O verdadeiro mundo de Manuel João Vieira em exposição no MAAT
- 18/05/2026 14:10
- Redação
Mais de 50 obras de pintura, desenho e escultura fazem a exposição “A Ilha Púrpura: notas e paisagens”, de Manuel João Vieira. A mostra, que abre ao público quarta-feira no MAAT, em Lisboa, revela o outro lado do artista que foi candidato presidencial e é músico.
Manuel João Vieira está de caneta e tinta-da-china na mão quando chegamos à sala do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), onde tem a sua exposição. O artista está a ultimar um desenho, o único, a preto e branco que está nas paredes do museu onde abre, quarta-feira ao público, a exposição “A Ilha Púrpura: notas e paisagens”.
A mostra reúne 50 obras de pintura, desenho e escultura. O curador João Pinharanda disse, na apresentação, que Manuel João Vieira “não tem um universo, mas sim um ‘pluriverso’". Com isto quer dizer que o artista tem diversos mundos que vão da música à política. Neles Manuel João Vieira encarna várias personagens.
“Eu, além de ser a pessoa que é o mecanismo de pintar, sou ao mesmo tempo espetador das coisas”, explica. “Acho que estou dividido em duas pessoas, a que é o espetador e o tipo a partir do qual fluem as imagens”, detalha.
A sala do MAAT de paredes arredondadas está cheia de quadros que vieram, em grande parte, do atelier de Manuel João Vieira, outros pertencem ao acervo da Coleção EDP. As pinturas datam entre a década de 80 e 2026. Algumas delas foram já acabadas para esta exposição onde há pinturas de grande dimensão.
João Pinharanda acrescenta o olhar do curador ao dizer que há no trabalho de Manuel João Vieira uma grande coerência. “Não faz muito sentido estarmos a olhar para ele a pensar que há uma evolução, ou que há um caminho. É um ‘pluriverso’ com uma grande unidade. Tudo entra na mesma lógica figurativa e narrativa”, destaca o curador.
Quer nos quadros, quer nas esculturas ou nos desenhos misturam-se personagens de banda desenhada com figuras da mitologia, da literatura ou mesmo da Bíblia. “O Manuel João alimenta esse universo de personagens míticas, literárias, históricas, às vezes, religiosas que entram todas em diálogo umas com as outras”, sublinha Pinharanda.
O artista recorda que disse ao pai que “achava que a banda desenhada era uma coisa muito superior à pintura, porque, além de ter imagem, tinha o verbo”. “O meu pai achava que eu não percebia nada disto”, diz a rir Manuel João Vieira, que ainda sonha um dia fazer “uma banda desenhada gigante”.
Foi, de resto, pela banda-desenhada que Manuel João Vieira começou “quando era pequeno”, contou aos jornalistas na apresentação da exposição. “Ainda publiquei uma banda desenhada, mas a partir do momento em que fui para as Belas-Artes fiz uma data de pinturas e, a partir daí, comecei a orientar as coisas e conseguir perceber que tinha algum interesse em fazer pintura”.
João Pinharanda fala do “peculiar estilo de intervenção” do artista. Exemplo disso são duas esculturas que ocupam o centro da exposição e que colocam frente-a-frente os mundos de Lenine e o de Salazar.
De um lado a peça “Salazauro rubro” (2021), uma escultura de cor vermelha – “Benfica” como diz o artista –, que mostra um cão sentado com a cabeça de António de Oliveira Salazar. A peça está a olhar outra escultura, “O Atelier de Lenine”, de 2020, que é constituída por uma grande mesa com várias gavetas de onde saem bustos de Lenine, rodeados de bandeiras do PCP e no centro tem um globo com um comboio elétrico às voltas.
“O Atelier de Lenine é onde Lenine fabricou a sua arte política, o internacionalismo proletário. Aquele comboio dá a volta ao mundo. É uma reflexão acerca da política e da ligação entre o nosso ditador que também é um cão fiel que olha soberanamente para o mundo bolchevista. De tanto olhar para o comunismo, ficou assim. Chamo-lhe o Barão Vermelho”, diz o artista.
Questionado sobre se a sua incursão na política é uma extensão da arte, Manuel João Vieira explica que o que lhe “interessa é o lado performativo da coisa, criar um personagem que é responsável por essa performance”.
“Não sou eu. Acho interessante. É a mesma coisa que me acontece quando faço música, por exemplo, com os EnaPá2000. É encarnar um personagem mais ou menos abjeto. Acho que sem esse personagem não conseguiria estar a fazer aquelas músicas e a cantar em público”, refere.
Na base de muitos dos trabalhos que apresenta na exposição está o desenho. Manuel João Vieira chama-lhe “o fio condutor”. “Eu começo a desenhar e o fio é a linha” que leva à pintura admite o artista. No entanto, nem sempre o desenho está na base e na pintura permite-se por vezes pintar por cima de outras figuras.
Sobre o seu método de trabalho, Manuel João Vieira reconhece que, agora, quer fazer uma coisa de cada vez. “Eu tenho tendência a fazer várias coisas ao mesmo tempo”, explica, dando como exemplo alturas em que está no atelier. “Vou à casa de banho, e lembro-me de uma coisa qualquer para uma canção e vou lá e escrevo”, conta, mas pelo meio dedica-se a um quadro.
Sobre o título da exposição “A ilha Púrpura”, o artista olha em seu redor e identifica várias ilhas nas suas telas. Diz também que é um título poético. Perguntamos por isso se escreve poesia, admite que sim. “Muito mal, mas escrevo poesia, sobretudo quando estou em estados muito estranhos”, diz.
A exposição no MAAT vai estar patente até 7 de setembro e conta com visitas guiadas flash de 30 minutos, todos os dias, às 18h00, exceto às terças-feiras, dia em que o museu está encerrado.