"Tem aquela sede de vitória, nunca será um simples gregário": Afonso Eulálio nas palavras de quem o lançou
- 14/05/2026 05:35
- Redação
Joaquim Andrade, diretor desportivo da Feirense-Beeceler, equipa que lançou Afonso Eulálio, não esconde o orgulho por ver o jovem ciclista português a vestir a camisola rosa da Volta a Itália.
Esta quarta-feira, o ciclista da Bahrain-Victorious terminou a quinta etapa em segundo lugar e subiu à liderança da classificação geral individual. Em declarações a Bola Branca, Joaquim Andrade celebra o feito.
"É um marco importante para ele, para o ciclismo português, para todos nós que lidamos com ele. Penso que acaba por ser mais importante ainda do que a vitória na etapa. Se conseguisse a vitória na etapa, perfeito. Mas, acima de tudo, vestir de rosa no Giro é um sonho tornado realidade", enaltece.
Aos 24 anos, esta é a segunda época de Eulálio no World Tour. No ano passado, "fez uma adaptação muito boa" e destacou-se no Giro, tendo até sido eleito o mais combativo do dia na 17ª etapa.
Eulálio até se apresentou ao principal escalão do ciclismo mundial como um gregário. O seu antigo diretor desportivo considera que foi a "atitude correta", porém, discorda: "Ele nunca será um simples gregário."
"Ganhou o seu espaço por mérito próprio, porque as pessoas depois apercebem-se do valor que ele tem. Faz bem esse papel e lida bem com ele, mas tem capacidade para ser mais do que isso. Pode ser um gregário de luxo em algumas situações, mas sempre aquele gregário que terá sempre proteção para chegar aos momentos decisivos nas melhores condições. É um corredor que tem um potencial enorme e que tem aquela sede de vitória que faz a diferença", explica.
Agora, surge na prova "com muito mais liberdade, muito mais protegido", e com licença para brilhar.
"Era uma questão de tempo, não é? Até ele brilhar, ou uma conquista da rosa, ou uma vitória de etapa, eu sabia que o momento dele ia chegar durante este Giro. Felizmente, já lá está. Pronto, está de rosa. Agora, vamos aguardar pelo que vem a seguir", refere o antigo diretor desportivo de Eulálio.
E o que pode vir a seguir? Joaquim Andrade começa por pedir "calma", até porque ainda é preciso perceber as consequências da queda de Afonso Eulálio na fase final da etapa desta quinta-feira. Contudo, reconhece também que já antes da vantagem ganha nesta etapa, de mais de seis minutos para os favoritos, acreditava que o ciclista da Figueira da Foz tinha capacidade para lutar pelo top-10 da geral.
"Penso que ele poderá aguentar uns dias de rosa. E poderá, pelo menos, terminar no top-10 do Giro. E, quem sabe, um pouco mais, não é? Do Afonso, pode esperar-se sempre mais. Por isso, vamos com calma e vamos aguardar dia a dia a ver se ele nos dá ainda mais alegrias", remata.
Joaquim Andrade orientou Afonso Eulálio nas épocas 2020, 2021, 2023 e 2025. Lançou-o no Feirense com apenas 18 anos, por isso conhece-o como poucos. Acima de tudo, destaca "a boa disposição".
"Está sempre muito bem disposto. Encara sempre tudo com uma alegria contagiante e que arrasta todos que estão ao redor dele. E depois, é um lutador, nunca baixa os braços. Quando as coisas não correm bem, ele no dia seguinte está de novo a recomeçar como se estivesse tudo igual. É persistência. Persistência, profissionalismo e a boa disposição contagiante", elogia.
O diretor desportivo confessa a sua alegria ao ver este momento, enquanto amante e integrante do ciclismo português: "É marcante."
"O ciclismo português bem que precisa destes momentos. Eu digo sempre que todos nós em Portugal, todas as equipas, organizações, federação, associações, fazemos todos muito para o pouco que temos. O Afonso está aqui a demonstrar a qualidade que existe em Portugal, e nós, com tão poucos ciclistas a correr ao mais alto nível, volta e meia lá estamos nós no topo do mundo", enaltece.
É também "uma motivação extra" para que todos aqueles que trabalham no ciclismo português continuem a pedalar para levar o desporto "o mais longe possível". Além disso, mostra que não há um só caminho para o sucesso, para os ciclistas portugueses.
"Criava-se um pouco aquela ideia que quem não foi [para fora] enquanto jovem já não vai ter a possibilidade de ir, e o Afonso veio demonstrar que não, que realmente há este outro caminho a fazer", refere.
Ganhar experiência, primeiro, no circuito nacional permite "adquirir alguma experiência com mais calma, com mais tranquilidade". E assim, quando um ciclista entra no mais alto nível, "já leva uma bagagem por trás que o vai ajudar, depois, a que possa fazer uma adaptação mais fácil".
"Não é à toa que, antes destas mudanças no ciclo mundial, com a criação do World Tour e tudo isso, a equipa da Movistar anteriormente escolhia sempre a Volta a Portugal como um palco de eleição para lançar os seus jovens talentos. A Volta a Portugal é uma mini-Grande Volta. Tem tudo o que há numa Grande Volta, numa escala mais reduzida, mas é um campo de aprendizagem muito positivo", assinala.
Joaquim Andrade acredita, até, que o sucesso de Eulálio pode recordar as equipas do World Tour de que "é possível ir diretamente do ciclismo português para o mais alto nível, como já tinha acontecido no passado".
"É um incentivo para todos estes jovens que continuam aqui a correr em Portugal, saberem que o Eulálio poderá ser a referência deles e que, se ele conseguiu, também poderão outros um dia ser capazes", vinca.
Por agora, e independentemente do que acontecerá nas próximas etapas, Afonso Eulálio pode dormir com a tranquilidade de que, pelo menos até à hora da partida da etapa de sexta-feira, ninguém lhe tira a camisola rosa da Volta a Itália.
Joaquim Andrade reforça que o que o ciclista português, de 24 anos, fez até agora "já é muito positivo", e augura-lhe até um possível top-10 no final do Giro. Aconteça o que acontecer, o diretor desportivo da Feirense-Beeceler tem uma grande crença no potencial do jovem Afonso.
"Com a idade que tem, é um jovem ainda, tem um grande futuro pela frente. Vai ser um corredor de referência para os anos que estão aí para vir", antevê.
Afonso Eulálio é o terceiro ciclista português a vestir a camisola rosa do Giro, depois de Acácio da Silva e João Almeida. É ainda o quarto a liderar a classificação geral individual de uma Grande Volta, depois de Joaquim Agostinho (cinco etapas na Vuelta em 1976), Acácio (duas etapas no Giro e quatro no Tour em 1989) e João Almeida (15 etapas no Giro em 2020).