A poesia nos “intervalos da vida” de Francisco Guimarães apontada no telemóvel e em cadernos
- 13/05/2026 12:40
- Redação
Recusa a ideia de esperar sentado pela “inspiração”. É nas notas do telemóvel ou num caderno que aponta as sementes para os poemas. Confessa que tem “um caixote do lixo enorme” de versos. Os que escolheu para ilustrar uma viagem à volta do mundo, a pedido de um amigo, são agora editados em livro.
Um dos poemas intitulado “arte poética” que, curiosamente é o último poema do livro, diz: “o meu primeiro poema/ foi a minha primeira queda./ e vice-versa”. Como explica a sua poesia? É esse mergulho em profundidade?
Ainda bem que fala na palavra mergulho, porque me vem à cabeça uns versos de Pablo Neruda que acho que explicam um bocado o meu olhar para a poesia. O Neruda diz que temos de nos sentar no poço da sombra e buscar a luz caída com paciência.
Para mim, a poesia tem sido isso. Tem sido uma luz caída que aparece por observação, por insistência num olhar mais lento.
É um olhar que contraria este fervor e estes estímulos constantes da vida contemporânea. A poesia contraria isso, e eu, preciso muito dela.
Bem, não sei se me salvou, mas pelo menos ajudou-me a encaminhar o olhar. Por isso é que nesse poema digo que foi a minha “primeira queda e vice-versa”.
É a queda como primeiro espaço para qualquer coisa, seja lá o que isso for. Pelo menos nas minhas primeiras tentativas de escrever poesia, havia sempre uma relação mais íntima ou não, mas com a tristeza. Hoje em dia não há.
Felizmente já não preciso dela para escrever. Já não serve de motor da escrita, nem serve de impulso, mas há sempre uma semente que ficou lá, que pode não germinar, mas que eu vou sentindo de vez em quando.
Entre um relato de futebol e uma noite na casa de Fados, como é que a poesia acontece no dia a dia?
De um ponto de vista muito prático, acontece-me nos cadernos e nas notas do telefone.
São ideias que tenho, imagens que me aparecem na cabeça, jogos de palavras que gostava de explorar e que aponto imediatamente. Depois procuro desenvolver num trabalho mais depois depurado, mais atento e cuidado, sentado à secretária
Há muita reescrita, muita, muita… Há muito lixo. Há um caixote do lixo enorme, mas é uma coisa que me acontece no dia a dia, ou seja, não estou à espera de me sentar a ver se o verso me aparece na cabeça.
Não estou à espera daquela ideia muito poética, mas que acho que não corresponde à realidade, da inspiração.
É uma coisa que vai surgindo nos intervalos da vida, no dia a dia, no que ela tem de corriqueiro e banal.
Justamente, este livro está cheio de realidade. São retratos, mas alguns deles são de uma realidade imaginada. Nem tudo é verdade?
Sim, o livro surgiu por causa de um amigo que me desafiou a escrever poemas para fotografias que ele estava a fazer à volta do mundo
Eu julgava que já tinha um livro de poesia, mais ou menos, escrito, mas afinal não, porque o livro só se começou a escrever quando este meu amigo me desafiou para escrever, para olhar para estas fotografias e escrever qualquer coisa.
Portanto, muitas das coisas que estão aqui escritas são confusões entre realidade e ficção. Coisas que vivi e coisas que não vivi. Eu falo em realidades que não conheço como o México, por exemplo, mas também falo em realidades que conheço e que são palpáveis a todos, como a Apple, como o Pingo Doce ou o João Baião.
Acho que depois, é uma tentativa de olhar para o dia a dia e para o que ele tem de banal e tentar falar sobre aquilo que nos é verdadeiramente nuclear e central
As grandes questões que, no limite, são o que é que andamos aqui a fazer. Mas também os grandes temas como o amor, a morte e a relação com o outro.
Este é um livro que parte de uma viagem, teve do ponto de vista muito concreto, esta procura da relação com o outro e com o estrangeiro.
O medo que nós, por preconceito, temos do desconhecido, no fundo, é um medo que não faz grande sentido porque descobrimos que, afinal, somos muito mais parecidos.
A natureza humana é muito mais parecida. Temos as mesmas questões, os mesmos medos, as mesmas ambições, só que depois temos mundos diferentes e acho que foi provavelmente nessa relação que este livro se construiu.
Quem são as suas referências poéticas? Muitas delas estão aqui expostas a nu. Temos a Adília Lopes, o João Luís Barreto Guimarães, o Nuno Júdice. Quem são as suas influências?
A primeira coisa de que me lembro, na minha relação com a poesia é o “Caminho da Manhã, da Sophia de Melo Breyner.
É um texto lindo escrito em prosa, mas é um texto poético que está no “Livro Sexto” e começa “Vais pela estrada que é de Terra amarela. As cigarras cantarão o silêncio de bronze”. Esta expressão, “as cigarras cantarão o silêncio de bronze”, que é muito Sophia, marcou-me profundamente
Este texto foi talvez o meu primeiro olhar mais emocional com a poesia. Marcou-me profundamente. Depois estudei na faculdade muitos outros poetas de que gostei muito, a Poesia 61, etc.; mas tenho referências contemporâneas que eu, no fundo, tento imitar e falho e por isso é que isto não é um plágio.
É porque é um falhanço completo, do princípio ao fim, na tentativa de imitar as minhas grandes referências, desde a Filipa Leal, ao João Luís Barreto Guimarães, à Adília [Lopes], o Nuno Júdice, pessoas que me têm marcado nestes últimos anos.
Tenho uma história curiosa, no último livro da Filipa Leal, num poema que eu acho que se chama “Notívaga”, ela fala da poesia e compara-a ao punhal do Caravaggio, onde está escrito, “sem esperança, sem medo”.
Houve uma altura em que estava com um bocadinho de medo de publicar um livro e a Filipa citou-me uma parte desse poema, em que diz que para escrever poesia é preciso ter o punhal de Caravaggio encostado à língua, sem esperança e sem medo.
Escreves também letras para canções e letras para fados. É um trabalho distinto da escrita de poesia?
É completamente diferente. Houve uma altura da minha vida em que eu estava a confundir as duas coisas, ou seja, estava a escrever aquilo que achava que era um livro de poemas, e de repente já só pensava na métrica e na rima, ainda para mais, para quem escreve fado, está muito…
Sim, está muito espartilhado. Está muito envolvido naquelas fórmulas do fado tradicional, as sextilhas, quadras, quintilhas, versículos e eu, a certa altura, dei por mim a pensar demasiado nisso.
A forma que tive de dar um pontapé nessa parte mais formal, foi fazer exatamente o contrário, que é desligar-me por completo da forma e usar o verso livre.
Se bem que, depois, tento procurar muito o som e fazer muitos jogos de palavras. Tenho muitas rimas internas, mesmo que não se notem. Tenho uma brincadeira neste livro com um soneto e, portanto, vou na mesma às fórmulas tradicionais, mas a forma para tirar essa carapaça de cima de mim foi usar a outra parte do cérebro.