Há mais equipamentos e oferta cultural, mas persistem barreiras no acesso à cultura

Há mais equipamentos e oferta cultural, mas persistem barreiras no acesso à cultura

  • 07/05/2026 11:59
  • Redação

Se é verdade que nas últimas décadas houve um grande investimento em novos equipamentos culturais e na maior oferta de atividade cultural, isso não se traduziu, contudo, no maior acesso à cultura.

O diagnóstico é feito num estudo realizado por uma equipa do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas que foi divulgado esta quinta-feira, em Lisboa.

A equipa de sete elementos, coordenada pelos investigadores Pedro Borrego e Ana Lúcia Romão olhou em detalhes, ao longo de seis meses, para as realidades de quatro regiões do país: Terras de Trás-os-Montes, Algarve, Alentejo e Grande Lisboa.

Uma das principais conclusões apontadas é que persistem assimetrias no território nacional e, mesmo dentro de algumas regiões, há desigualdades sócio económicas que criam dificuldades no acesso à cultura.

O estudo desenvolvido analisou em detalhe a situação dos museus e pretende com as suas conclusões contribuir para melhores políticas públicas no setor.

Na apresentação em que foi sublinhado que o acesso à cultura é um exemplo de cidadania, ficou claro que as assimetrias do país geram barreiras.

Se na região de Trás-os-Montes, mais de 80 por cento da população está a uma distância superior a 30 minutos de um museu, na zona da Grande Lisboa essa proximidade é maior, mas nem sempre a população conhece a atividade cultural do município vizinho.

Outro dos problemas é também o público desconhecer o que acontece em outros municípios. “Até há a ideia de que esses municípios não terão oferta cultural interessante”, sublinha Borrego.

O coordenador aponta por isso, a importância da “questão da comunicação” que “equipamentos e iniciativas devem fazer com os públicos diferenciados”.

Mas se este é um dos exemplos dos desafios que existem em grandes centros urbanos, nas regiões mais do interior e isoladas colocam-se outras questões.

“Em regiões de maior isolamento geográfico é muito importante levar as iniciativas culturais para fora das infraestruturas e ir até onde as pessoas estão, nas instituições, nas escolas e em outros pontos geográficos que facilitem o acesso da população” à cultura, indica Pedro Borrego.

Olhando para o mapa de norte a sul, o estudo identifica os desafios que se levantam. No caso de Trás-os-Montes o principal desafio é o “envelhecimento da população, a fraca mobilidade e as limitações na divulgação”, indica o estudo que acrescenta “a baixa participação nas atividades culturais e a escassez de recursos humanos qualificados”

Já no Alentejo os desafios “prendem-se com a fragilidade ao nível dos recursos humanos e a capacitação institucional, verificando-se a necessidade de formação em línguas, comunicação, divulgação e competências digitais”.

Quanto à região do Algarve, o turismo é o principal desafio. Este “fator estruturante para programação” cultural exige a “procura de equilíbrio entre público locais, migrantes e turistas”. Na região foi também identificada a “fragilidade na existência de recursos humanos qualificados” e apontada a “necessidade de formação em áreas-chave”.

Na Grande Lisboa, “existem barreiras territoriais e sociais que condicionam o acesso”, refere o estudo. Há uma “menor participação de grupos desfavorecidos” em atividades culturais e uma “desvalorização de territórios periféricos e dificuldade no acesso para escolas e populações sénior”.

Os desafios na principal zona urbana do país passam pela “criação de hábitos culturais desde a infância e pelo reforço do sentimento de pertença das comunidades, bem como uma posta em inovação digital, experiências e novas formas de comunicação”.

A fechar o estudo aponta algumas propostas a serem implementadas, uma delas é o alargamento das redes culturais, nomeadamente da rede de museus e estimular as redes locais. É também sugerida, em alguns casos, uma bilhética integrada para tornar o acesso mais facilitado do público aos equipamentos.

Outra das propostas é um reforço das redes de cooperação e articulação entre equipamentos, bem como uma maior aposta na estratégia de mediação cultural para quebrar as barreiras que persistem.

  • Fonte: Rádio Renascença
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