Polémica em Veneza. Júri da Bienal de Arte bate com a porta
- 30/04/2026 13:56
- Redação
A poucos dias da abertura da Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, todos os elementos do júri apresentaram a demissão, anunciou esta quinta-feira a organização.
O protesto acontece uma semana depois de o painel ter comunicado que não atribuiria prémios a artistas da Rússia ou de Israel.
A Bienal de Veneza não avançou qualquer justificação oficial para a decisão, que representa uma escalada dramática num diferendo que mergulhou um dos mais prestigiados eventos de arte contemporânea do mundo em polémica, a poucos dias da abertura, marcada para 9 de maio.
O júri, composto por cinco membros e presidido pela curadora brasileira Solange Farkas, afirmou na semana passada que, “em defesa dos direitos humanos”, não iria considerar obras provenientes de países cujos líderes enfrentam acusações no Tribunal Penal Internacional (TPI).
O Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de captura contra o Presidente russo, Vladimir Putin, no âmbito da guerra na Ucrânia, e contra o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, devido ao conflito em Gaza.
A decisão de excluir os dois países foi criticada em alguns setores. O artista israelita presente em Veneza, o escultor Belu Simion Fainaru, acusou o júri de discriminação racial e ameaçou avançar com ações legais.
O evento tem estado no centro de uma tempestade política e mediática desde o início de março, quando os organizadores anunciaram que permitiriam o regresso da Rússia à exposição pela primeira vez desde a invasão da Ucrânia por Moscovo, em 2022.
O Governo italiano tem sido fortemente crítico dessa decisão, enquanto a Comissão Europeia afirmou que poderá terminar ou suspender um financiamento de 2 milhões de euros caso o pavilhão russo reabra este ano.
O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, recusou recuar, afirmando que o festival é “um espaço de coexistência para todo o planeta”, sem censura.
A aumentar a pressão, o Ministério da Cultura enviou na quarta-feira inspetores a Veneza para recolher informações sobre o processo que levou à readmissão da Rússia, procurando eventuais falhas burocráticas que possam servir de base para revogar o convite.
A Bienal não criticou o júri pelo boicote aos artistas russos e israelitas, sublinhando que o painel — que incluía também Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi — atuou com “total autonomia e independência”.
Ainda assim, os organizadores anunciaram que, pela primeira vez, os visitantes poderão escolher os seus artistas favoritos entre todos os participantes, incluindo os da Rússia e de Israel. A cerimónia de entrega de prémios será também adiada para o final do evento, em novembro, em vez de decorrer já na próxima semana.
Não é, para já, claro quem irá escolher os vencedores dos principais prémios Leão de Ouro e Leão de Prata, nem se as obras de Israel e da Rússia voltarão a estar na corrida.