para a noite, você sai do Brasil e já tem de render o seu máximo. Tem de ser passo a passo, o progresso. Isso é que torna um clube grande, por conseguir evoluir os seus jogadores dentro da equipa.

Sim, sim. O futebol hoje é assim, desde novo você tem de lidar com a pressão. No Corinthians subi com 18 anos e a pressão era enorme. Isso faz-nos evoluir e crescer também como homem, como pessoa. Acho que sou hoje um jogador muito mais experiente por tudo o que eu passei, não dá para reclamar. É levar como uma aprendizagem, sejam as coisas boas ou ruins, o futebol é desse jeito. Se não dá certo num lugar, você tem de ter a cabeça fria para poder dar certo noutro.

Estreei-me antes, esse foi o primeiro jogo como titular. Foi uma experiência única e mágica. É um clube por quem tenho uma enorme gratidão, fiz a formação toda lá e pude estrear-me [na equipa principal]. Você acaba por lidar com pressões bem cedo no futebol e isso deixa-te mais experiente dentro das quatro linhas.

Curiosamente, o Corinthians tem agora um treinador, o Fernando Diniz, que fala muito nisso, de o futebol mastigar os jogadores e cuspir se não renderem logo. Se calhar era um treinador desses que precisava na altura...

O futebol é isso, você tem de mostrar o mais rápido possível o que tem de melhor, senão aparece outro jogador, as coisas mudam e acontecem coisas que não temos como controlar. A muitos jovens, ou até atletas experientes, não lhes corre bem num clube e dá certo noutro e perguntamos “porque é que ele deu certo aqui?”. Às vezes tem-se um pouco mais de paciência, tudo interfere para que você possa mostrar o seu futebol.

Há um estilo de treinador ideal para um jovem? O Pedrinho apanhou Jorge Jesus aqui, toda a gente sabe como ele é, a exigência, os gritos, e também teve Felipão, mais paizão. É melhor um ou outro estilo para o jovem?

Nunca vai haver um treinador que seja perfeito. Quando eu cheguei aqui era muito jovem, o treinador era o Roberto de Zerbi. Era um treinador que sabia diferenciar as coisas, porque não dá para ser um treinador só bonzinho e que não te vai agregar nada. Nós dizíamos que o de Zerbi era um cara louco do bem [risos], porque ele acabava por cobrar ao extremo, mas também, do lado de fora, ele falava contigo como ser humano. Quero assinalar quem temos aqui hoje, o Arda Turan. Se o vires no campo, é um treinador que cobra, grita, tudo, mas você tem de saber lidar.

Há jogadores que dão resposta com o grito, há outros que não dão essa resposta. Sempre falámos disso do Jorge Jesus, ele está o tempo todo no grito grito grito [sorrisos] e há jogadores que não se adaptam ao estilo dele. Tem de se encontrar o meio termo, não dá para expor o jogador de qualquer forma dentro do campo, porque querendo ou não perdes a confiança. Se o treinador não dá confiança ao jogador, ele acaba por perdê-la. Há jogadores que acabam por ter dificuldades com isso, há que saber diferenciar o momento certo de cobrar e ajudar. Há muitos jogadores jovens que precisam disso. Ter a cobrança que o futebol exige, claro, porém em certos momentos você tem de baixar a guarda e ensinar realmente como quer e deseja, assim dá resultado.

Estava a ouvi-lo e lembrei-me do Everton Cebolinha, que se calhar achava que vinha virar isto do avesso. O futebol às vezes não tem explicação.

Dentro do campo, havia muitas diferenças do futebol brasileiro para o futebol português?

Em Portugal, as três grandes equipas, ou quatro, têm muita diferença para as outras. No Brasil tudo se assemelha um pouco. Hoje, Flamengo e Palmeiras acabam por ter um nível mais alto, mas as restantes equipas têm um nível muito igual, então acabam por ser jogos muito disputados, de muita qualidade, essa é a diferença. Em Portugal são sempre os mesmos a brigar ali, Benfica, Porto, Sporting e o Braga. Há mais igualdade no Brasil, vai haver jogo e não sabes quem vai ganhar. É mais difícil o futebol brasileiro por isso.

Quando entrevistei o Darijo Srna, há uns meses, ele falou-me que alguns jogadores passaram noites no carro. Isso aconteceu-lhe?

Sim, sim, tive muitos momentos assim. Quando toca a sirene, você tem de estar resguardado por motivos óbvios, pode acontecer alguma coisa, algum drone pode cair. Quando a sirene toca descemos para o carro e ficamos horas ali, duas ou três horas. Aconteceu comigo no ano passado, a minha família estava aqui. Eu morava num prédio alto, no 19º andar, e por segurança eu acabava por descer e ficava na garagem com os meus pais. Isso fez com que eles voltassem para o Brasil, não se sentiam seguros. São essas as maiores dificuldades. Muitas vezes, a gente tem um treino no outro dia às 8h da manhã e dormimos no carro essa noite. Pouca gente vê essas dificuldades, isso faz muita diferença.

Por isso perguntava no início como é que se compete com essas condições. É admirável.

Uma vez, íamos jogar, ficámos no bunker das 3h da manhã às 9h e tínhamos o jogo às 2h da tarde. Como é que se joga numa situação dessas? Tens de jogar, há risco de lesão, é muito difícil. Porém, estamos aqui, temos de passar por isso.

A Ucrânia viveu o inverno mais frio dos últimos 20 anos. Teve problemas no aquecimento ou no acesso a água?

Tive falta de luz. Muitas vezes, ou eles [russos] destruíam ou até era a cidade que economizava. Houve momentos em que ficámos sem energia e tentávamos dormir o mais cedo possível para a situação passar mais rápido. Uma, duas, três vezes aconteceu isso... Graças a Deus, ultimamente não tem a acontecido essa poupança de energia. Faz com que tenhamos um dia a dia mais tranquilo, mas são esses fatores que acabam acumulando, uma coisa aqui, outra coisa ali. Acaba por desgastar. Por isso digo: se não estamos bem dentro do campo, isso acaba por influenciar ainda mais. Se estás bem dentro do campo, acabas por esquecer um pouco esses problemas.

Lá atrás, em 2021, tocou a sirene pela primeira vez e começou a guerra, a gente não sabia o que era uma guerra realmente, só víamos isso antigamente, achávamos que não existia. Tivemos de correr para sair do país o quanto antes, acho que foi a única vez que passámos por uma situação bem complicada. Acabámos por ficar quatro dias no bunker. Depois, conseguimos sair. Ficou marcado em mim.

Senti, na verdade senti bastante medo, pela minha filha, que era bem nova, tinha dois ou três meses. Era muito complicado. É o que dizemos: não adianta ter dinheiro, ter tudo e depois não saber como você vai assegurar a sua vida e a dos seus familiares. Era o maior medo que eu tinha, ter a minha família ali comigo e não poder protegê-los como eu queria.

Vendo como as pessoas a olham aqui, fortalece-nos cada vez mais. Havia gente que ficava no bunker de um dia para o outro e às 7h da manhã tinha de trabalhar, e às vezes reclamamos da nossa vida de uma forma... e não conhecemos a luta das pessoas. Com os ucranianos vamos aprendendo isso, a superação. No meio dessa dificuldade, o desporto é o único momento que dá alegria, por isso tentamos dar o nosso melhor. Com tantas dificuldades, vemos os ucranianos a sorrir, felizes e alegres, e não conhecemos a dor dos outros. Há gente que perdeu mãe, pai e família na guerra e, mesmo assim, no dia a dia mantém-se forte e firme para superar tudo isto.

Foi maravilhosa. Venho de uma família muito humilde, os meus pais sempre deram tudo para eu me tornar uma pessoa feliz. Por isso, tenho muita gratidão pela minha infância. Quando estou de férias, quero sempre voltar a Maceió, é uma cidade que amo, estou com os meus amigos e família, e relembro um pouco dessa infância que tive nas praias. Foi onde eu fui mais feliz na minha vida e sempre que dá eu volto para aproveitar mais.

Ganhar a Conference League e o campeonato ucraniano, é o meu objetivo principal [sorrisos]. Passo a passo, com humildade.

  • Fonte: Rádio Renascença
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