De sarar feridas a curar dores de garganta. Pode o mel ser um "superalimento"?
- 09/05/2026 05:00
- Redação
Até que ponto a ciência confirma estas mais-valias? Primeiro vamos saber mais sobre o trabalho dos "encantadores de abelhas", os apicultores.
Apicultor desde 2008, o responsável, de 44 anos, relembra que esta cultura exige trabalho durante todo o ano, principalmente na primavera.
Dependendo se um apicultor tem 10 colmeias ou 500 enquanto profissional, "cada colmeia pode, num ano bom, dar em média cerca de 20 quilos de mel", sendo que o Alentejo e o Algarve são as zonas de maior produção.
Contudo, Bruno Martins reconhece que as alterações climáticas e o recente comboio de tempestades deste ano têm afetado as produções, com perdas de centenas de colmeias e colónias destruídas.
"Apesar de nem sempre ser um serviço valorizado pela comunidade", o representante da CAPEMEL recorda a qualidade do mel nacional que tem diferentes variedades devido à polinização de diferentes terras e vantagens para a saúde.
Voando de planta em planta com o néctar no estômago, as abelhas guardam o mel nas colmeias e trazem até aos nossos pratos "um produto menos refinado, mais natural e uma excelente fonte de hidratos de carbono simples", explica o nutricionista.
O mel contém até 20% de água e os restantes 80% são açúcares simples que digerimos rapidamente.
"Constituído por frutose e glicose, estes dois açúcares simples permitem a obtenção de energia de forma rápida", afirma Pedro Lourenço.
Para além desta composição nutricional mais adequada, o mel também contém uma percentagem de minerais (como potássio, ferro fósforo e magnésio), vitaminas (A, B1, B2, B6 e C), aminoácidos (proteínas), antioxidantes e enzimas provenientes de plantas, abelhas e secreções de insetos.
Já os nutrientes variam consoante o local onde as abelhas recolheram pólen, a época da colheita do mel e o tempo de armazenamento.
Pedro Lourenço confirma que há "alguma ação cicatrizante" associada ao mel, nomeadamente antimicrobiana, antioxidante e anti-inflamatória.
No entanto, o mel funciona melhor em feridas quando aplicado diretamente na pele do que digerido. "Os microrganismos do mel vão formar diretamente uma barreira no local que poderá estar infetado e diminuir a proliferação", explica.
Já as feridas abertas, úlceras – focos de infeção de risco – e queimaduras de primeiro e segundo grau podem ser curadas com "mel clínico". Este é um produto farmacêutico esterilizado, mais concentrado e "protege a entrada de micro-organismos e outros fungos".
Seja uma chávena de chá com uma colher de mel ou simplesmente o produto, algum familiar ou amigo já lhe aconselhou este remédio caseiro para curar estes sintomas – e o nutricionista reconhece "algum alívio" quando consumido.
"O mel tem uma viscosidade acentuada e causa um aumento da lubrificação da garganta e do esófago."
As propriedades do mel também levam, naturalmente, à produção de saliva, porque o sabor doce vai estimular as papilas gustativas e as glândulas salivares.
No entanto, "não se pode associar o mel a um tratamento ou cura destas inflamações".
O mel pode, efetivamente, reduzir eventos cardiovasculares, manter níveis de colesterol saudáveis, reforça o sistema imunitário e ajuda a prevenir diabetes, validou o profissional.
"Como o mel é um produto antioxidante, este alimento contém compostos fenólicos e flavonoides que ajudam a combater radicais livres [moléculas altamente reativas] e pode desacelerar o envelhecimento e diminuir o risco de doenças prolongadas ou crónicas".
Relativamente à diabetes, o mel tem um "índice glicémico mais baixo do que o açúcar branco pela percentagem de água que contém", que se trata puramente de açúcar.
A absorção de hidratos de carbono é, por isso, mais lenta, "o que acaba por picos não tão altos de glicémia como o açúcar refinado".
Já sobre a saúde cardiovascular e os níveis de colesterol, a preferência por adoçar alimentos com mel e o impacto nestas doenças trata-se de "uma consequência indireta".
"A diluição do nível de açúcar na dieta alimentar ajuda no controlo de colesterol", evitando o consumo de alimentos com mais gordura e propícios a desenvolver níveis de colesterol perigosos.
Apesar de o colesterol derivar apenas de alimentos de origem animal, o consumo de açúcar em bolos com ovos, por exemplo, pode aumentar o risco.
Este é um duelo comum para quem se preocupa em manter uma dieta alimentar equilibrada e uma pergunta frequente nos consultórios de nutrição.
"Por cada 100 gramas de açúcar branco, encontramos 100 gramas de açúcar, mas o mel distingue-se com cerca de 80 gramas de açúcares", esclareceu o profissional.
Ou seja, "dependendo da questão da frequência e do contexto em que se introduz" na rotina alimentar, o mel fica mais em conta.
Mas o especialista deixa o alerta: "uma alimentação saudável não tem de ser zero em açúcar branco ou mascavado. Muitas vezes o problema é o exagero", porque há quem considere que se pode consumir em maior quantidade por ser um alimento saudável.
Não é aconselhado o consumo de mel a diabéticos e a bebés com menos de um ano, já que estes "não têm desenvolvido na totalidade o seu tubo gastrointestinal e pode haver contaminação por parte de bactérias naturais".
"Para um adulto saudável, isso não traz qualquer problema com as bactérias que constituem a nossa flora intestinal."
O mel "não é realmente um alimento que se possa consumir quando e quanto se quer", mas os agentes anti-inflamatórios, antimicrobianos e antioxidantes equilibram o valor nutricional.
Para Pedro Lourenço, "a questão dos 'superalimentos' é muito relativa, mas o mel acaba por estar dentro desta categoria de alimentos".
O nutricionista insiste ainda que se deve preferir o mel ao açúcar quando se quer adoçar um chá, café ou iogurte, já que "o mel tem as suas vantagens quando consumido de forma controlada".