A obra admirável de Manuel Pellegrini

A obra admirável de Manuel Pellegrini

  • 13/05/2026 07:10
  • Redação

Manuel Pellegrini não tem medo de nada. Nem da morte, nem da exigência. Aprecia música e livros. Há não muito tempo disse que ainda vai ao ginásio todos os dias, que joga ténis duas ou três vezes por semana, golfe idem. Imagina-se a encerrar a carreira depois de disputar um Campeonato do Mundo com o seu Chile, terra de Bolaño, terra de Neruda.

E terra de Fernando Riera. O antigo treinador de Belenenses, Benfica, FC Porto e Sporting foi o responsável por Manuel, hoje o treinador do Real Betis Balompié que acabou de colocar os béticos na Champions 21 anos depois, largar a empresa de construção e começar como técnico de futebol.

Em seis anos em Sevilha, Pellegrini logrou seis qualificações para as competições europeias. Agora, o regresso ao torneio dos torneios mais de duas décadas depois da primeira e derradeira participação. Na altura, o Betis de Joaquin, Marcos Assunção e Ricardo Oliveira ficou-se pela fase de grupos.

Já Pellegrini levaria nessa temporada o Villarreal à semifinal da Champions, caindo apenas contra o Arsenal de Henry e companhia. Nesse submarino amarelo que emergia e submergia entre as nuvens pontificavam Marcos Senna, Diego Forlán, José Mari e um tal de dom Juan Román Riquelme.

Chegou a Espanha depois de quatro temporadas na Argentina, no San Lorenzo e no River Plate. Antes treinou no Equador e no seu Chile, começando lá atrás em 1988.

Foi futebolista profissional dos 19 aos 33 e aos 23 já era engenheiro civil. “Jogava na ‘U’ e estudava na Católica. Queriam matar-me dos dois lados”, confessou em tempos idos numa entrevista. Foi treinador e engenheiro (comprava terrenos e fazia casas) até 1994, mas depois as palavras de Riera tocaram-lhe de outra forma e ele mudou a sua vida.

Olhando para trás, a carreira de Manuel Luis Pellegrini Ripamonti é admirável. Nunca havia passado tanto tempo num clube como agora acontece no Real Betis Balompié (2111 dias), onde conquistou uma Copa del Rey, foi finalista da Liga Conferência e alcançou os quartos de final da Liga Europa. No Villarreal, onde conseguiu a tal semifinal da Liga dos Campeões, esteve 1819 dias. A seguir, Manchester City (1095 dias), onde meteu uma Premier League no bolso, e Málaga (965 dias), que agarrou descarnado, perto da descida, e o conduziu aos quartos de final da Champions, depois de eliminar o FC Porto nos oitavos. No Real Madrid (364 dias), onde assinalou uma dissintonia com Florentino Pérez, fez a tal engenharia mágica da maior pontuação de sempre (96)... até Mourinho resgatar para ele esse recorde. Nos entretantos destas obras treinou na China e um projeto de má memória no West Ham.

Este homem de jeitos calmos e exemplares, nascido em Santiago do Chile em 1953, tem contrato com o Betis até junho de 2027. Soma 14 troféus na carreira e tem uma regra de ouro: todas as formas de ganhar e de jogar são válidas, mas “estão 60 mil pessoas no estádio e milhões a ver pela televisão, há que dar um espectáculo àquela gente”. Ou seja, o como importa.

Os criativos têm sempre espaço nas suas equipas. A recuperação de Antony é notável, a aposta em Fornals também, a cristalização de Lo Celso idem. Isco talvez seja a obra maior do treinador chileno, no que toca a individualidades, pela recuperação do homem e do futebolista. Contratou-o para o Málaga, tinha tudo certo para o levar para o Manchester City mas o jogador preferiu o Real Madrid. Depois de calcar terrenos pantanosos no Sevilha, Pellegrini voltou a chamá-lo para junto de si e do cinzentismo embrutecido brotou uma flor.

“Há muitas formas de um jogador fazer-se notar no balneário. Com qualidade, com personalidade, com a maneira de ser, com a forma de treinar… o Isco exerce a sua liderança a partir da qualidade”, reconheceu numa entrevista ao “El País”, em 2024.

Também o treinador está exposto no dia a dia, por isso este chileno nunca larga da mão a exigência, a preparação e a aprendizagem. Talvez possamos incluir decência na mesma gaveta. “O jogador tem que ver que à frente dele há uma pessoa muito preparada”, resume a ligação treinador-futebolista.

Na ressaca da qualificação para a Champions, Pellegrini reconheceu a angústia após a eliminação da Liga Europa, cortesia do SC Braga. “Soubemos levantar-nos em momentos muito duros. Fizemos uma grande temporada apesar das críticas, que entendo.”

O futebol mudou muito desde 1988, quando começou como treinador, reconheceu noutra entrevista. Mas há uma coisa que nunca mudou: os bons metem a bola dentro da baliza, os maus chutam para fora. Assim, simplesmente, explicou o futebol. Depois há a liderança e o como chegar ao grupo, a cada um dos atletas à sua frente que o ouvem como filhos, uns mais rebeldes, outros obedientes. “Tive muitas lutas com jogadores, não podes lutar com um e nunca mais o meter a jogar. O treinador tem bastantes mais anos que o jogador. O jogador é primeiro eu, depois eu e em terceiro eu”, refletiu na mesma entrevista ao “El País”, assinada por Rafael Pineda.

Nas entrevistas que dá, aliás, nunca se inibe de oferecer a sua visão da sociedade, do que é, do que mudou, do que sente falta, do que é e não devia ser. Uma vez, numa entrevista para o “El Mundo”, perguntaram-lhe se o ser humano era corrupto por natureza.

“O ser humano é complicado, não sou eu que digo, é a história”, disse antes de começar a enumerar um sem fim de falências morais e crimes. “O ser humano fez muitíssimo dano e esse dano há que controlá-lo com a justiça. Mas continua a acontecer os políticos mandarem miúdos de 18 e 20 anos para a guerra por uma questão material. Há toda uma história de dano sem necessidade que fez o ser humano.”

Aos 72 anos, Manuel Pellegrini parece ainda estar muito longe do desconfortável conforto do sofá, carente do cheiro a relva, dos dentes das botas a bater na tijoleira e a cantarem sonho de 'pibe' e compromisso. Teremos ainda mais para ver deste homem que tem em Fernando Riera o mestre e, abençoado, nos fatos de treino a farda. E do bom futebol que lhe sai da cabeça e que é abraçado por 11 homens em simultâneo num qualquer relvado de Espanha, onde conseguiu 14 apuramentos para competições europeias em 14 anos.

  • Fonte: Rádio Renascença
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