Perceções estão “a influenciar políticas públicas”, por “ignorância” ou manipulação
- 13/05/2026 01:30
- Redação
Francisco Miranda Rodrigues, ex-bastonário da Ordem dos Psicólogos, defende que há um erro crónico neste “jogo de acusações”. “Num extremo, desprezam-se as perceções dos cidadãos, no outro extremo, às vezes tratamo-las como prova suficiente de que algo é a verdade, no sentido dos factos e da evidência”.
A nível nacional, a semana passada deu, sobretudo às redes sociais, mais material para este debate durante uma cerimónia pública, em que estiveram o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, e o ministro da Administração Interna, Luís Neves.
Moedas disse nesse num colóquio sobre "Coesão Social e Estratégias Locais de Segurança" que “há lisboetas que nos dizem que existe uma certa perceção de insegurança”.
“Eu hoje nem vou falar aqui de números, vou falar do facto de que se essa perceção existe, então algo existe”, conclui.
Seguiu-se no palco Luís Neves que, perante uma plateia repleta de polícias e em jeito de resposta, afirmou: “Há que gerir a questão das perceções, Lisboa não tem mais crime do que teve no passado”.
E acrescentou: “Ninguém utilize os números para, através da manipulação, massificação e deturpação, possa vir a criar uma teoria do caos em que o objetivo é combater o respeito por todas as formas de diversidade do ser humano”.
O debate das perceções à volta da segurança ou da insegurança não é novo. É mesmo dos tópicos que suscita mesmo mais clamor. A corrupção e a imigração são outros temas em que o terreno é fértil para que os campos se extremem. Mas porquê?
Francisco Miranda Rodrigues responde que, “do ponto de vista da nossa evolução”, são assuntos “muito ligados à nossa sobrevivência enquanto espécie”.
O psicólogo argumenta que existe neste caso uma mescla de “automatismos físicos, biológicos e psicológicos”.
“Têm a ver com a forma como nós interpretamos certo tipo de estímulos, certo tipo de sinais, que nos acompanham há muito, muito tempo. E isso faz com que alguns aspetos que estão diretamente ou indiretamente relacionados com essas dimensões como, por exemplo, a segurança, tenham tanto impacto”, resume.
Sobre esta questão, Lívia Franco pensa que acaba por ser natural que estes sejam domínios em que as perceções têm grande influência, na medida em que estão “associados aos nossos medos e ao sentimento de injustiça”.
“Despertam mais a nossa indignação”, resume. “A dificuldade é não deixar que isso seja completamente instrumentalizado para fins de uma agenda política mais radical ou de uma agenda política que seja insurgente e que aumente essa sensação de insegurança ou essa sensação de corrupção”, diz.
As portas escancaradas da política às perceções não é uma realidade nova, concordam psicólogo e investigadora, mas os perigos parecem hoje mais visíveis.
Para Francisco Miranda Rodrigues, o problema é quando “a política abdica de distinguir claramente a perceção, a experiência e a evidência”. Nesse momento, “acho que não está a fazer um bom serviço aos cidadãos, porque a perceção é um ponto de partida [para ler a realidade], mas não é um ponto de chegada de maneira nenhuma”.
Mas isso está a acontecer e isso é causa e consequência para o crescimento dos populismos.
“O populismo é eficaz porque, muitas vezes, não discute indicadores, factos e evidências. Começa por validar emoções, e assume que aquilo que alguém sente é verdade e alguém tem a culpa. Isso politicamente pode ser poderoso, mas é também potencialmente muito perigoso porque transforma facilmente problemas complexos em culpados simples”, resume.
Lívia Franco acrescenta que quando se mistura perceções e política, falamos de um jogo em que há jogadores “que não são sérios e que trabalham mais sobre a parte emocional para causar leituras com efeitos negativos, para criar medo ou instabilidade”.
Mas demos alguns passos atrás para ir à raiz da questão. O que são na realidade isto das perceções?
Lívia Franco define assim: “São uma opinião que resulta não só de informação que nós procuramos e que recebemos, mas também daquilo que é o enquadramento material e imaterial que nos ajuda a fazer a leitura dessa realidade”.
Para que não restem dúvidas, esclarece que as perceções “não são a realidade”, mas são muito importantes, “porque de alguma maneira condicionam a maneira como a lemos”.
E as perceções, sublinha, são influenciadas por múltiplos fatores que vão desde o sítio onde nós estamos, da nossa identidade nacional ou comunitária, “mas sobretudo por aquilo que somos em oposição ao outro”.
Ou seja, não vivemos sem elas, até porque no fundo, segundo esta investigadora da Universidade Católica, “traduzem aquilo que são as prioridades, aquilo a que nós damos mais importância, mas também aquilo que são os nossos medos e as nossas preocupações”.
O psicólogo Francisco Miranda Rodrigues resume a questão da seguinte maneira: “A perceção, portanto, não é uma fotografia neutra do mundo, é uma organização. É uma espécie de lente que tem camadas e que tem sempre o risco de estar a distorcer [a realidade]”.
Mesmo sendo inevitável que nos socorramos das nossas perceções até pela falta de tempo para ter dados científicos sobre tudo o que falamos ou discutimos, quanto mais fazer múltiplas leituras e ter acesso a interpretações diferentes da mesma realidade, há problemas potenciais para a utilização deste recurso. Há o risco da obsessão, diz Lívia Franco.
“Notamos que determinadas perceções resultam de processos cuja intenção real não é informar, mas informar mal, ou seja, que há ativamente o intuito de passar informação que não é real, que não é verdadeira, que apresenta, por exemplo, provas seletivas”, afirma a investigadora e politóloga.
E há um mecanismo relativamente recente que serve como uma espécie de acelerador de partículas para a perceção: as todas-poderosas redes sociais.
“Aceleram tudo o que está a acontecer e recompensam determinado tipo de reações. Por exemplo, a indignação. Tornam mais visíveis muitas das versões extremadas de um lado e de outro”, diz o ex-bastonário dos Psicólogos.
Miranda Rodrigues ressalva: “As redes não inventaram a polarização, mas deram-lhe velocidade, recompensam a sua existência e dão-lhe um palco permanente”.
E o mesmo especialista conclui ainda que num mundo em que passámos a ter muito mais conhecimentos, muito mais evidência científica disponível, muito mais estatística, mais informação credível, paradoxalmente “estamos a optar pela utilização das perceções”.
“A política contemporânea vive muito do raciocínio emocional. O que é? É, no fundo, esta lógica de passar rapidamente do ‘eu sinto isto’, para ‘logo isto é verdade’”, explica. “Dizermos que uma coisa é verdadeira porque a sentimos intensamente, e isso é uma distorção cognitiva”, esclarece.
A tudo isto junta-se, segundo o psicólogo, um certo abandono do pensamento crítico, citando estudos da OCDE.
“Demonstram a queda dos últimos anos nesta competência. Ao misturarmos uma maior velocidade, que é dada pela tecnologia, à cada vez maior quantidade de informação com redução de pensamento crítico, faz com que estejamos a viver nesta lógica cada vez mais emocional e em que os viés inerente à perceção, ficam cada vez com mais poder”.
“As políticas públicas estão a ser influenciadas por estes processos, umas vezes de forma mais manipulatória, outras vezes por razões de ignorância”, remata Francisco Miranda Rodrigues.