Pequeno Jamor consagra Ermesinde. "Estão reunidos os ingredientes para o futebol distrital ter mais visibilidade"

  • 04/05/2026 12:40
  • Redação

É domingo e nem a chuva impede os adeptos do Ermesinde de levar por diante o piquenique preparado para o Parque do Sameiro, em Penafiel. Faltam poucas horas para a final da Taça da Associação de Futebol (AF) do Porto, em que o favorito Ermesinde defronta o FC Vilarinho. O Sameiro de Penafiel está transformado num pequeno Jamor, onde o porco no espeto é sócio de outros comes e bebes, e do ribombar do bombo executado pelo jovem Alexandre.

“Tenho 16 anos, estou aqui desde os meus três anos, nesta vida...O bombo, bandeira, tocha na mão, é tudo”, esclarece enquanto bate no bombo.

Mais abaixo, na Avenida do Estádio, está a família Ribeiro, vinda de Vilarinho, freguesia do concelho de Santo Tirso. O mais normal seria que pai, mãe e filho se juntassem à mesa, em casa ou no restaurante, para assinalar o primeiro domingo de maio, mas o almoço do Dia da Mãe está na bagageira do carro.

“O meu pai era sócio número 1, fundador do clube”, sublinha com orgulho, antes de mostrar confiança numa surpresa na final: “Conto com a vitória a 100%. Sei que o Ermesinde tem melhor equipa do que nós, mas a vitória, acho que hoje vai ser nossa. Com humildade e com muita força vamos ganhar.”

O otimismo é partilhado pelo filho: “O que eu quero que o Vilarinho ganhe. A gente vem para os copos, para o Dia da Mãe e para o Vilarinho ganhar, é claro!”

José Manuel Neves, presidente da AF Porto, está confortável com o nível da organização.

“Hoje é um dia muito importante para a Associação, é um dia muito importante para os dois clubes que vão disputar a final e também para a equipa de arbitragem que está aqui, com o árbitro internacional João Gonçalves, com a árbitra também internacional Ana Afonso, e com o videoárbitro Rui Costa. Temos aqui todos os ingredientes para ser uma grande final e queremos dignificar a prova, dando-lhe a visibilidade que têm as ligas profissionais. Não há nenhuma diferença entre a Taça de Portugal e esta Taça da Associação de Futebol do Porto, disputada num relvado que é ímpar, com relva híbrida, e placards LED a todo o campo. Temos uma excelente ‘fanzone’, cerca de 5 mil pessoas esperadas, com o estádio cheio; a chuva não está a ajudar muito, mas isto faz parte”, refere o dirigente.

Esta final é mais um golo, para consolidar o trabalho da atual direção da AF Porto. O caminho a trilhar está bem definido, no que respeita ao desenvolvimento do futebol nos escalões distritais.

“Aquilo que temos de caminhar é futebol de formação cada vez melhor, futebol amador com mais visibilidade e chamar os grandes patrocinadores também a este futebol distrital. Com provas desta natureza, que já ombreiam com as provas nacionais, estão aqui reunidos todos os ingredientes para que o futebol distrital cada vez tenha mais visibilidade”, enfatiza.

José Manuel Neves já está no estádio, enquanto no exterior a polícia de intervenção acompanha a claque do Ermesinde. Três horas antes do cortejo rumo ao estádio, já Bruno Martins, o “chefe” de operações, e mais uns quantos da claque do Ermesinde espalhavam cartolinas nas bancadas, para a coreografia, num dia que pode ser importante na história do clube.

“Para mim e para todos os ermesindenses”, dispara o eletricista de profissão, curvado sobre as cadeiras que os adeptos do clube vão ocupar.

“Este trabalho é tão importante como a Taça. É pela taça, é pelo clube que nós estamos a fazer isto. Principalmente pelo clube, claro”, sublinha Bruno Martins. A coreografia só não será completa porque a chuva destruiu uma tarja, mas a essência está lá, na frase e nos cânticos que hão de empurrar a equipa para o título.

A contagem decrescente não para. Batem forte os corações dos quase 5 mil espectadores nas bancadas do 25 de Abril e, claro está, dos jogadores que entram finalmente em campo acompanhados das mães. O dia é delas, explica o "speaker" nos altifalantes do estádio.

O verdadeiro artista da primeira parte é Simãosinho (que calcanhar). O luso-angolano Leandro Tigre faz jus ao nome e bisa, e o Ermesinde chega ao intervalo com a Taça nas mãos. O desequilíbrio (3-0) também encontra justificação no minuto 20, quando as botas de Falcão voam demasiado, atingem as canelas do adversário e o árbitro dispara do bolso um vermelho direto.

Na segunda parte, Gonçalo é mais um espectador. O guarda-redes do Ermesinde brilhou nos penáltis da meia-final. Hoje, assiste ao brilharete de José Sampaio na baliza do Vilarinho, que só não defende o pontapé de penálti convertido por Pepe, para o 4-0 final, minutos antes de erguer o desejado troféu.

Nascido em Penafiel, Ricardo Barros jogou, mas não deu jogador. Já como treinador, a história pode ser diferente. Quem o conhece diz que é um obstinado pelo rigor. O treinador do Ermesinde conquista, aos 36 anos de idade, o seu primeiro título.

“Estamos muito felizes, era um objetivo que nós queríamos. Foi um percurso difícil, uma época difícil, mas era este o nosso principal objetivo e conseguimos: dar a taça a estes adeptos que tanto merecem”, refere a Bola Branca.

A carreira de treinador de Ricardo Barros começou há dez anos, no Lamoso (Paços de Ferreira). Depois, andou por pequenos clubes das associações do Porto e de Viseu. Em 2022/23, soube o que é treinar três clubes numa só época – Piães (AF Viseu) e Citânia de Sanfins e Rio Tinto, ambos da AF Porto.

Em 2023/24, mostrou-se no Leça. Na época seguinte, somou 21 vitórias em 35 jogos como técnico do Pedras Rubras. Na presente temporada, conduz o Ermesinde ao título mais saboroso dos quatro conquistados pelo emblema do concelho de Valongo – a Taça da AF Porto, que, quem sabe, lhe pode abrir outros horizontes.

“Ainda não sei. Só no final da época é que penso nisso”, declara, antes de admitir que não há limites para a ambição de um jovem treinador.

Para já, o tempo é de festejar e depois chegar ao fim da época com o Ermesinde entre os primeiros cinco classificados da Liga Pro 2025/26 da AF Porto.

A cara de quem perde não é igual à de quem ganha, mas aqui não há espaço para azedumes. Os jogadores do Vilarinho abrem alas para a consagração dos campeões. Hoje eles, amanhã nós, diriam.

"Não era o resultado que queríamos. Fizemos um bom trabalho para cá chegar. Parabéns ao Ermesinde, que é um justo vencedor,” declara aos jornalistas o presidente do Vilarinho, René Costa, com ideias bem claras para o futuro.

“Vamos manter o rumo. Vamos criar mais bases e apostar na formação; esse é que é o caminho. É para esse propósito que eu estou no Vilarinho”, remata.

Enquanto o presidente do Vilarinho fala aos jornalistas, do outro lado campo, adeptos e jogadores do Ermesinde fazem a festa.

  • Fonte: Rádio Renascença
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