Seca na Somália e Etiópia deixa milhões em risco de fome e desnutrição, alerta MSF
- 11/05/2026 08:59
- Redação
A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou esta segunda-feira que milhões de pessoas na Somália e na região Somali da Etiópia estão “à beira da sobrevivência” devido à seca prolongada, deslocações forçadas e cortes no financiamento internacional.
Segundo a MSF, quatro estações consecutivas de chuva falhadas provocaram uma grave emergência humanitária na Somália, onde mais de 6,5 milhões de pessoas enfrentam níveis elevados de insegurança alimentar aguda. Mais de dois milhões encontram-se já na fase 4 da classificação IPC, considerada de risco extremo de desnutrição e morte.
A organização estima ainda que mais de 1,84 milhões de crianças com menos de cinco anos sofram de desnutrição aguda ao longo de 2026.
“Fomos deslocados por causa da seca ”, relata Regay Ali, uma mulher deslocada que abandonou a sua casa em Weelbelil, no sudoeste da Somália, para procurar ajuda num campo em Baidoa. “ Recebemos água, mas não é suficiente: dois bidões por dia para lavar, cozinhar, beber e tomar banho. Nem cinco chegariam. A fome pesa muito sobre nós ”, descreve.
De acordo com a MSF, cerca de 3,3 milhões de pessoas estão deslocadas internamente na Somália devido à seca e ao conflito armado, enquanto mais de 50 mil atravessaram a fronteira para a Etiópia em busca de água e assistência humanitária.
Nos campos de deslocados em Baidoa e Galkayo, os preços da água subiram para níveis incomportáveis para muitas famílias, aumentando também o risco de doenças transmitidas pela água devido à utilização de fontes inseguras e sobrelotadas.
A MSF refere ainda que os seus centros médicos já estão sobrelotados. “Estamos a registar um número alarmante de crianças gravemente desnutridas e o hospital está a tratar doentes acima da sua capacidade”, alerta a organização.
A crise estende-se também à região Somali da Etiópia, sobretudo nas zonas de Afder e Shebelle, próximas da fronteira somali. A perda de gado, a escassez extrema de água e o agravamento da insegurança alimentar estão a afetar duramente comunidades pastoris.
“Quando a chuva parou, perdemos o nosso gado e as pessoas fugiram para onde encontrassem água para sobreviver”, conta Isaq Ibrahim Mohamed, residente no distrito de Barey, na região de Afder. “As pessoas caminham mais de uma hora para ir buscar água aos rios e partilham-na com os animais. Vemos diarreia e desnutrição”, acrescenta.
Segundo Abdullahi Mohammad Abdi, vice-chefe da equipa médica da MSF na Etiópia, os cortes no financiamento global estão a reduzir drasticamente os serviços disponíveis. “O que estamos a ver no terreno é uma redução dos serviços que os doentes recebiam anteriormente, à medida que os parceiros reduzem operações devido aos cortes globais no financiamento”, afirma. “Os programas de água e saneamento são os mais afetados.”
Na Somália, a MSF afirma ter distribuído desde dezembro de 2025 mais de 30 milhões de litros de água potável a mais de 21 mil pessoas em 17 campos de deslocados em Baidoa. Em Mudug, perto de Galkayo, a organização fornece água, apoio sanitário e kits de higiene a quase 11 mil pessoas.
Apesar disso, a organização alerta para o colapso do apoio internacional. O Plano Humanitário da Somália para 2026 está financiado em apenas 10,9%, segundo dados da UNOCHA. O Programa Alimentar Mundial reduziu o apoio alimentar de emergência de mais de dois milhões de pessoas para pouco mais de 600 mil.
“O que estamos a testemunhar nos campos de deslocados é uma escala de necessidades que ultrapassa aquilo que qualquer organização pode resolver sozinha”, afirma Mohammed Omar, responsável de programas da MSF na Somália.
“Pedimos à comunidade internacional e aos governos que reforcem urgentemente o apoio, antes que mais vidas se percam por causas totalmente evitáveis”, completa.