Doente oncológica quase seis horas à espera de consulta no IPO de Coimbra

  • 11/05/2026 03:00
  • Redação

Foram vários os números de senha que Maria Figueiredo, 66 anos, vinda de Viseu, ouviu ao longo da manhã e tarde, no passado dia 23 de abril. Mas a que segurava com força nas mãos, enquanto se apoiava nas canadianas, a senha E091, só seria chamada depois das 16h. Uma espera que a deixou aflita, sabendo que precisava de fazer oxigénio entre as 14h e as 18h. Maria Figueiredo tem cancro no pulmão e uma rotina marcada pelo oxigénio, 17 horas por dia, todos os dias. Dorme ligada à máquina durante a noite, entre as 20h e as 8h, e volta a precisar dela durante a tarde. “Não posso estar sem oxigénio, é muito tempo”, diz, encostada à parede, tentando poupar energia.

Saiu de Viseu às oito da manhã, transportada pelos bombeiros voluntários. Mais de cem quilómetros até Coimbra. Chegou ao IPO de Coimbra por volta das 10h00 e realizou análises às 10h22. A partir desse momento, instalada na sala de espera das consultas, pouco depois das 10h30, ficou à espera. Como, diz, acontece “sempre”. A longa espera é confirmada pelo bombeiro que a transportou, que aguardava também o regresso.

As horas acumulam-se sem explicação. “A gente vai ali perguntar, dizem que não têm direito de dar informação”, observa. Os nomes não são chamados e a incerteza instala-se como mais um sintoma. À sua volta, outros doentes trocam olhares silenciosos. “O silêncio é a melhor resposta”, murmura, sugerindo: “ao menos a médica podia vir aqui e dizer vão almoçar, que isto vai demorar”. Não é resignação, é desgaste. Maria toma 21 comprimidos por dia. Foi operada pela primeira vez em 2018. Em 2020, foi diagnosticada com cancro no pulmão. Os tratamentos obrigaram-na a retirar os dentes. “Doíam-me todos”, recorda e é por esse motivo que admite “não se sentir bem sem usar máscara”. Hoje, diz que só encontra algum alívio deitada. Esperar sentada, durante horas, é mais do que desconforto. Queixa-se de fortes dores de cabeça.

Maria Figueiredo acordou às 6h da manhã e antes de sair de casa, deixou o essencial preparado. “Deixei o leite pronto e o pão migado para o meu marido”. Também ele está doente, com cancro e já teve um AVC. “Ficou sozinho, sem almoço quente, dependente do que consegui antecipar antes de sair às seis da manhã”, conta Maria, visivelmente angustiada e levantando-se várias vezes para obter justificação no balcão de atendimento.

Na sala de espera, a fome resolve-se com pouco. “Comi uma banana e um iogurte de manhã”, conta. Só já perto das 16 horas surge algum apoio: um carrinho da Liga Portuguesa Contra o Cancro percorre o espaço, distribuindo sandes de queijo e galão pelos doentes em espera.

Os bombeiros aguardam no exterior, só subindo as escadas até ao segundo piso, para confirmar se os doentes já realizaram a consulta. Mas o transporte, que deveria ser apoio, transforma-se em mais uma pressão invisível sobre quem já não aguenta esperar. Maria pondera desistir da consulta. “O bombeiro já aqui veio várias vezes saber de mim, têm outros fretes para fazer. Quando ela passar (a médica), vou-lhe dizer: passe pelo menos a receita e deixe ficar a consulta”. Diz que já aconteceu antes. Vir, esperar, não ser atendida e sair apenas com medicação. Ao fim de quase seis horas, continua sem saber quando será chamada.

Contactámos o IPO de Coimbra para esclarecer tempos de espera e protocolos aplicados a doentes dependentes de oxigénio. Em resposta posterior, a instituição apresentou uma versão detalhada do acompanhamento clínico e do episódio em causa:

“A Sra. D. Maria Marciana Ferreira Balula Figueiredo é acompanhada em consulta de Oncologia Médica desde 2020. Em 2023, considerando que a sua médica assistente assumiu funções noutra Instituição do SNS, foi atribuída uma nova médica assistente, garantindo-se a continuidade do seguimento clínico adequado.

No dia 23 de abril, a doente tinha consulta de Oncologia Médica agendada para as 11h20, com indicação para realização de análises laboratoriais, o que teria de ser concretizado com uma antecedência de 2 horas, para que estas análises estivessem disponíveis na consulta.

Foi possível esclarecer que a doente chegou à instituição cerca das 10h00 e realizou as análises às 10h22. Os resultados analíticos ficaram disponíveis pelas 12h56. A consulta de Oncologia Médica decorreu entre as 16h00 e as 16h21. Não foi possível cumprir a hora do agendamento decorrente de atendimentos clinicamente mais prolongados a doentes previamente observados, situação que o Serviço procura minimizar, mas que pode ocorrer, considerando a complexidade clínica dos doentes acompanhados neste Serviço.

Ressalva-se igualmente que esta doente se encontra sob oxigenoterapia em ambulatório, realizando 4 horas em período diurno e de forma contínua durante a noite. Uma vez que se deslocou à instituição sem ser portadora do seu dispositivo próprio, foi necessário garantir, durante o período de espera para a consulta, a administração de oxigénio suplementar, que a doente realiza de forma programada”, conclui a declaração.

Contudo, a aflição de Maria ao olhar para o relógio, já perto das 16 horas, contrasta com esta explicação. A doente garante que permaneceu até essa hora sem acesso a oxigénio. Entre o seu relato e a garantia institucional de que o suporte foi assegurado durante a espera, permanece uma discrepância factual que não é esclarecida pelos dados disponíveis.

  • Fonte: Rádio Renascença
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