D. Américo Aguiar: "Igreja é chamada a estar onde ninguém quer estar"
- 07/05/2026 19:00
- Redação
“Cuidar com o coração: Presença, esperança e vida no mistério da dor”, é o título da Nota Episcopal sobre a urgência da proximidade na fragilidade, doença, morte e luto que o bispo de Setúbal publica no primeiro aniversário da eleição do Papa Leão XIV.
O bispo começa por falar da “realidade diária da nossa sociedade” que nos “interpela com força”.
“Envelhecimento, solidão, fragilidade social e familiar. Não são apenas dados, são rostos. São histórias. São vidas marcadas, muitas vezes, pela doença, pela morte e pelo luto. E cada uma delas pede uma resposta que não pode ser adiada nem superficial”, adianta.
E neste contexto, D. Américo Aguiar lembra que a Igreja nos recorda que “o cuidado é a resposta responsável ao valor inalienável de cada vida humana”.
Por isso, o bispo sugere na sua Nota Episcopal “um caminho marcado por três momentos distintos”.
“Num primeiro momento, somos convidados a olhar de frente para a fragilidade humana nas suas expressões mais concretas: a doença, a morte e o luto. A pastoral junto dos mais frágeis, tão multifacetada, ganha deste modo rosto e forma. Num segundo momento, somos chamados a uma verdadeira conversão pastoral, que passa pela compaixão e pela empatia e que tem, no coração do pastor, um lugar decisivo. Finalmente, somos desafiados a edificar uma autêntica proximidade, capaz de consolar, mobilizar e transformar, mesmo no meio da dor”, explica.
O cardeal diz que “mais do que multiplicar iniciativas”, é preciso “transformar o nosso modo de estar” e defende que “a Igreja não é chamada a fazer tudo, mas é chamada a estar onde ninguém quer estar. É chamada a não deixar ninguém para trás”. E convida “cada comunidade, cada família, cada agente pastoral, cada consagrado e cada sacerdote a dar este passo: tornar-se presença de esperança”. “Sigamos juntos este caminho”, exorta.
A Nota é dividida em três pontos: Um primeiro sobre o cuidar da fragilidade: a caridade da presença na doença, na morte e no luto. Um segundo relativo à compaixão e empatia: uma conversão pastoral necessária. E um terceiro dedicado à pastoral da esperança: indignar-se com amor, consolar com Verdade, anunciar com coragem.
No primeiro ponto, o bispo de Setúbal diz que a doença é “lugar de encontro e humanização” e refere que se torna particularmente relevante “valorizar a Unção dos Doentes como verdadeiro sacramento de cura e conforto espiritual”.
D. Américo Aguiar recorda a profanação de sepulturas e corpos no cemitério de Alhos Vedros “onde tantas famílias foram feridas na sua memória e no seu luto” e que, na sua opinião intensifica a “urgência de uma presença pastoral firme e profundamente humana no momento da sepultura”.
Face às transformações contemporâneas, o cardeal recomenda que “a crescente opção pela cremação seja acompanhada por um adequado discernimento pastoral reconhecendo a sua legitimidade, quando não contrarie a fé na ressurreição e a dignidade do corpo humano”, e coloca nos desafios pastorais a promoção e “criação de espaços próprios para a deposição das cinzas, cendrários ou columbários, assegurando que sejam lugares dignos, estáveis e devidamente autorizados; destinados à oração e à memória”.
Entre as recomendações, o bispo reforça a ideia de que o “luto é um caminho que exige acompanhamento” e assegura que o contexto português o torna “uma urgência pastoral inadiável”.
A Nota recorre a dados do INE que revelam um país envelhecido e com uma baixa taxa de natalidade; “dados que interpelam diretamente a ação pastoral e exigem uma leitura atenta da realidade concreta das nossas comunidades”, e que obrigam a Igreja a “ser presença significativa junto dos mais frágeis e sinal visível de cuidado numa sociedade marcada pela dispersão e pelo isolamento”. “Neste horizonte, torna-se particularmente atual o apelo recente do magistério, que a todos recorda como o amor que nasce do coração de Cristo, impele a Igreja a aproximar-se das periferias humanas. É lá que a fragilidade se torna mais visível e mais esquecida”, pode ler-se.
No segundo ponto, o bispo de Setúbal diz que a compaixão e a empatia tornam necessária “uma conversão pastoral”. D. Américo afirma mesmo que é urgente “uma transformação profunda do modo de compreender, discernir e agir pastoralmente”, pois “não basta multiplicar respostas, é necessário aprender a integrar, a relacionar e a habitar a complexidade das situações humanas”.
O bispo não esquece, contudo, que “a pressão pastoral, a multiplicidade de tarefas e a exposição constante ao sofrimento podem desgastar a capacidade de escuta e de proximidade” e lembra que “quem cuida precisa também de ser cuidado; quem acompanha precisa de aprender a deixar-se acompanhar”.
O terceiro ponto da Nota reflete sobre a “Pastoral da Esperança: Indignar-se com Amor, consolar com Verdade, anunciar com Coragem”, e lembrando que “a esperança cristã nasce da Ressurreição”, diz que “o cuidado dos que sofrem constitui uma verdadeira Pastoral da Esperança”, que se concretiza “em práticas de proximidade e em comunidades que se organizam para cuidar”.
Desta forma, o bispo de Setúbal pede à diocese que assuma “compromissos concretos” que tornem “visível a caridade da presença, e o cuidado pastoral dos mais frágeis”.
D. Américo pede que se promova “uma pastoral de visitação contínua e relacional, com equipas paroquias de proximidade”, quer “reforçar a presença de voluntários de assistência espiritual e religiosa nas capelanias hospitalares e outras instituições de saúde e solidariedade social”; propõe a criação de “grupos de apoio ao luto” e a formação de “leigos para o ministério da consolação” e que se promova “a criação de espaços para a deposição das cinzas”.
O bispo de Setúbal quer “tornar cada paróquia espaço de acolhimento e reconciliação”, sugere a integração da “esperança nos itinerários pastorais” e que se testemunhe a “esperança com gestos concretos”.
Na conclusão, o cardeal sublinha que “o nosso tempo exige uma renovação profunda do nosso modo de compreender, discernir e agir”, e “uma inteligência pastoral capaz de integrar a complexidade da vida, de articular dimensões humanas, espirituais e comunitárias, e de superar visões fragmentadas da realidade”. “Só assim poderemos responder de forma mais fiel e adequada aos desafios contemporâneos, sem reduzir o mistério da pessoa, nem simplificar o drama do sofrimento”, acrescenta.
“Que a nossa Diocese seja verdadeiramente a casa onde a esperança se aprende, se partilha e se renova; que seja o lugar onde cada pessoa, independentemente da sua fragilidade, encontra rosto, nome e pertença”, pois “é nesta presença fiel que a Igreja se torna sinal visível da graça, sobretudo nos lugares onde a vida parece obscurecida pela dor”.
O bispo de Setúbal termina a sua Nota Episcopal com um agradecimento alargado aos que cuidam dos frágeis e vulneráveis e que são testemunho da “proximidade misericordiosa da Igreja junto daqueles que mais necessitam de amparo e consolação”. “Porque onde a caridade se faz presença, Deus torna-se visível e a esperança renasce. Mesmo no coração da dor”, conclui.