Paradoxo na UE: "São mais atlantistas os países do Leste do que os países do ocidente europeu"

  • 07/05/2026 14:28
  • Redação

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros constata que "a Europa não sabe o que quer, em muitas circunstâncias da ordem internacional atual, nem sabe o que quer para a futura segurança e defesa da própria Europa".

E a divisão quanto à estratégia face aos EUA é de tal ordem, diz Martins da Cruz, que "vivemos um paradoxo": "os países do Leste europeu – os três Bálticos, a Polónia, a Roménia e a Bulgária – são mais atlantistas que os países do Ocidente da Europa, como a Espanha, a Itália, a própria França, a exceção, neste caso, é Portugal".

Segundo o diplomata, Lisboa encontrou o ponto de equilíbrio certo: "Nós somos de um ponto de vista geoestratégico um país Atlântico e temos uma importantíssima comunidade nos Estados Unidos. Mais: os Estados Unidos são o primeiro mercado para as exportações portuguesas fora da Europa".

Em política externa ninguém deve ajoelhar-se, adite Martins da Cruz, mas é preciso ter paciência neste "interregno de incerteza": Uma das certezas das boas políticas externas é a procura de boas relações. Mesmo quando o outro lado é imprevisível".

Alguns dos principais líderes europeus começaram a responder às criticas de Trump na mesma moeda. Como devemos olhar para isto? São apenas "violinos" ou está a ser ensaiado um "grito do Ipiranga"?

O problema é que ainda não está nem definida, nem desenhada, a nova ordem internacional. Longe disso. E, portanto, nós vivemos provavelmente num interregno de incerteza.

Além disso, a Europa, neste momento, está dividida em relação ao que deve fazer com os Estados Unidos. Os 27 países europeus, ou 28 se quisermos juntar o Reino Unido, estão divididos, e, além disso, os principais países europeus têm enormes dificuldades de política interna. Por exemplo, o Sr. Merz (Chanceler alemão) completou um ano de governo, a coligação (no poder) parece que está a desfazer-se, e a imprensa europeia considera que é impulsivo e impopular. O Sr. Starmer, da Inglaterra, tem eleições em três regiões do Reino Inglês e pode perdê-las todas.

A primeira-ministra da Itália perdeu um referendo, na última semana. O Sr. Sánchez governa (em Espanha) com a extrema-esquerda e com os independentistas que o apoiam - quer os da Catalunha, quer os do País Basco. E, além disso, a situação é tão difícil que há quatro anos que o Parlamento espanhol não aprova um orçamento.

Fala-me de quatro líderes europeus com grandes dificuldades internas, mas foram justamente essas as vozes que, de repente, se levantaram contra Trump...

Exatamente, até porque, como têm dificuldades na política interna, para ganharem pontos junto ao eleitorado, falam de uma maneira mais agressiva em relação aos Estados Unidos. Mas também nós não nos podemos esquecer do seguinte: A

divisão dos europeus em relação aos Estados Unidos é de tal ordem que, neste momento, vivemos um paradoxo: São mais atlantistas os países do leste europeu, os três Bálticos, a Polónia, a Roménia e a Bulgária, são mais atlantistas que os países do Ocidente da Europa, como a Espanha, a Itália, a própria França, a exceção, neste caso, é Portugal.

E é Portugal porquê? Por uma razão muito simples: Portugal, de um ponto de vista político e económico, é um país europeu. Sobretudo desde 1 de janeiro de 1986, quando aderimos à Europa. Mas de um ponto de vista geoestratégico, nós somos o país mais atlântico de toda a Europa. Daí a necessidade que nós temos de manter boas relações com o outro lado do Atlântico, seja qual for a administração dos Estados Unidos.

Até que ponto é que os elogios a Portugal, vindos dos Estados Unidos, e tem havido, são mal vistos entre os parceiros europeus de que falou? entre aqueles países que levantaram mais as suas vozes, mas que são países particularmente influentes...

São particularmente influentes na Europa, mas estão a mudar. Ainda há dias, o Sr. Merz - que atacou a atual administração americana e o atual Presidente - já veio dizer que em termos de defesa e de segurança, o que é preciso não é construir uma Europa da Defesa, como querem, por exemplo, os franceses, obstinadamente, mas sim reforçar o pilar europeu da Aliança Atlântica.

Ou seja, os europeus estão todos divididos no que respeita às relações com os Estados Unidos, e a Europa não sabe o que quer, em muitas circunstâncias da ordem internacional atual, nem sabe o que quer para a futura segurança e defesa da própria Europa.

No que diz respeito às relações com os Estados Unidos, Portugal está no ponto certo. Nós somos de um ponto de vista geoestratégico um país atlântico, temos uma importantíssima comunidade nos Estados Unidos...mais, os Estados Unidos são o primeiro mercado para as exportações portuguesas fora da Europa.

De um ponto de vista económico dependemos excessivamente da Europa, a Europa representa um bocadinho mais de 70% das nossas importações e exportações, e a nossa balança comercial é deficitária, exceto em relação aos Estados Unidos. Nós exportámos para os Estados Unidos o ano passado um bocadinho mais de 5 mil milhões de euros e importámos cerca de mil milhões, ou seja, temos um gigantesco 'superavit', exportamos cinco vezes mais do que importamos dos Estados Unidos.

Mas considera que os líderes europeus, aqueles que têm sido mais atacados por Trump, devem ajoelhar-se ou devem reagir de igual para igual, como têm feito alguns?

Em política externa ninguém deve ajoelhar-se. A política externa serve para defender os interesses de cada país. No caso de Portugal o nosso interesse é ter boas relações com quem controla o Atlântico Norte, que são os Estados Unidos. Cada país defende os seus interesses. Simplesmente, como tão bem muitas vezes, do outro lado do Atlântico, na Casa Branca, as opiniões variam, eu não diria a cada meia hora, mas várias vezes ao dia, isso também provoca muitas vezes reações imediatas de países europeus, que depois se vem a arrepender, como se arrependeu, por exemplo, o Chanceler alemão, quando depois de ter tido uma frase considerada infeliz em relação ao Presidente dos Estados Unidos, veio fazer marcha atrás e tentar retomar um bom relacionamento com Washington.

Portanto, o que aconselharia aos líderes europeus é terem uma paciência de chinês?

Tem de ter alguma paciência e tem sobretudo de esperar para ver…, e definir as relações com os Estados Unidos, também em função de qual vai ser o comportamento dos Estados Unidos, uma vez terminado o conflito do Golfo.

Para concluir, vamos ter intercalares nos Estados Unidos já em novembro, caso Donald Trump seja fortemente castigado, parece-lhe que pode regressar a estabilidade, poderá ser essa a consequência ou ainda não?

Repare uma coisa: Nos últimos, creio que nos últimos 100 anos, só dois Presidentes dos Estados Unidos é que não perderam as eleições intercalares. E nos últimos 40 ou 50 anos todos os Presidentes dos Estados Unidos perderam as eleições intercalares. Isso não teve nunca efeito nenhum sobre a política externa dos Estados Unidos.

  • Fonte: Rádio Renascença
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