O futuro “psicologicamente habitável”

O futuro “psicologicamente habitável”

  • 18/05/2026 01:00
  • Redação

Durante décadas, interrogámo-nos sobre se a escola preparava os jovens para o futuro. Estamos a prepará-los para o emprego? Para a cidadania? Para a tecnologia? Para a competição global? Hoje, talvez as perguntas certas sejam outras: Que futuro lhes estamos a apresentar? E esse futuro ainda é “psicologicamente habitável”?

As causas são múltiplas. Redes sociais, pressão académica, insegurança económica, bullying, ansiedade climática, instabilidade global e fragilidades familiares cruzam-se num ecossistema de mal-estar. Importa, por isso, resistir a explicações únicas. Não é apenas o telemóvel, a pandemia ou a pressão escolar.

Há uma dimensão que raramente nomeamos com a coragem necessária. O exemplo dos adultos. Pedimos serenidade aos jovens enquanto lhes oferecemos um espaço público cada vez mais inflamado. Falamos-lhes de cidadania, mas normalizamos a agressividade como método. Ensinamos-lhes cooperação, mas a vida coletiva espraia-se como uma sucessão de trincheiras. Nós contra eles, vencedores contra vencidos, indignados contra inimigos.

Os jovens observam e absorvem tudo. Observam a linguagem política, a violência verbal nas redes sociais, a facilidade com que se humilha quem pensa de forma diferente e a transformação de quase todos os desacordos em combates morais. Observam adultos que exigem saúde mental nas escolas, mas validam, nas suas decisões públicas e privadas, ambientes de hostilidade permanente. Observam-nos quando dizemos que queremos diálogo e, logo depois, recompensamos quem grita mais alto.

É neste contexto que a escola ganha uma importância ainda maior. Não porque possa resolver sozinha aquilo que a sociedade adulta desorganiza. Seria injusto exigir-lhe que compensasse a precariedade, a crise da habitação, a solidão digital, a violência verbal, a instabilidade geopolítica ou a pobreza de horizonte. Mas a escola pode ser um dos poucos lugares onde se aprende, de forma concreta, que discordar não é destruir, exigir não é humilhar e pertencer não é pensar da mesma forma.

A tentação será responder a este problema com mais serviços especializados. Eles são necessários. Seria irresponsável desvalorizar psicólogos, psiquiatras, equipas multidisciplinares e respostas clínicas acessíveis. No entanto, a escola não pode transformar-se num hospital. Os professores não são terapeutas. Mas a escola pode escolher entre ser terapêutica e ser uma circunstância agravante, pelo modo como acolhe, exige, escuta, compara, pune, protege ou abandona.

Daqui decorre que a próxima grande reforma da educação talvez não seja curricular, tecnológica ou administrativa. Talvez seja relacional. Precisamos de escolas e universidades capazes de ensinar conhecimento sem humilhar, exigir sem esmagar, avaliar sem reduzir a pessoa ao resultado. Precisamos de comunidades educativas em que a excelência não seja confundida com exaustão, nem a autonomia com abandono.

E isto não significa baixar as expectativas. Uma escola que protege a saúde mental não é uma escola sem rigor nem sem ambição. É uma escola que percebe que a aprendizagem exige confiança e que a confiança exige vínculos. O contrário da exigência não é o cuidado. É a indiferença. E cuidar não é facilitar tudo. É criar as condições para que cada jovem possa enfrentar a dificuldade sem se sentir sozinho dentro dela.

No fundo, a crise de saúde mental dos jovens é um espelho. Mostra-nos que talvez tenhamos pedido mais desempenho do que oferecido sentido. Demasiada conectividade e pouca presença. Demasiada preparação para o futuro e pouca segurança no presente. Nenhuma escola resolverá sozinha a precariedade, a habitação, a solidão digital ou a incerteza do mundo. Mas pode ser um dos lugares onde se reaprende a respirar.

Durante muito tempo, pensámos que preparar os jovens para o futuro era dar-lhes competências. Continuamos a precisar delas. Mas talvez o primeiro dever educativo do nosso tempo seja fazer com que o futuro volte a parecer uma promessa, e não apenas uma ameaça. Isso não depende só das escolas. Depende da linguagem que usamos, das decisões que tomamos, dos exemplos que damos e da coragem com que recusamos transformar a vida comum num campo de batalha. Se queremos jovens livres, criativos e responsáveis, não basta entregar-lhes ferramentas. Temos de lhes oferecer confiança, pertença e horizonte. A geração que cresce hoje não precisa apenas que a preparemos para sobreviver ao mundo que herdará. Precisa que comecemos, já, a construir com ela um mundo que valha a pena habitar.

Frederico Fezas Vital é professor e executive diretor na Católica-Lisbon Yunus Social Innovation Center

  • Fonte: Rádio Renascença
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